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Autismo: tratamento precoce melhora perspectivas de quem possui o transtorno

Edson Toledo 01/01/2016 PSICOLOGIA
Autismo ocorre em pelo menos 1% das crianças e não tem cura

por Edson Toledo

O autismo infantil foi primeiramente descrito por *Leo Kanner na Universidade de Johns Hopkins, em 1943. Kanner observou onze crianças por cinco anos e descreveu alterações comportamentais comuns entre elas e que permaneciam inalteradas ao longo do tempo, sendo: (1) apego completo às rotinas do dia a dia, (2) isolamento extremo e (3) preferência aos objetos inanimados em relação às pessoas. A esse conjunto de sinais e sintomas Kanner deu o nome de autismo infantil precoce.

Atualmente com o DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais 5.ª edição) , os transtornos do espectro autista (TEA) são uma denominação que abrange de forma dimensional os transtornos invasivos do desenvolvimento (TID), que são: transtorno autista, **transtorno de Asperger, ***transtorno desintegrativo da infância e os ****transtornos invasivos do desenvolvimento sem outra especificação.

O termo autismo descreve prejuízos em interações sociais, comunicação social combinados com comportamentos rígidos e repetitivos suficientemente graves que geram dificuldades no desenvolvimento da pessoa enquanto ser humano, afetando diversas áreas da vida. O portador vive imerso em seu próprio mundo, já que ele cria uma realidade própria.

É de grande importância que os serviços de saúde estejam preparados para reconhecer o transtorno, que ocorre em pelo menos 1% das crianças e que em 70% dos casos ocorre de forma concomitante com algum outro transtorno psiquiátrico. Aproximadamente 60% das pessoas com transtornos do espectro autista possuem deficiência intelectual, sendo 50% em nível leve e 50% entre os níveis moderados e graves.

O autismo infantil e todos os TEA são condições com um importante caráter genético, com uma hereditariedade estimada em 90%. Os estudos atuais sugerem que existam basicamente três agrupamentos genéticos:

(1) Quadros sindrômicos, em que existe um gene de efeito maior;
(2) Quadros poligênico, ou seja, vários genes de pequeno efeito contribuem para o fenótipo: ou seja, o conjunto de características físicas, morfológicas e fisiológicas de um organismo;
(3) Quadros nos quais alterações de novo ou muito raras sejam o determinante para o transtorno.

Como identificar e avaliação inicial da suspeita de autismo?

Os sinais são aparentes nos primeiros anos de vida e tendem a diminuir de intensidade com o tempo, mas as incapacidades são persistentes e de intensidade variável em múltiplas áreas do funcionamento, como comunicação linguagem, aprendizagem e comportamentos adaptativos aos contextos sociais.

Toda avaliação de autismo deve conter:

(1) História do desenvolvimento, focando em características de comportamento e desenvolvimento neuropsicomotor;

(2) História médica, incluindo informações de pré-natal, parto, história familiar e problemas de saúde atuais e passados;

(3) Em geral, recomenda-se além da avaliação médica (por psiquiatra, pediatra ou neurologista), uma avaliação com outros profissionais, principalmente psicólogos e fonoaudiólogos. Em certos casos, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais e psicopedagogos também devem ser consultados. Essas avaliações são importantes no auxílio diagnóstico, assim como no planejamento do tratamento;

(4) A avaliação multidisciplinar precisa abarcar a análise das habilidades de interação social, comunicação e comportamento;

(5) Os pais costumam ser os primeiros a notarem atrasos no desenvolvimento dos filhos, portanto, informações sobre suas preocupações são muito importantes. Além dos pais, outras pessoas que têm contato direto com a pessoa com suspeita de autismo podem trazer informações importantes, como outros familiares, professores etc;

(6) Detalhes sobre as experiências educacionais, sociais e vida familiar do paciente;

(7) Exame físico.

Caso exista a suspeita de autismo, a criança, o jovem ou o adulto deve ser encaminhado para grupos específicos, compostos por equipes multidisciplinares com pelo menos um pediatra e/ou psiquiatra da infância e adolescência e/ou neurologista, fonoaudiólogo e psicólogo. O tratamento com equipe multidisciplinar visa proporcionar ao indivíduo com autismo o máximo possível de autonomia (na escola, no mercado de trabalho e na sociedade como um todo) e qualidade de vida; isso por meio de estimulação de suas potencialidades atreladas à assistência a suas dificuldades. Dois elementos-chave para o sucesso do tratamento são o diagnóstico precoce e o tratamento adequado, geralmente intensivo, estruturado, individualizado e abrangente.

Não existe cura para autismo, mas um programa de tratamento precoce, intensivo e apropriado melhora muito a perspectiva de crianças pequenas com o transtorno. O principal objetivo do tratamento é maximizar as habilidades sociais e comunicativas da criança por meio da redução dos sintomas do autismo e do suporte ao desenvolvimento e aprendizado.

Uma equipe experiente deve desenvolver o programa para cada criança. Há várias terapias para autismo disponíveis, incluindo: terapias de comunicação e comportamento, medicamentos, terapia ocupacional, fisioterapia...

Existem programas que ensinam as crianças como agir em determinadas situações sociais e a como se comunicar propriamente. Um desses programas é a ABA, sigla em inglês para Análise Aplicada do Comportamento, muito utilizado em crianças pequenas com algum distúrbio dentro do espectro do autismo. Os programas de ABA normalmente são feitos na casa da criança sob a supervisão de um psicólogo.
Outro programa é o TEACCH (sigla em inglês para Tratamento e Educação para Autistas e Crianças com Déficits relacionados à Comunicação), que utiliza recursos visuais que ajudam a criança a trabalhar de forma independente e a organizar e estruturar seu ambiente. O TEACCH tenta melhorar as habilidades e a adaptação de uma criança.

Não existem medicamentos capazes de tratar os principais sintomas do autismo, mas, muitas vezes, são usados medicamentos para tratar problemas comportamentais ou emocionais que os pacientes com autismo apresentem, como agressividade, ansiedade, problemas de atenção, compulsões extremas que a criança não pode controlar, hiperatividade, irritabilidade, alterações de humor, surtos, dificuldade para dormir e ataques de raiva.

No Brasil, o principal serviço público para assistência às pessoas com transtornos do espectro autista, especificamente crianças e adolescentes, são os Centros de Atenção Psicossocial infantil (CAPSI). Porém essas unidades ainda são escassas, por isso, outras opções devem ser consideradas, como:

(1) Unidades Básicas de Saúde (UBS) que possuam profissionais experientes em desenvolvimento infantil, como pediatras, psiquiatras, psicólogos e fonoaudiólogos;
(2) instituições especializadas, como a Associação dos Amigos dos Autistas (AMA), informações no sitio: www.ama.org.br/ e,
(3) Outras Instituições e Organizações Não Governamentais (ONG) que prestam assistência a pessoas com deficiência com equipe multidisciplinar com experiência em autismo.

*Leo Kanner, 13/06/1894-04/04/1981 - Psiquiatra austríaco radicado nos Estados Unidos.
**Asperger é uma condição psicológica do espectro autista caracterizada por dificuldades significativas na interação social e comunicação não verbal, além de padrões de comportamento repetitivos e interesses restritos. Difere de outros transtornos do espectro autista pelo desenvolvimento da linguagem e cognição.
***Transtorno desintegrativo da infância, também conhecido como síndrome de Heller, é uma condição em que as crianças se desenvolvem normalmente até as idades de 2 a 4, mas depois podem demonstrar uma grave perda de comunicação social, e outras habilidades. O transtorno desintegrativo da infância geralmente ocorre mais tarde do que o autismo e envolve uma perda mais dramática de competências. Além disso, o transtorno desintegrativo da infância é muito menos comum do que o autismo. Perda de marcos de desenvolvimento pode ocorrer de forma abrupta, ao longo de dias ou semanas, ou gradualmente ao longo de um período prolongado de tempo.
****A categoria residual denominada transtorno invasivo de desenvolvimento sem outra especificação não possui critérios específicos. A classificação de crianças que não se encaixam em nenhum outro TID deve ser colocada nesta condição.




Edson Toledo

Coordenador do serviço de atendimento a pacientes com tricotilomania no PRO-AMITI/IPq FMUSP. Supervisor clínico na UNIP. Psicólogo pela Universidade Metodista. Mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da USP. Especialização em Terapia Cognitivo-comportamental pelo Ambulim/IPq FMUSP. Especialização em Psicologia Hospitalar pela UNISA



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