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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Consumo de maconha tem me causado déjà vu diário. O que fazer?

Meus dias são como um dia repetido para mim

16 jul, 2018

Por Danilo Baltieri

E-mail enviado por uma leitora:  

“Bom dia. Estou passando por umas experiências bem estranhas ultimamente e gostaria de saber se você poderia me ajudar a entendê-las. Tenho 19 anos e, desde os meus 15 anos, luto contra a depressão. Já tentei suicídio duas vezes por intoxicação com remédios. Nunca fui muito adepta a tomar os medicamentos que o psiquiatra me receitava. E uma das fugas que encontrei para me sentir melhor foi através do uso constante de maconha. Comecei aos 15, antes era um uso esporádico. Às vezes durante alguma festa na qual ia; às vezes, só nos finais de semana. Mas, nos últimos dois anos, meu consumo passou a ser diário. No inicio, era o dia inteiro, vários baseados por dia. Fui diminuindo a quantidade, mas ainda era todos os dias, até que, no inicio do mês passado, eu comecei a viver todos os dias como se eles já tivessem acontecido. É como se, do momento em que eu acordei até o momento em que vou dormir, eu já tivesse feito tudo aquilo. Nos últimos dias, até os meus sonhos são assim; fico com a sensação de já ter tido aquele sonho antes. Essa sensação é muito agoniante, parei com o uso total da maconha no dia 17/06, mas não parou de acontecer. Meus dias são como um dia repetido para mim. Fiz algumas pesquisas na internet e cada lugar fala uma coisa. Então, eu queria a opinião de um médico. Estou até pensando em ir para um neurologista. Será que meu uso excessivo tem haver com tudo isso que vem acontecendo? Será que atrofiei o meu cérebro? Acha que teria reversão? Desculpe o incômodo. Se puder me responder, ficarei aguardando ansiosa por sua resposta. Ficarei muito grata se puder me ajudar. Desde já, obrigada. Abraços e até mais.”

Resposta: Durante e após o uso intenso e frequente da maconha, diferentes quadros psiquiátricos/comportamentais podem surgir. Nessas situações de consumo intenso e diário, algumas manifestações sintomáticas, mesmo que incomuns, podem incomodar o usuário, tais como:

a) o surgimento de sensações de que o pensamento ou percepções está desconectado dos sentimentos (estados dissociativos);
b) convicções irrefutáveis acerca de determinados temas ou ideias (por vezes, ideias pouco consistentes ou improváveis);
c) aumento da impulsividade motora e sexual;
d) ilusões (sensação de que objetos existentes adquiriram formatos diferentes, por exemplo);
e) alucinações (percepção de que vozes conversam com a pessoa, de que imagens surgem diante dela, dentre muitos outros exemplos);
f) pensamentos ou crenças delirantes (crenças de que pessoas estão perseguindo o usuário, crenças de que o namorado a está traindo – quando na verdade, não está, dentre várias outras crenças);
g) perda da motivação para o exercício de quaisquer atividades (escolares, laborais, domésticas etc);
h) sensações transitórias ou continuadas dos chamados estados de dissociação (o usuário pode sentir como se sua forma física estivesse alterada ou já se alterou, o usuário pode acreditar que o mundo ao seu redor está diferente do usual);
i) experiências repetidas de vivências anteriores, ou seja, “flashbacks.” É importante frisar que esse tipo de sensação, nos estudos já realizados com cannabis, é incomum.

Bom, a sua pergunta é bastante complexa. O conteúdo da sua pergunta lembra, inclusive, algumas películas cinematográficas, onde se descrevem casos de problemas mentais induzidos ou não pelo uso de substâncias psicoativas, e o protagonista vive cada dia como se fosse o anterior. Esta complexidade e aparente organização de sintomas é esporadicamente caracterizada nos gêneros textuais médicos e você deve urgentemente descrever melhor este quadro para um médico psiquiatra especializado ‘ao vivo e em cores’ a fim de que ele compreenda melhor os seus sintomas aparentes de flashbacks e de déjà vu.

Como eu mencionei previamente, esses tipos de sintomas muitas vezes fragmentados podem de fato ocorrer, especialmente entre usuários pesados e frequentes de maconha. Existem alterações complexas no funcionamento cerebral, no que diz respeito às substâncias produzidas pelo cérebro, e, com isso, diversos sintomas podem aparecer. Seguramente, um funcionamento cerebral melhor deverá ser atingido com ferramentas terapêuticas corretas e com a parada imediata do consumo da droga.
É importante frisar, também, neste momento, que o consumo de maconha é mais frequente entre aqueles que já portam alguns transtornos mentais, como a depressão e  a ansiedade, quando comparado à população geral. Aliás, tentativas de suicídio são mais frequentes entre aqueles com quadros depressivos que consomem substâncias, como a maconha.

De qualquer forma, nem sempre é tarefa fácil associar diretamente o consumo de uma determinada substância psicoativa com um conjunto de sintomas comportamentais.

Os estudos lidando com usuários pesados de maconha, mesmo aqueles estudos com protocolos bastante rígidos, apresentam limitações quanto às interpretações da causalidade dos problemas comportamentais, uma vez que é difícil encontrar usuários de apenas uma substância (comumente, os usuários consomem outras substâncias, como o álcool etílico e o tabaco concomitantemente). Outrossim, os estudos realizados com usuários pesados de substâncias, como é o caso da maconha, comumente se deparam com uma grande soma de usuários portadora de outros problemas mentais (como depressão e ansiedade) e transtornos da personalidade. Todos estes ingredientes dificultam a realização de um nexo de causalidade unidirecional “droga – sintomas psicopatológicos.”

De fato, o consumo pesado e frequente de alguma substância psicoativa deve levantar ao profissional de saúde a suspeita da existência de uma vulnerabilidade psicopatológica naquele usuário pesado, a qual antecedeu o consumo exagerado da droga propriamente dito.

Se você está apresentando os sintomas referidos tempos depois do último uso da maconha, você não deve perder tempo na Internet atrás de mais explicações. Você deve procurar um profissional altamente especializado. No mais, você deverá seguir corretamente o tratamento e evitar fazer o que você mesma descreveu na sua pergunta, ou seja, “não aderir corretamente ao uso das medicações prescritas.”

Não perca tempo!!!
 

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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