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Comportamento

Família

Por que não se deve castigar o filho adolescente

Os adolescentes estão mais abertos ao diálogo que seus pais, ainda que esses últimos digam o contrário

Por Ceres Alves de Araujo

Há alguns anos, escrevi nessa coluna sobre a difícil tarefa de colocar limites aos adolescentes. É uma tarefa árdua para pais. Mas, se os pais foram eficazes na colocação de limites para seus filhos na infância, essa tarefa, com certeza, não será tão árdua assim na adolescência.

Na trajetória do desenvolvimento humano, cabe à adolescência, o confronto com o mundo dos pais e dos adultos em geral, para buscar a própria autonomia. O desejo de independência, de dirigir o seu destino é louvável e muito desejável, mas nem sempre pode ser satisfeito em todas as ocasiões. É exatamente nesse ponto que surgem os conflitos. Ou seja, pela dificuldade imensa de lidar com frustração, que os jovens tendem a apresentar na atualidade.

A adolescência é a época de se fazer confrontos. As normas, as regras e mesmo princípios e valores dos pais passam a ser questionados e, muitas vezes, desobedecidos, para que o jovem descubra o que lhe serve e o que não combina com quem ele acha que é. Porém, o adolescente ainda precisa de limites e, muitas vezes, interdições em relação a seus desejos, pois vive uma fase de mudança e de instabilidade e, não raro, nem sabe bem o que quer.  

Relação delicadísisma

A relação pais-adolescente, em relação às interdições, é delicadíssima. Muita paciência é requerida de ambas as partes. Se, nas discussões,  pelas características próprias à idade, o adolescente apresentar episódios de descontrole, tal evento jamais deverá determinar descontrole igual nos pais. Muita calma é desejável para que os acordos sejam firmados.

Surge a importância dos diálogos constantes, das negociações e das expectativas positivas frente ao comportamento do filho. Ele precisa ser ouvido, tem direito a réplicas e a tréplicas. Ele vai errar, repetir erros, desconsiderar acordos etc, mas os limites têm que ser colocados e as combinações têm que ser firmadas de novo e de novo. Castigos para o adolescente, não adiantam, criam revolta e, o pior, determinam a repetição da infração.  Porque, com a punição o adolescente acredita que pagou por seu erro, zerou seu débito e pode novamente infringir a interdição.

Castigos pioram o relacionamento e não modificam comportamentos. Um exemplo: notas baixas não se punem com retiradas de festas ou de eletrônicos. Notas baixas acarretam possibilidade de repetição de ano – essa é a consequência direta.

Confiança sim, mentiras não

Mentiras são inadmissíveis, pois podem criar situações perigosas para o jovem. Os pais têm que ter conhecimento de onde está seu filho e ter segurança a respeito da conduta dele. Confiança incondicional deve permear essa inter-relação. Porém, se mentiras não são admissíveis, as omissões dos adolescentes devem ser toleradas por parte dos pais. Condutas omitidas dos adolescentes geralmente são um treino de autonomia e, além do mais, sobre essas condutas ele é o único responsável. É fundamental  para o jovem aprender a ser responsável pelas consequências de seu comportamento e a bancar suas escolhas.  

É comum e desastroso na relação pais-adolescentes, a investigação por parte dos pais das conversas de seus filhos nas redes sociais. Atualmente programas espiões da internet permitem tal investigação, a qual constitui uma invasão de privacidade e consequentemente a perigosa quebra da confiança incondicional. Nada justifica tal conduta por parte dos pais, ainda que a intenção seja a proteção dos filhos. Nessas situações a quebra de confiança é por parte dos pais, o que é terrível. Pais são modelos mais fundamentais de identidade dos filhos. Precisam ser íntegros, idôneos e dignos, se desejam que seus filhos tenham tais qualidades. O que vale não é o que os pais dizem ou exigem nesse sentido, mas o que eles genuinamente são.

Por que não se tolera nada

A baixa tolerância à frustração é observada não só em adolescentes, mas já em bebês e crianças e também em adultos jovens. Ela decorre, a meu ver,  de circunstâncias dos nossos tempos atuais, onde muitos pais não conseguem colocar limites adequados aos filhos desde bem pequenos.   Ninguém nasce sabendo tolerar frustração. É função inalienável dos pais ensinar aos filhos, na infância, a aguentar esperas, adiar satisfação de desejos, lidar com frustração, aprender a levar em consideração as necessidades das outras pessoas, para que se tornem seres obedientes, civilizados e educados,  para que sejam dignos de viver em sociedade.

Obedecer,  nos tempos atuais, infelizmente é uma virtude desprezada. A sociedade contemporânea, tida como neonarcisista, individualista, privilegia o espaço e os direitos da pessoa em detrimento do espaço e direitos alheios e confunde desobediência, oposição, negativismo, birra e falta de educação com afirmação e autonomia. Esse é um engano perigosíssimo.

O mundo está repleto de crianças que não atendem às solicitações dos adultos, de adolescentes que não respeitam os outros e de adultos que não aprenderam a se relacionar com as pessoas para fazer trocas afetivas e cognitivas, amorosas, sociais e profissionais.

Obediência às crianças e diálogo aos dolescentes

As crianças precisam ser  ensinadas a obedecer, para que seus pais se constituam como figuras respeitáveis e valorizadas. Os adolescentes precisam ser ensinados ao diálogo e para que respeitem os pais, necessitam ser respeitados. Eu tenho percebido que muitos pais lidam com as birras e as oposições de seus filhos pequenos, conversando demais com eles, explicando e justificando os seus atos, quando deveriam simplesmente dizer não. E, na adolescência, parecem que se cansaram e não dialogam com seus filhos como deveriam. E é justamente nessa época, a da adolescência, que vale muito conversar, trocar pontos de vista, discutir, refletir sobre possibilidades diferentes, negociar e firmar acordos temporários. A meu ver, os adolescentes estão mais abertos ao diálogo que seus pais, ainda que esses últimos digam o contrário.


É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.

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