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E quando o outro mente?

Monica Aiub 01/01/2016 COMPORTAMENTO
E agora, quanto de você há na história que você inventou?

por Monica Aiub

“No homem esta arte da simulação atinge seu auge: decepção, bajulação, mentira e trapaça, falar pelas costas, pose, viver com esplendor emprestado, ser mascarado, o disfarce da convenção, desempenhar um papel diante dos outros e de si mesmo – em suma, o constante alvoroço em torno de chama única da vaidade é de tal forma a regra e a lei que quase nada é mais incompreensível do que uma honesta e pura ânsia pela verdade ter surgido entre os homens. Eles estão profundamente imersos em ilusões e imagens oníricas; seus olhos só deslizam sobre a superfície das coisas e veem ‘formas’; seus sentimentos em ponto algum levam à verdade, mas se contentam com a recepção de estímulos, jogando, por assim dizer, um jogo de cabra-cega pelas costas das coisas” (NIETZSCHE. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral, 1873)

Apesar de datar de 1873, o trecho de Nietzsche nos parece, em alguns aspectos, tão atual! Mentimos, bajulamos, trapaceamos, mascaramos, fazemos uso do disfarce, desempenhamos papéis. E isso é tão habitual que uma das primeiras questões que surgem quando afirmo que os dados, em filosofia clínica, são coletados a partir da história de vida contada pelo partilhante, é: E se ele estiver mentido?

Em geral respondo citando alguns casos em que as pessoas “mentiram” e, após um tempo, contaram estar “mentindo”. E demonstro que, nesses casos, apesar de uma “mentira deliberada”, os dados necessários para o trabalho clínico são identificados. Como isso é possível?

Façamos um exercício – costumamos fazê-lo no curso de formação em Filosofia Clínica – para exemplificar a situação: crie uma história fantasiosa, inverossímil. Criou? Agora, vamos analisar a história inventada. Pense nos elementos utilizados para compor sua história. De onde eles vieram? Nesse exercício, geralmente identificamos componentes advindos de nossas vivências. Criamos as histórias com esses elementos, ainda que eles não sejam, exatamente, o que vivemos.

História de uma partilhante

Como exemplo, cito uma partilhante que criou uma história cuja personagem não vivia o que ela viveu, mas sentia tudo o que ela sentiu em situações similares. Sua relação com o trabalho, apesar da personagem do conto exercer outro tipo de atividade, surgia como um importante ponto a ser observado em clínica. A relação com o namorado, o gosto pelas paisagens, as formas de lidar com as contrariedades do contexto, tudo isso era revelado tanto no conto, como em seu histórico de vida.

O detalhe mais interessante do caso é que essa moça só revelou ter relatado uma história inventada tempos depois, quando já possuía uma relação firme o suficiente para confiar suas questões em clínica. E, comparando os dados observados no conto e no histórico narrado, há, não apenas similaridades, mas uma mesma estrutura que se revela. A utilização dos contos, criados pela partilhante, para trabalhar seus sentimentos, para identificar como eles interagem com os outros dados de sua Estrutura de Pensamento, como os contextos geram modificações nesses sentimentos foram alguns dos dados necessários para desenvolver nosso trabalho em clínica.

O mesmo foi observado em vários e diferentes casos. Como isso é possível? Antes de responder, voltemos ao exercício. Retome a história que você inventou. Observe se os elementos que a compõem encontram-se em seu contexto; se as relações existentes na história aproximam-se, ainda que minimamente, das formas de relação que você estabelece ou presencia. Observe também, qual a visão de mundo predominante em sua história; o quanto de sua forma de ser há nela? Há semelhanças entre o que você criou e seus sentimentos, suas formas de expressão, suas formas habituais utilizadas para organizar suas ideias? Há valores na sua história? Eles correspondem, de alguma maneira, a valores seus? E as formas de enfrentar os problemas, ou fugir deles, ou lidar com eles, são semelhantes na sua vida e na sua história?

Enquanto o filósofo clínico ouve o histórico do partilhante, como apresentado no artigo anterior - clique aqui -, ele observa aspectos formais da Estrutura de Pensamento, ou seja, ele acompanha o movimento do pensar, sentir, agir, observa os padrões comuns nas formas de vida apresentadas nesse relato. Interessa ao filósofo clínico, não os fatos, mas suas interpretações, seus significados; e mais ainda, as formas, os processos de interpretação, de significação. Os diferentes olhos utilizados pelo partilhante para compreender a si mesmo, ao outro e ao mundo.

Perspectiva de Nietzsche

“Existe apenas um ver em perspectiva, um ‘saber’ em perspectiva; e quanto mais olhos, diferentes olhos, pudermos usar para observar uma coisa, mais completo será nosso ‘conceito’ dessa coisa, nossa ‘objetividade’. Mas eliminar a vontade de todo, suspender todo e cada afeto, supondo que fôssemos capazes disso – o que significaria se não a castração do intelecto?” (NIETZSCHE. Genealogia da Moral, 1887).

Em 1887, em outra fase de seu pensamento, Nietzsche nos apresenta esse “ver em perspectiva”. O perspectivismo é a constatação da parcialidade de nossos conhecimentos. Se hoje eu “vejo por um olho” e amanhã “vejo por outro”, ou seja, se modifico a interpretação dada ao vivido, isso não significa que ontem ou hoje eu estivesse equivocada, ou estivesse mentido. São apenas diferentes perspectivas. Isso permite que um partilhante conte sua história na primeira consulta de uma maneira, e na quinta consulta, por exemplo, conte a mesma história de maneira diferente. O que mudou? Talvez ele tenha modificado o significado do vivido por ter lembrado essa história e relacionado a outros pontos de seu relato; talvez ele esteja vivendo algo, no momento presente, que o faça modificar sua perspectiva; talvez ele tenha alterado algum aspecto em seu processo de pensamento...

Enfim, não é possível dizer, sem um estudo aprofundado, o que se passa.

Na clínica filosófica, fazemos esse estudo aprofundado, buscando a estrutura formal das diferentes perspectivas do mesmo partilhante, e ainda, em alguns casos, o levantamento de outras possíveis perspectivas que possam aventar possibilidades de criação de novas formas de vida, mais próximas ao que o partilhante deseja.

Seu desejo, sua busca inicial, também pode se modificar durante o processo? Sim. E muitas vezes isso ocorre, por isso, o trabalho clínico não é estático. Não se trata de fazer uma leitura estrutural e responder tudo através dela, mas de fazer uma leitura estrutural em movimento, e acompanhar o movimento da vida.

Por isso o termo partilhante, pois se trata de uma constante e ininterrupta partilha, com surpresas, novidades, novos olhos, diferentes descobertas, constantes invenções.

E agora, quanto de você há na história que você inventou? Talvez os textos de nossa literatura falem mais sobre o olhar e as formas de vida de seus autores, do que sobre personagens. Talvez os relatos das vivências revelem muito mais sobre o íntimo de quem relata do que sobre os fatos relatados. Seria o caso de, como afirmou Schopenhauer na primeira frase do livro O mundo como vontade e representação, considerar que “O mundo é a minha representação”? Deixemos a questão para um outro artigo.




Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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