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Amargores: apenas os necessários

Regina Wielenska 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Para viver melhor precisamos aprender muitas coisas

por Regina Wielenska

Mais cedo ou mais tarde vamos perder algo ou alguém na vida: um amor, um filho, um emprego, o dinheiro, o carro, a bola de futebol, o casaco, a saúde, o status social...

De certo modo, tanto faz o que seja, guardada a devida proporção. Para fins do que gostaria de salientar, basta partir do ponto de que perdas são inevitáveis.

Dificuldades de outra ordem também irão surgir na vida, por diferentes razões. Aprender a andar quase sempre significa levar tombos, e até pontos na testa ou ficar com hematomas. O jovem intercambista ou um executivo expatriado precisarão lidar com uma cultura sobre a qual pouco conhecem, e nela serão considerados peixe de outro aquário, não há garantia de que sua estada seja isenta de atritos.

Muitas crianças estão sendo criadas de forma que pouco serão preparadas para as atribulações da vida. As de classe economicamente pouco favorecidas estão sob os cuidados insuficientes de um adulto que gasta horas demais no transporte público e trabalhando, e que criam sua prole “do jeito que Deus quer”, ao acaso das circunstâncias, em ambientes ricos em oportunidades de contato com violência e criminalidade e com escassez de recursos favorecedores do desenvolvimento saudável e seguro. São crianças negligenciadas, expostas a perigos e privações intensas, com mínima oportunidade de bons cuidados afetivos e materiais.

Crianças de classes abastadas, por sua vez, ocasionalmente são educadas mais por babás que escaparam de uma vida de privações trabalhando desde cedo para famílias, e elas podem trazer na bagagem pessoal a marca de sofrimentos agora soterrados sob a fachada de um uniforme branco e do curso de baby sitter ou babá, realizado em uma agência de emprego. Muitas são meninas que mal consolidarm sua própria formação emocional. Nem sempre os pais estão antenados nos filhos o suficiente.

Outra coisa: há crianças que nunca se expuseram com regularidade a ambientes fora de condomínios horizontais, tipo gaiolas de ouro, e não sabem tomar ônibus ou metrô, apenas circulam cercadas por motorista e seguranças, ganham carros blindados e polpudas mesadas até antes dos 18 anos, fazem compras em templos do consumo, vão a baladas, viajam mundo afora e torram dinheiro que não precisaram se esforçar para ganhar. Dessas crianças pouco se exige, pouco se ensina em termos de valores existencialmente profundos.

Vi há algum tempo no canal GNT o excelente documentário dirigido por um jovem herdeiro da gigantesca empresa Johnson & Johnson. Ele buscou, a duras penas, entrevistar outros jovens herdeiros. Seus (ím)pares eram frequentadores, tal como ele, de um universo de fachadas sofisticadas, e nele coexistiam em abundância o abuso de drogas, as baladas da moda, muito sexo casual, consumo desenfreado de bens e serviços, e muitos outros supostos prazeres evanescentes. O vazio existencial revelado pelo filme era dolorosamente constrangedor, incomodando intensamente aos que assistem com olhos e coração voltados para valores como compaixão, sentido existencial na vida, crescimento intelectual e psíquico, ética, etc..

Dinheiro não é o ponto, pelo visto. Parece mais apropriado dizer que para viver melhor precisamos aprender muitas coisas: tolerar frustrações, batalhar pelas coisas e a reconhecer seu valor, valorizar pequenos progressos, persistir na adversidade, definir metas tangíveis e reajustar a rota quando necessário. Essas e muitas outras habilidades dão um trabalho danado ensinar, e a aprendizagem passa pelo empenho de pais, educadores e da mídia. Precisamos dar exemplos aos filhos.

Quantos pais zelam sistematicamente pelos exemplos que passam ou pelo bate-papo carinhoso e enriquecedor no qual duas gerações aprendem uma com a outra?

Não é raro um cenário de professores subvalorizados e desamparados ensinando nas escolas públicas, onde apenas cumprem tabela e formam analfabetos funcionais. Outros docentes fazem um trabalho mecânico e aparentemente de excelência ensinando as elites a tirarem diplomas e passarem no vestibular. Isso precisava tanto mudar... Aqui e ali vejo esforços maravilhosos e bem-sucedidos, e alguns exemplos chegam aos meios de comunicação e podem inspirar outras pessoa a fazerem o mesmo onde vivem.

Ensinar as crianças a encontrarem prazer no enfrentamento das durezas, além de saborearem os acertos e corrigirem rotas equivocadas sem esmorecer, tudo é mesmo duro. Assim, deixá-las largadas ao sabor dos ventos torna-se perigosa tentação.

Atribulações, dificuldades, frustrações, tudo isso pode nos forjar como cidadãos melhores, nos tornamos mais resilientes (capazes de dar a volta por cima), compassivos, empenhados, hábeis para fazer deste um mundo melhor, sem egoísmo, indolência, crueldade e dor além da necessária e inevitável.




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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