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Entenda por que amar pode se tornar um vício

Tatiana Ades 01/01/2016 PSICOLOGIA
O amor não se vende em garrafas, não se traga, não se cheira, é invisível

por Tatiana Ades

O que é o vício? Por que será que João bebe muito e Maria come demais?

O que faz com que Rita jogue compulsivamente e Beto precise usar drogas todos os dias?

O nosso cérebro funciona em termos de "recompensas".

Por isso, algumas pessoas se viciam para receberem uma dose de dopamina, neurotransmissor liberado pelo cérebro que estimula o prazer.

Por exemplo, no caso dos usuários dependentes de maconha, o cérebro irá produzir duas vezes mais a quantidade de dopamina causando a sensação de "bem-estar e alívio".

Com o passar do tempo, o cérebro passa a gerar menos dopamina, e o indivíduo entra no vício com mais afinco, precisando cada vez mais da droga para obter o mesmo prazer obtido anteriormente, entrando dessa forma num círculo vicioso.

Vícios

Darei três exemplos reais de vícios diferentes para mostrar que o amor pode se transformar em vício: a pessoa precisa dessa "droga: o outro" para sentir-se bem e aliviada.

Daniel é adicto (dependente) e precisa beber todos os dias. Sente-se emocionalmente incapaz de enfrentar o seu dia a dia e qualquer situação social sem o uso do álcool.

Segundo ele, o álcool no início causava uma sensação de liberdade e perda de timidez, mas que com o passar do tempo virou necessidade diária.

Sandra é compulsiva por sexo, o seu diálogo quando fala do assunto não possui afetividade, ela diz que o sexo com vários homens a faz sentir-se aliviada, que no começo sentia uma sensação de poder que transformou-se em necessidade diária para poder pensar e fazer as coisas do dia a dia. Ela quer parar, mas sofre e acaba voltando ao vício.

Bianca, não bebe, não usa drogas e não é viciada em sexo, compras ou comida.

Ela precisa estar apaixonada, senão a sua vida se torna um "inferno". Ela conta que precisa estar com alguém, vivenciar relacionamentos intensos e não suporta a sensação de estar sozinha sem compartilhar sua vida com alguém; diz que não bastam amigos e família, e que quando alguém a abandona, ela precisa desesperadamente de outra pessoa como forma de substituição e alivio.

Essas três pessoas possuem vícios diferentes, mas a necessidade do mesmo toma conta de suas vidas, tornando-as refém.

Vamos observar as semelhanças dos três casos quando falamos de abstinência (estar sem o "objeto" do vicio):

Daniel, Sandra e Bianca em momentos que tentaram parar o vício sentiram:

- falta de ar;
- tremores;
- dores no corpo;
- ânsia de vômito;
- insônia;
- desespero;
- depressão;
- pânico;
- pensamentos suicidas.

Qualquer vicio é perigoso, pois a bola de neve é justamente não querer passar pelos sintomas de abstinência. Mas a única forma de sairmos de um vício é aguentarmos esse período de abstinência, enviando ao nosso cérebro a informação de que não mais precisamos dessa dopamina, que podemos viver sem ela. E o cérebro, assim como todo o organismo que está intoxicado, acaba não precisando mais do vicio. O tratamento para se livrar de um vício ou dependência química deve ser individualizado e conduzido por um psiquiatra especializado na matéria, pois em muitos casos requer o uso de medicamentos.

No caso do amor não temos uma substância. O amor não se vende em garrafas, não se traga, não se cheira, é invisível, por isso tantas pessoas estranham estar vivenciando um quadro de vicio afetivo e amoroso.

Mas é importante saber que mesmo o invisível pode nos intoxicar de forma devastadora e é preciso prestar atenção se a nossa dependência em relação ao outro não está nos sugando, nos tirando o foco de nós mesmos; trazendo ansiedade e incapacidade para agir como "indivíduo".

São raras as pessoas que se viciam em si mesmas, no sentido saudável da questão. E é esse tipo de vício -- o amor próprio -- que precisamos aprender a ter para não nos deixarmos afundar em válvulas de escape.




Tatiana Ades

É psicanalista e escritora e teatróloga. Em seus livros, o foco de estudo é o comportamento humano e o amor patológico. Tem em seu currículo várias peças escritas e encenadas nos teatros de São Paulo, além de ter concorrido ao prêmio Shell de melhor texto teatral com Os Viúvos – Teatro Ruth Escobar (2003). Como escritora, em 1998, ganhou um concurso com o conto O silêncio da raposa. Eles são o resultado de uma pesquisa de três anos: Hades – Homens que amam demais e As escravas de Eros.



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