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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Mitos e verdades sobre alcoolismo

Não há como se falar em ex-alcoolista

01 jan, 2016

por Danilo Baltieri

Resposta: O alcoolismo é uma doença crônica, com raízes genéticas, psicossociais e neurobiológicas que afeta cerca de 10% da população acima de 12 anos no Brasil. Em populações especiais, como, por exemplo, os apenados, as taxas de prevalência são maiores, com variações para determinados tipos de crimes.

De fato, a população que padece dessa doença é altamente heterogênea, em termos de necessidades terapêuticas diferenciadas, gravidade do quadro, coexistência de outros problemas médicos e psicológicos, tipo preferencial de bebida consumida, padrão de consumo, aspectos genéticos, padrão temporal de inicio de uso e início de problemas, adesão ao tratamento, participação em modelos de tratamento prévios, dentre outros. Logo, para cada portador da doença, uma avaliação detalhada de todos esses aspectos deverá ser realizada por profissionais qualificados na matéria, a fim de promover o melhor tratamento e facilitar a recuperação.

Não há a menor lógica dizer que um indivíduo é alcoolista sem que ele nunca tenha ingerido bebidas alcoólicas. Embora exista a forte possibilidade de que "ter antecedentes familiares de alcoolismo" contribua para a manifestação do quadro e o surgimento precoce da doença, o alcoolismo obviamente somente pode aparecer no caso da ingestão de bebidas.

A heterogeneidade dos alcoolistas não impede o diagnóstico categórico do problema.

Sintomas e níveis de gravidade do quadro de alcoolismo:

Existem critérios objetivos para a formatação do quadro, tais como:

a) a bebida é ingerida frequentemente em progressivas quantidades e/ou por um período cada vez maior;

b) existe um desejo persistente ou mesmo esforços malsucedidos para cessar o consumo do álcool;

c) grande soma de tempo é gasta em atividades para obter o álcool, usar a bebida, e/ou recuperar-se dos efeitos da mesma;

d) grande desejo para beber (fissura);

e) o uso recorrente do álcool resulta em falhas para o cumprimento das obrigações no trabalho, na escola e em casa;

f) o uso do álcool é contínuo, apesar das evidências de problemas advindos desse consumo;

g) importantes atividades sociais, ocupacionais e recreativas são progressivamente reduzidas ou mesmo abandonadas, em favor do uso do álcool;

h) o uso do álcool é recorrente, mesmo em situações de perigo físico;

i) o uso do álcool é continuado, apesar do indivíduo que bebe já ter problemas físicos e psicológicos resultantes do consumo excessivo;

j) evidência de tolerância, ou seja, uma necessidade de doses maiores para atingir os efeitos desejados;

k) síndrome de abstinência, ou seja, sintomas físicos e psicológicos advindos da redução abrupta do uso da bebida.

A presença de 2 a 3 critérios acima configura um problema de gravidade média; de 4 a 5 critérios, um problema de gravidade moderada; e mais de 6 critérios, um problema de elevada gravidade.

Naturalmente, esses critérios devem ser avaliados por médico especialista, objetivando o correto diagnóstico do problema.

O consumo de bebidas alcoólicas modifica o funcionamento cerebral, em termos de alteração dos sistemas de neurotransmissores. Essa modificação, que provoca repercussões variadas nas funções psíquicas, tende a ser progressiva e crônica. É por essa razão que, uma vez o diagnóstico de alcoolismo é realizado, o indivíduo deve sempre estar alerta para não mais beber. Similarmente ao portador de Diabetes mellitus e de Hipertensão Arterial, o tratamento deve ser prolongado e a participação do paciente no mesmo deve ser contínua e pró-ativa. Não há como se falar em "ex-alcoolista"; o que podemos falar é sobre um alcoolista em remissão parcial ou completa.

Desta feita, tendo em vista o quadro crônico, as modificações funcionais cerebrais inerentes à doença, e a grande chance de reinstalação do quadro em alcoolistas abstinentes que voltam a beber, costumamos afirmar categoricamente que um alcoolista não deve voltar ao consumo de álcool. Seguramente, as bebidas alcoólicas não são elementos indispensáveis para a vida de qualquer pessoa; especialmente para aqueles cujo consumo se tornou desastroso.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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