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Comportamento

Família

Alegria de nos comunicarmos com o diferente de nós

Importante é o ato de elogiar e qualificar os esforços do outro

01 jan, 2016

por Fátima Fontes

Introdução

"Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isso é apenas o começo, agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem do outro... Chamou-se-lhe (o lugar), por isso de Babel, porque ali confundiu o Senhor, a linguagem de toda a terra e dali o Senhor os dispersou por toda a superfície dela."
Bíblia Sagrada no livro de Gênesis, capítulo 11: versículos 7 e 9).

Olá queridas e queridos leitores de nossa coluna, com alegria nos encontramos mais uma vez neste espaço reflexivo. Como alguns mais assíduos leitores já o sabem, amo refletir sobre as relações interpessoais e, fincada no cotidiano de meu viver, observo, escuto, testemunho, sofro e me alegro com os vínculos que me cercam.

E esse é sempre o mote que utilizo para escrever, e desta vez subi num avião que me transportou para o outro lado do mundo em agosto, exatamente para a cidade de Istambul, na Turquia, para participar de um congresso internacional de uma associação a qual pertenço, a IAPR - International Association for the Psychology of Religion, a fim de mostrar a pesquisa de meu segundo doutorado, desta feita em Psicologia Social na USP, a partir de um trabalho terapêutico grupal que desenvolvo em uma comunidade religiosa, há cinco anos.

A viagem foi fantástica, a melhor que já fiz em minha vida, realizando um sonho de menina, de conhecer Constantinopla, como era chamada Istambul, muitos séculos atrás, e do encontro que tive com essa outra cultura milenar, seu povo e crenças, nasceu minha inspiração para essa reflexão.

Tomara que vocês embarquem nessa viagem, e que ela também dê mais elementos para que possamos melhorar os nossos relacionamentos. Em tempo, ganhei outro presente nessa viagem: meu trabalho foi considerado o melhor trabalho de pesquisa do congresso, tendo concorrido com trabalhos apresentados por pesquisadores de vários outros países, muito bom, não?!

Mostrar ao outro nossa necessidade

Já sabíamos meu marido e eu, desde que começamos a programar a viagem a Istambul, que uma das dificuldades que encontraríamos ali seria a do idioma. A quase totalidade das pessoas da cidade só fala turco, e não há sinalização alguma em outra língua, apesar do trânsito intenso de turismo que afeta a cidade.

E foi assim que abrimos o nosso coração para Istambul, fora o congresso, cuja língua oficial era o inglês, descobriríamos as dores e as delícias de nos fazermos entender em uma língua oriental.

E essa foi, para a mim, a primeira grande lição relacional que aprendi desde as primeiras horas em Istambul, a de que quando queremos nos relacionar com o outro, não há barreiras que nos impeçam. Ao invés de nos estressarmos com a dificuldade da língua, como ouvi depoimentos de pessoas que ali estiveram, resolvemos nos abrir, com alegria à cidade, e a buscar mostrar, da melhor forma possível, as nossas necessidades.

Parece tão óbvio isso, mas como insistimos em não viver, nem praticar o óbvio em nossas vidas, haja vista os problemas de comunicação que acontecem como fruto de nossa absoluta intolerância em mostrarmos ao outro aquilo que necessitamos. Aliás, na maioria das vezes, sobretudo nos vínculos de intimidade, queremos que o outro "nos adivinhe" os desejos.

E foi assim que conseguimos pedir ajuda a uma senhora turca, apontando para o cartão de transporte público dela, e procurando saber onde poderíamos comprar aquele cartão, que nos levaria ao eficiente e qualitativo sistema de transportes públicos da cidade que contava com: ferryboats atravessando o mar de Marmara, metrôs que atravessavam o mar de Marmara, por baixo dele e bondes/trens de última geração que cortavam a cidade, além de inúmeros taxis amarelos que também em "turco" nos transportava.

A senhora, sem dizer uma palavra em inglês, apontou para uma banca de jornal, e para lá nos dirigimos, e lá mostramos o que queríamos para o seu dono, que nos deu o cartão e em turco nos disse quanto custava, percebeu que não o entendíamos e escreveu num papel o valor que deveríamos pagar e o quanto tínhamos de carga para nos locomover.

E assim, seguimos pelos nove dias seguintes, sempre decididos a não perdermos a paciência, nem tão pouco a alegria e aceitando o desafio de mostrarmos aquilo de que necessitávamos. De vez em quando alguém tentava um diálogo sofrível conosco em inglês, e nossa reação era sempre a de elogiar a pessoa e encorajá-la a seguir seus estudos de inglês.

Vem aí a segunda lição que relembramos, ou seja, o quão importante é o ato de elogiar e qualificar os esforços do outro. Outra obviedade não seguida em nossos vínculos, pois, parece que o outro tem sempre obrigação de nos tratar bem e de atender aos nossos rogos, e isso não é absolutamente verdade. Como melhoramos a qualidade de nossas relações quando aperfeiçoamos, em nosso cotidiano, a arte de sermos agradecidos por tudo.

Algumas vezes não conseguimos nos fazer entender, daí as informações nos faziam andar em círculos, lembrávamos um ao outro o quanto estávamos curtindo aquilo tudo, daí respirávamos e procurávamos ser mais claros. Jamais esquecerei daquilo que nos aconteceu no último dia da viagem, quando procurávamos chegar num teatro onde assistiríamos a um fabuloso espetáculo de dança e músicas turco. Já havíamos dado muitas voltas, quando decidimos voltar e pedir informação a um senhor que era o dono e único vendedor de uma pequena loja de souvenires, mostramos o folder do espetáculo, ele me tomou pela mão e, deixando a loja sem ninguém para atender, mostrou que era somente virarmos à direita, e a terceira casa da rua era o teatro que procurávamos.

Lamentei não saber dizer "muito obrigada do fundo do meu coração" em turco, mas juntando minhas mãos e aproximando-as do meu coração e olhando fundo nos olhos dele, agradeci, acho que ele entendeu.

Respeite o código social do outro

Movida por um desejo de me integrar à cultura turca, criei uns modelos de túnicas e lenços para usar ali, fato que me fez passar a maior parte do tempo, por uma turca ou por paquistanesa, como nos disse em certo momento um jovem garçom. O meu nome Fatima, que é no Islamismo a filha do profeta Maomé e o meus olhos grandes e amendoados, ajudavam nessa minha aculturação física.
Fátima Fontes: "Quanto mais me cobria, mais me descobria feminina"

Nesta época do ano em que visitamos Istambul era alto verão, e fazia bastante calor, mas em nenhum momento me senti mal por cobrir todo o meu corpo, e parecia que quanto mais eu cobria, mais me sentia bem. Claro que isso, de maneira alguma, era exigido dos visitantes, e mini shorts e blusas de alça com decotes provocantes era também traje bastante usual das estrangeiras visitantes.

Ao parar para refletir sobre esse bem-estar que experimentava ao cobrir minhas pernas e braços, me dei conta de antigos preconceitos meus, sobretudo aqueles associados às mulheres religiosas tanto do islamismo, quanto do judaísmo mais ortodoxo. Achava inicialmente que esses símbolos denotavam certa submissão da mulher, talvez tolhendo sua liberdade.

Lembrei também dos meus estudos numa das disciplinas do doutorado, sobre as Suratas, como são chamados os mandamentos do Alcorão, que num deles explicava a origem do costume do uso da burca para as mulheres, como forma de proteção do corpo feminino, sobretudo em tempos de guerra religiosa, com o objetivo de dificultar as investidas masculinas sobre o corpo da mulher.

E era assim que me sentia usando minhas túnicas em Istambul, quanto mais me cobria, mais me descobria feminina. Percebo nisso outra grande lição para nossos vínculos, desta vez acerca de nossos preconceitos e julgamentos sobre a conduta do outro. Tendemos a julgar e condenar os códigos de conduta que sejam diferentes dos nossos, talvez resquícios daquele tempo em que "éramos todos 'um', falando a mesma língua", que coloquei na epígrafe desta reflexão.

E o quanto erramos nessa ação leviana de condenação daquilo que não compreendemos. Creio ser esse um os maiores focos de dificuldade relacional que vivemos: carregamos todos, um desejo invisível de homogeneização, o que nos torna absurdamente apartados do outro que pense, sinta e aja diferente de nós.

Vivi também a forte emoção, que foi comungada por outras pessoas que já visitaram Istambul, frente ao canto que é entoado ao longo do dia, em árabe, por um fiel chamado de almuaden, do alto das mesquitas, os minaretes, e amplificado por um alto-falante, e que ao cessar o canto em uma mesquita, é entoado em outra e assim sucessivamente, e ao ouvir aquele chamado contínuo, senti-me tocada em minha alma.

Mas como assim? Você é mulçumana? E minha resposta é: não, sou cristã evangélica, mas isso não me impediu de forma alguma, de me sentir convocada, de uma forma profundamente tocante, a agradecer ao Deus da vida, por tudo o que significava para mim, estar ali.

Abrir-se para o encantamento com o mundo do outro

Gosto muito da ideia de que somos todos peregrinos nesta vida, mesmo os que não fazem as grandes peregrinações religiosas, uma vez que somos marcados pela incerteza, e por uma absoluta falta de controle sobre nossas existências, uma vez que o futuro só será vivido, quando o dia de hoje nos levar a um amanhã, que também é incerto, pois podemos morrer hoje, enquanto dormimos.

E nessa toada peregrina, me sinto convidada a ser uma eterna transeunte paisageira, aquela que admira as paisagens, que se distrai sorvendo a cor do céu, os sons que nos cercam e os sabores que provamos nesse vasto e diverso mundo que habitamos.

E nesse viver peregrino, que ao nutrirmos o encanto com o outro, apesar de tantos desencantos, como tão bem propôs nosso saudoso Vinícius de Moraes, "dele se encante mais meu pensamento", possamos vencer as barreiras das diferenças, dos estranhamentos, dos preconceitos e das intolerâncias. Só assim, poderemos achar beleza naquilo que desconhecemos, e assim gerar os bons encontros, aqueles que aumentam a nossa potência de ação para o viver, como nos dizia Spinoza, o filósofo do século XVII.

Estar com um povo, uma cultura e uma língua tão diferente da minha e celebrar os bons encontros, me tornou mais crédula do que já sou, nutrindo minha Fé na vida, minha Fé no homem e Fé no que virá como cantou nosso poeta Gonzaguinha, nos convocando ao final dessa canção à realidade de que "nós podemos tudo, nós podemos mais, vamos lá fazer o que será". (canção: "Nunca pare de sonhar").

Quando entramos no avião para regressar ao Brasil, meu marido e eu nos entreolhamos e nos dissemos: nós vamos voltar aqui! E percebo que isso não seria possível, caso não tivéssemos nos aberto de maneira tão plena a vivermos a Istambul possível, aquela que desejávamos conhecer e por ela nos encantarmos.

Também estabeleço aqui um paralelo com nossas relações interpessoais, só nos encantaremos com aquilo que desejarmos, e muitas vezes os desencantos que vivemos em nossos vínculos nascem, bem mais, por nossa falta de vontade de nos reencantarmos do que mesmo pelo fim das relações.

E para finalizar...

Desejo tê-los encantado com minha viagem a Istambul, e também gostaria de ter acrescentado cheiros, gostos e sabores novos aos novos e velhos vínculos de vocês.

E que nosso "poetinha camarada" Vinícius de Moraes nos ilumine na caminhada rumo ao encantamento e reencantamento com o "outro".

Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008

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