imagem de capa

Comportamento

Família

Efeitos do cyberbullying na saúde mental dos adolescentes

Cyberbullying ou assédio virtual: pais, educadores e profissionais de saúde necessitam conhecer os riscos da comunicação online

24 out, 2018

Por Edson Toledo

Geração Z ou nativos digitais é a denominação sociológica das às pessoas nascidas na década de 1990 até os anos de 2010. Essa geração se caracteriza pela multiplicidade de tarefas: são capazes de estudar enquanto ouvem música ou assistem à televisão, acessam redes sociais, falam ao celular, buscam informações na internet, mandam mensagens instantâneas, entre outras atividades, de forma simultânea.

Entretanto, outro fenômeno tem acontecido com o acesso aos meios de comunicação eletrônica, como a internet e o uso de mensagens de texto, influenciando a interação social entre adolescentes na última década. Um em cada três adolescentes prefere a comunicação eletrônica à comunicação face a face para falar sobre tópicos como amor, sexo e outros assuntos sobre os quais eles sentem vergonha de falar.

Por que será que a comunicação online é tão atraente para os adolescentes? Encontramos uma explicação plausível, apoiada em vários estudos, que apontam que a comunicação online aumenta a sensação de controle sobre a maneira como os adolescentes querem se apresentar e fazer revelações a respeito de si mesmos.
A ideia de maior controle dessa situação cria, por sua vez, um senso de segurança nos adolescentes, permitindo que eles se sintam mais livres em suas interações interpessoais online em comparação com a situação face a face. As características desse tipo de comunicação facilitariam a superação de ansiedades sociais e, consequentemente, uma maior liberdade de expressão e formação de novas amizades.

Entretanto, outro fenômeno tem acontecido, pois a alta proporção de adolescentes no Brasil que usa o Facebook (61%) confirma a relevância dessa mídia no contexto social, trata-se do cyberbullying (assédio virtual), uma nova forma de violência expressa pelos meios de comunicação eletrônica, que tem preocupado pais, educadores e pesquisadores em virtude dos efeitos negativos na saúde mental dos adolescentes.

O cyberbullying ocorre quando um ou mais indivíduos utilizam os meios eletrônicos com a intenção de agredir, infligir injúria ou desconforto em outro indivíduo. Essas ações podem ser feitas via e-mail, salas de bate-papo, telefones celulares, mensagens instantâneas, com a intenção de humilhar, causar medo ou sensação de desespero no individuo que é alvo das agressões.

As respostas emocionais dos adolescentes a um incidente de cyberbullying variam na intensidade e na qualidade da emoção. Entretanto, o impacto emocional é prejudicial para a maioria das vítimas, que experimentam várias emoções negativas ao mesmo tempo. A raiva foi a emoção mais relatada por adolescentes da Inglaterra, Itália e Espanha no estudo multicêntrico que avaliou o impacto emocional de diferentes formas de cyberbullying.

A raiva é considerada uma reação à violação da autonomia e ao desrespeito aos direitos e liberdades do indivíduo, e serve para facilitar uma resposta vigorosa quando uma ação tem impacto negativo no indivíduo. Nesta medida, entendemos que a raiva é, portanto, uma reação considerada saudável. No mesmo estudo multicêntrico citado, 20-30% dos adolescentes não se importavam com os incidentes, e aproximadamente 6% foram considerados vítimas fortemente afetadas porque apresentaram várias emoções negativas ao mesmo tempo, como raiva, estresse, preocupação, medo e, principalmente, “se sentiam deprimidos”.

Adolescentes que relataram experiências com cyberbullying, quando comparadas com outras formas de bullying, apresentavam sintomatologia depressiva mais grave, principalmente aqueles que sofreram ataques frequentes (duas ou mais vezes no mês).

Os estudos ressaltam que algumas características das agressões online, como agressões realizadas de forma anônima por adulto, agressões realizadas por desconhecido ou por um grupo de pessoas desconhecidas, associam-se ao aumento da sensação de medo e insegurança entre as vítimas.

A maioria dos adolescentes não conta o incidente para os adultos, e a principal razão relatada por eles para essa atitude é: “porque preciso aprender a lidar com seus problemas por si mesmos”, além de terem receio de que os pais restrinjam seu acesso à internet e de que fiquem socialmente isolados.

Os sentimentos de desamparo e impotência para se defender do ataque podem aumentar a sensação de medo e sofrimento emocional, assim como o surgimento da sintomatologia depressiva.

As alterações cognitivas e o humor depressivo podem alterar a percepção, o que, somado à ausência de pistas sociais, como volume e tom de voz nas comunicações online, resultam em interpretações negativas por parte dos adolescentes deprimidos, que podem ser mais propensos a perceber uma situação como ameaçadora.
Além dos sintomas depressivos, o cyberbullying pode apresentar desfechos ainda mais devastadores para a saúde mental dos adolescentes, como o abuso de substâncias e o aumento da ideação e das tentativas de suicídio.

A experiencia com cyberbullying em si mesma não induz ao suicídio, porém os adolescentes que sofrem cyberbullying podem experimentar estados psicológicos negativos decorrentes das ações do cyberbulling e usar o álcool ou outras drogas como um meio de lidar com afetos negativos – uma explicação que está de acordo com pesquisas sobre a etiologia (causa) do consumo de substâncias na adolescência.

O abuso de substâncias pode ainda contribuir para a habituação à dor física e à ansiedade psicológica associadas com a automutilação. Especificamente, o abuso de substâncias pode encorajar adolescentes com ideação suicida, incentivando comportamentos de automutilação, diminuindo a inibição e exacerbando humores negativos preexistentes.

Por fim, estratégias de prevenção devem ser promovidas para melhorar as habilidades interpessoais dos jovens que escolhem se comunicar por meio de ferramentas online, de forma que evitem comportamentos de risco na internet, como postar informações pessoais, enviar fotos pessoais e utilizar webcam com estranhos, práticas que podem aumentar o potencial de incidentes do tipo cyberbullying.

Certamente, pais, educadores e profissionais de saúde necessitam conhecer os riscos da comunicação online e promover discussões sobre o tema, auxiliando os adolescentes a encontrar formas efetivas de lidar com esses incidentes.


Coordenador do serviço de atendimento a pacientes com tricotilomania no PRO-AMITI/IPq FMUSP. Supervisor clínico na UNIP. Psicólogo pela Universidade Metodista. Mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da USP. Especialização em Terapia Cognitivo-comportamental pelo Ambulim/IPq FMUSP. Especialização em Psicologia Hospitalar pela UNISA

O que você achou do novo Vya Estelar?