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Quanto da vida há na morte?

Karina Simões 05/12/2016 COMPORTAMENTO
Quanto da vida há na morte?
Fonte: imagem Pixabay
Luto não reconhecido é aquele que parece não ter legitimidade

por Karina Simões

Entre tabus e certezas se vive. Vimos o Brasil chorar diante de uma tragédia que vitimou a equipe de futebol da Chapecoense. Foram dias de comoção nacional. O Brasil chorou, e choramos juntos. Eu pude ouvir muitos relatos de mães, pais, adolescentes e idosos que estranharam a emoção de seus parentes diante da tal tragédia. Muitos ainda se inquietaram com a comoção nacional e não entenderam tamanha ebulição emocional de tantos!
 
O luto não reconhecido é aquele que parece não ter legitimidade, como se a dor que permitisse o choro fosse exclusiva para casos de morte de pessoas com quem exista relação de vínculo e afeto. Entretanto, lágrimas não se sujeitam às regras de DNA e nem mesmo a qualquer lei. As lágrimas pertencem à sensibilidade de muitos, à solidariedade de tantos outros e a quem tem o coração regado a verdades sinceras.

A sensibilidade nasce da verdade empática de se colocar no lugar do outro.

Quantas mães se emocionaram ao ver o desespero das genitoras daqueles atletas? Esposas, filhos, parentes e amigos também!

Quantos jovens derramaram seus prantos por sonharem ter a vida daqueles jogadores?

Não há limite nem barreira que impeçam o coração de sangrar. Que bom que ainda é possível sofrer com a dor dos outros. Como é bom saber que a cegueira tão bem descrita por Platão ou Saramago não tornou insensível o coração de nosso povo. Ainda somos emoção!

Que brava conquista! A recente equipe da Chapecoense nasceu para fazer campeão um país inteiro. Somos campeões na dor, em meio a um país que vive uma crise, paramos e sofremos juntos, porque temos solidariedade nas veias!

Mas o que fica disso tudo, muito além de um testemunho de solidariedade, é a sempre renovada pedagogia da morte. Ela traz luzes à vida com suas afirmações e visitas inusitadas. A morte aprendeu a bater à porta também de quem menos se espera. E, por isso mesmo, nos faz refletir sobre o modo como vivemos e gastamos nossas energias. A morte talvez seja a incerteza mais contraditória de nossa existência, nos dando a maior de todas as certezas de que ela vai chegar! Mesmo sempre tão inesperada.

No jogo da vida é preciso não esquecer que a "partida" não se encerra por aqui, justamente porque a presença não se mede em tempo. Sempre serão eternos aqueles que ficarem em saudade.

Eis a minha homenagem à Chapecoense. Somos todos Chapecoenses!




TAGS :

    luto, morte, sensibilidade, tabu

Karina Simões

Psicóloga clínica cognitivo-comportamental. Possui especialização em Psicologia da Saúde e Desenvolvimento pela UFRN. Especialização pela Faculdade de Medicina do IPHC da USP. Membro da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC. Mais informações: www.karinasimoes.com.br



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