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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Alerta para quem busca medicação para combater alcoolismo

Apenas quatro remédios possuem eficácia, comprovada cientificamente, para o manejo do alcoolismo

11 fev, 2019

Por Danilo Baltieri  

“Comprei um remédio chamado Noethyl, tomei a primeira dose de madrugada quando fui dormir. Acordei com ânsia de vômito e fezes negras, líquidas porém sem odor. Pergunto: pode ser reação do remédio?”

Resposta: Noethyl parece ser um composto mineral, com elementos como o ferro, e tem sido anedoticamente recomendado para o tratamento do alcoolismo ou para o manejo daqueles que estão demonstrando um comportamento inadequado diante das bebidas alcoólicas.

Esta chamada “medicação natural” não tem registro na ANVISA (Agência de Vigilância Sanitária), nem tampouco existem trabalhos científicos confiáveis demonstrando a sua eficácia e segurança terapêutica.

Como é “medicação” contendo ferro, as fezes podem ficar escurecidas, da mesma forma quando alguém faz uso de sulfato ferroso.

Sem a existência de trabalhos científicos suficientemente robustos sobre tal “medicação,” é praticamente impossível tecer quaisquer comentários sobre tal produto bem como sobre as suas recomendações.

Quatro medicações eficazes

Se você está usando tal produto para o tratamento do alcoolismo, tenho que enfatizar e repisar que existem apenas quatro medicações comprovadamente eficazes para o manejo dessa doença:

a) Naltrexone
b) Naltrexone-depot
b) Acamprosato
c) Dissulfiram.

Para cada uma dessas medicações citadas acima, existem recomendações claras e contraindicações certas. Estudos científicos têm mostrado que, tendo em vista a heterogeneidade dos alcoolistas, essas medicações podem ser melhor direcionadas para cada tipo de bebedor.

Claramente, tendo em vista as múltiplas modificações físicas causadas pelo consumo das bebidas alcoólicas, a suplementação com vitaminas (especialmente a Vitamina B1 – Tiamina) e alguns minerais pode ser recomendada por médico, com o objetivo de evitar resultados danosos para o seu corpo.

O Alcoolismo é uma doença e, como tal, deve ser tratada por médico especializado, que determinará qual o melhor protocolo terapêutico deverá tomar lugar. Não felizmente, uma avalanche de produtos não testados cientificamente é depositada no mercado formal e informal todos os anos, com a promessa de efetividade. E notadamente, demonstrar a efetividade de uma medicação é uma árdua tarefa, onde não apenas a eficácia do remédio para uma determinada doença deve ser testada em uma população de doentes, como também a sua segurança terapêutica.

Apesar de não ter material confiável e científico para comentar mais sobre tal produto citado por você, a sua pergunta chamou-me a atenção. O consumo inadequado e exagerado de bebidas alcoólicas pode provocar reações gastrintestinais, além de afetar outros órgãos e sistemas orgânicos, como cérebro, pulmões e pele.

Aponto algumas consequências provocadas pelo álcool sobre o aparelho gastrintestinal:

•    Diminuição da produção de saliva
•    Aumento do risco de inflamação e infecção em dentes e tecidos moles da boca
•    Queda dentária
•    Inflamação do esôfago e estômago, com consequentes náuseas e vômitos
•    Dificuldade na absorção de nutrientes e vitaminas (como é o caso da Vitamina B1 e B12)
•    Úlceras gástricas
•    Inflamação do pâncreas (pancreatite)
•    Inflamação do fígado, progressivo acúmulo de gorduras (esteatose), cirrose
•    Inflamação dos intestinos, provocando dificuldades na absorção de inúmeros nutrientes
•    Diarreia
•    Modificação da flora intestinal

Logo, todos os sintomas que você mencionou na sua pergunta podem estar relacionados diretamente ao seu possível consumo inadequado de bebidas alcoólicas.

Se o “problema com o uso de bebidas” tiver sido o motivo para a busca dessa “medicação,” sugiro que você procure auxílio médico especializado para interromper com segurança o seu comportamento relacionado ao beber.

Acredito que, se você procurou uma fórmula para se ajudar, está disposto a realmente cessar esse problema. Dessa maneira, procure a ajuda correta.

Boa sorte!

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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