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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Consequências do aumento do consumo de drogas para voltar a obter o mesmo efeito de antes

Esse aumento de consumo afeta incisivamente órgãos vitais

06 set, 2017

por Danilo Baltieri

Depoimento de uma leitora:

“Eu, de uns tempo para cá, estava usando papel e não estava batendo mais lombra em mim e resolvi então usar bala, mas também não bateu lombra, mais nada.  O que tá acontecendo com o meu corpo? O que devo fazer para a lombra voltar? Ficar um tempo sem usar?”

Resposta: Entre pessoas portadoras de problemas com o consumo de substâncias, como a cocaína, por exemplo, o uso continuado ou crônico pode provocar várias complicações físicas e psiquiátricas de gravidade considerável, como já detalhado algumas vezes aqui no Vya Estelar.

Decorrente do uso continuado das substâncias, o cérebro pode comportar-se de maneiras diferentes: ou reduzir ou aumentar a sua sensibilidade às ações das substâncias psicoativas.

Primeiro caso

No primeiro caso, com a exposição continuada às substâncias psicoativas, o cérebro pode tornar-se menos sensível aos efeitos reforçadores positivos que conduzem muito amiúde a busca pelas mesmas. Esta redução da resposta cerebral na forma de sintoma reforçador positivo pode ser devida à diminuição da atividade dopaminérgica, ou mesmo à exaustão deste sistema de neurotransmissão,  após o uso recorrente. Além desse efeito, modificações adaptativas corporais na absorção, metabolismo, distribuição ou excreção das substâncias podem afetar os efeitos diretos sobre o cérebro.

Ao mesmo tempo, circuitos cerebrais relacionados ao estresse e sensações desagradáveis como ansiedade podem tornar-se mais evidentes. Esta combinação bombástica impulsiona o usuário a usar maior quantidade da substância, a evitar relacionamentos saudáveis, e a alimentar-se de forma inadequada. Outrossim, o aumento do consumo objetivando a obtenção dos efeitos ditos “positivos”, ou seja, prazer, acaba por afetar incisivamente órgãos vitais, como o próprio cérebro e o coração, dentre várias outras consequências danosas.

Segundo caso

No segundo caso, ao mesmo tempo que o usuário pode desenvolver a chamada tolerância aos efeitos reforçadores positivos das substâncias, ou seja, a necessidade de doses progressivamente maiores das mesmas para obter os mesmos efeitos anteriores, o cérebro também pode tornar-se mais sensível às substâncias, ou seja, menores doses podem provocar sintomas altamente tóxicos, como convulsões (chamado efeito Kindling).

Os efeitos das substâncias psicoativas, como a cocaína e o ecstasy, sobre o cérebro e demais órgãos vitais são extremamente deletérios. Chama-me a atenção o fato de você não estar procurando auxílio ou orientação para cessar o consumo das mesmas; ao contrário, você está procurando orientação sobre como sentir novamente a lombra (dicionário informal: qualquer efeito produzido pelas drogas, em especial os prazerosos) provocada pelas mesmas.

Orientação

Oriento você a tentar cessar o consumo das mesmas, inclusive aproveitando este momento em que seu cérebro está respondendo de forma diferente ao uso das substâncias. A tendência de várias pessoas que almejam “bater a lombra” é aumentar a quantidade da substância ou mesmo buscar por substâncias ditas de pureza mais crível. Revisite este momento da sua vida e tome uma decisão que possa ser útil para a sua vida presente e futura.

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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