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Etapas iniciais da terapia: uma questão de (des)ajustes

Regina Wielenska 01/01/2016 PSICOLOGIA
O perfeito ajuste entre cliente e terapeuta é conquistado lentamente

por Regina Wielenska

Existe, por acaso, uma estratégia certeira, que assegure a alguém o sucesso e plena satisfação na hora de escolher um terapeuta?

É óbvio que não, impossível desconsiderar que nesse mundo praticamente tudo é relativo, incerto e imprevisível.

Mas algumas coisas ajudam. Vamos pensar nelas, então. Primeiro, precisamos lembrar que muitas das pessoas que buscam atendimento clínico psicológico o farão por meio da rede de serviços públicos, que são escassos em muitas localidades. Dessa rede fazem parte, por exemplo, os postos de saúde, os Centros de Assistência Psicossocial, ambulatórios de hospitais universitários, clínicas-escola de universidades e de organizações não governamentais. Nesse caso, o acesso à psicoterapia geralmente depende de avaliação prévia e de um encaminhamento formal (médico, social, odontológico ou pedagógico) ao serviço de Psicologia da instituição pública de saúde. Não raro há filas de espera. O importante é não desistir, perseverar na busca de uma vaga, e tirar o máximo proveito da experiência quando chegada a hora.

Os atendimentos na rede pública, a depender do contexto, serão individuais ou em grupo, ocasionalmente por tempo determinado, com limite preestabelecido de faltas, ofertas limitadas de horário, entre outras características. Essas regras foram definidas pela instituição antes mesmo de o indivíduo precisar do atendimento do psicólogo, elas constituem as bases administrativas da instituição pública de saúde. Provavelmente, o cliente não poderá escolher o profissional, muito menos seu gênero, abordagem teórica (psicanalítica, analítico-comportamental, gestáltica, psicodramática, cognitiva, etc.) e a modalidade de atendimento (grupal ou individual).

Sólida confiança é essencial

Independente desses aspectos, algo muito importante precisará ocorrer: sem que haja uma sólida confiança do cliente no profissional, não há terapia que progrida. A cada sessão será tecida uma trama, que interliga o cliente e seus problemas, à pessoa do psicólogo, alguém dotado de conhecimentos científicos adquiridos ao longo dos cinco anos da graduação em psicologia (e em muitos outros cursos ao longo da carreira profissional), que se aliam à sua bagagem pessoal e a um profundo respeito ao código de ética.

Com base no esforço e um real compromisso do cliente e terapeuta, precisará haver abertura ao longo do tempo, além de respeito, compreensão mútua e comunicação de qualidade. Somente a partir daí, tem início uma relação profissional potencialmente capaz de produzir transformações relevantes na vida do cliente.

No caso de atendimentos clínicos privados há algumas diferenças. Em primeiro lugar estamos diante de uma situação na qual o cliente escolhe o terapeuta, que pode ter sido indicado por amigos, um profissional de saúde, ou ser conhecido do cliente já antes da primeira consulta. O cliente será responsável por remunerar o terapeuta de acordo com valores previamente acertados entre as partes. Honorários são fixados com base nas qualificações, experiência e renome do terapeuta, seu tempo de experiência profissional, titulação acadêmica, custos operacionais da clínica. Alguns terapeutas flexibilizam os custos dentro de certos limites para clientes com dificuldades financeiras. Outros preferem sugerir colegas com honorários mais reduzidos, e não deixam pessoa alguma sem um terapeuta.

No atendimento privado, terapeuta e cliente escolherão juntos o melhor dia e horário das sessões, comparando as respectivas agendas. Na primeira ou segunda consulta, os participantes, sob a condução do terapeuta, definem as normas do contrato terapêutico, especificam normas acerca de sigilo, férias, remuneração de sessões e faltas, entre outros aspectos.

Nas duas modalidades de atendimento, público e privado, a terapia começa de verdade quando o cliente inicia a narrativa, para seu terapeuta, do que entende serem suas queixas, relata suas aflições, aborda a provável raiz dos seus problemas. A capacidade do terapeuta de acolher e entender essas questões todas, ajudando o cliente a ter novas perspectivas sobre cada problema, determina em parte o sucesso das intervenções clínicas.  Mas o sucesso também está nas mãos do cliente, de sua disponibilidade de abrir seu coração para alguém sobre quem nada sabe, mas em quem aprenderá a confiar, um pouco a cada sessão.

O perfeito ajuste entre cliente e terapeuta é conquistado lentamente. Se, a despeito de ativas tentativas, não se estabelecer uma relação profissionalmente confortável entre cliente e terapeuta, resta avaliar o que ocorreu e buscar um novo profissional, mais compatível.

Desistir não vale a pena, a vida merece ser atravessada com leveza e senso de propósito, a terapia pode ajudar em muito, acreditem nisso.




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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