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Boa memória: para lembrar é preciso esquecer; entenda essa dinâmica

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 COMPORTAMENTO
O esquecimento é parte integrante e constitutiva da memória

por Elisandra Vilella G. Sé

Por que esquecemos? O renomado neurologista Ivan Izquierdo responde essa questão em seu livro Memória:

"Esquecemos talvez, em parte porque os mecanismos que formam e evocam memórias são saturáveis. Não podemos fazê-los funcionar constantemente e de maneira simultânea para todas as memórias possíveis, as existentes e as que adquirimos a cada minuto. Isso obriga naturalmente a perder memórias pré-existentes, por falta de uso, para dar lugar a outras novas".

Do ponto de vista neurológico a resposta é adequada e convincente, mas a resposta parece não ser capaz de, isoladamente, explicar por que precisamos esquecer, ou por que, esquecendo, lembramos.

De fato, as explicações sobre o esquecimento são cruciais na elucidação dos processos de memória.

Porém, nem sempre o esquecimento é tido apenas como um vale de sombras que nos afasta das luzes da recordação. Ele é também parte integrante e constitutiva da memória, sem a qual essa não se torna possível.

Nas palavras de Santo Agostinho, podemos ver a definição de memória sobre outro prisma:

"Que é o esquecimento senão a privação da memória? E como é, então, que o esquecimento pode ser objeto da memória se, quando está presente, não me posso recordar? Se nós retemos na memória aquilo de que nos lembramos, e se nos é impossível, ao ouvir a palavra 'esquecimento', compreender o que ela significa, a não ser que dele nos lembremos, conclui-se que a memória retém o esquecimento. A presença do esquecimento faz com que o não esqueçamos; mas quando está presente, esquecemo-nos". (Livro X, 16-24).

Se tudo isso compõe um quadro absolutamente normal no contexto atual de qualquer língua falada, o que faz com que se reconheça uma espécie de "alzheimerização" da velhice e do envelhecimento?

Poderíamos perguntar também até que ponto o esquecimento aproxima-se da memória de modo a confundir-se ou a se distinguir dela?

Em seu livro A arte de esquecer (2004), Izquierdo afirma que é "necessário esquecer para poder fazer generalizações e, portanto, pensar".

Segundo o autor, é provável que o esquecimento seja de fato o aspecto mais predominante de nossa memória. Ele argumenta nessa obra, a maneira dos que postulam uma "arte da memória", uma arte do esquecimento, que nos livraria, entre outras coisas, da insensatez e do estresse cognitivo derivado de incontáveis informações - a maioria delas irrelevantes - a que somos submetidos constantemente; que permitiria um melhor funcionamento da * memória de trabalho. Isso permitiria um apaziguamento de nossa vida psíquica - frente, por exemplo, ao esforço de lembranças dolorosas ou inúteis.

Para falar em esquecimento como arte (esquecimento voluntário, seletivo), que seria diferente daquele esquecimento involuntário, patológico, causado por algum transtorno neurológico ou psiquiátrico (como as amnésias, as demências, as psicopatologias, etc.), sabemos que é preciso ponderar, uma vez que existe algo de seletivo e proposital nos processos de esquecimento.

Para que a consciência possa focalizar determinados aspectos do mundo externo ou da experiência subjetiva interior (individual ou do Eu), deve haver inibição transitória (não o apagamento) de reminiscências, associações e imagens memorizadas que, do contrário, perturbariam a focalização da tarefa em pauta. Assim, é esquecendo que podemos memorizar aquilo que, para nós, é relevante em determinado momento.

A capacidade humana de registro sensorial e perceptivo, como sabemos, é limitada e seletiva. Por isso, a humanidade tem criado vários processos, como a escrita e a memória artificial (como os microcomputadores e demais artefatos) para atuar na retomada de imagens e de fatos registrados e vividos.

A discussão sobre o esquecimento, essencial para o entendimento da memória, leva-nos a questionar o fato de que muito de nossas lembranças do passado subsiste e é impregnada do presente.

Afinal, como são registradas e de que forma são "conservadas" nossas percepções do mundo, de nós mesmos e dos outros?

O que esquecemos, e o que lembramos? Por quê?

Não apenas nossa vida psicoafetiva, mas também nossas capacidades sensoriais relacionam-se fortemente com a memória. O olfato ou a audição, por exemplo, nos fazem evocar fortes e vívidas recordações. A distração, a curiosidade, a repressão, as expectativas e as emoções também atuam naquilo que denominamos fraqueza, perda ou força da memória. Assim, nem sempre o esquecimento representa apenas o momento nefasto em que a memória nos trai.

* É a habilidade de lidar com informações e dados nas atividades do dia a dia




Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.



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