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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Alerta: como o "boa-noite-cinderela" pode te deixar vulnerável

01 jan, 2016

por Danilo Baltieri

"Sou acadêmica de medicina, 3º período. Saí com amigas e bebi muito pouco comparado com o que costumo beber em festas, fiz uso consciente de caipirinha e vodca. Pós-festa, tive perda de memória fragmentada, quase que completa, mudei de comportamento e comecei a falar desenfreadamente, além de ter tido várias visões como: uma colega ia ser estuprada, acidentes etc. E ainda fiquei com mais de um cara na boate, o que nunca faria e nem nunca fiz no meu pior estado de uso de álcool e eu não costumo beber rotineiramente: uma vez ao mês. Tudo isso foi relatado por minhas colegas, não me recordo de nada."

Resposta: Blackouts são períodos circunscritos de amnésia total ou parcial. Geralmente, um episódio de blackout é descrito como um período de "inconsciência" no qual o indivíduo é incapaz de lembrar (totalmente ou parcialmente) o que ocorreu ou mesmo o que fez. De fato, o blackout pode ser completo ou parcial (também chamado de fragmentado). O completo é a amnésia total para eventos que aconteceram durante a intoxicação. O fragmentado (ou parcial) ocorre mais frequentemente. Neste último tipo, o bebedor lembra-se de fragmentos do período em que a ingestão de bebidas alcoólicas aconteceu, especialmente se estimulado por terceiros.

Os blackouts podem ocorrer devido a um trauma cerebral, efeitos colaterais de substâncias, excessivo uso de bebidas alcoólicas ou distúrbios afetando o funcionamento cerebral (tais como alguns tipos de epilepsia, especialmente as do lobo-temporal).

Você parece estar preocupada se foi vítima de um antigo golpe conhecido como "boa-noite, Cinderela !". No entanto, é importante notar que uma das consequências do uso agudo e excessivo de bebidas alcoólicas é o blackout ou apagão. Durante o período de intoxicação alcoólica, o bebedor estará consciente e poderá travar discurso aparentemente normal com terceiros, bem como desempenhar atividades motoras e cognitivas; no entanto, ele não se lembrará do que ocorreu nesse período.

Alguns comportamentos de indivíduos que reportaram blackout após o consumo intenso de bebidas alcoólicas têm sido registrados. O mais comumente relatado é o seguinte: após o consumo de bebidas, o bebedor dirige por longas distâncias, mantém conversações corriqueiras com conhecidos, chega a sua casa e, na manhã seguinte, não se lembra de como chegou, como estacionou o carro, onde está o carro. Fatores como grande ingestão alcoólica e rápida ingestão são predisponentes para a ocorrência dos blackouts.

Grande ingestão de bebida alcoólica em curto período pode causar blackout

Ao contrário de antigas concepções de que o blackout seria uma consequência improvável do consumo pesado de bebidas alcoólicas entre não dependentes de álcool, pessoas que façam grande ingestão de bebidas alcoólicas em um período relativamente curto de tempo podem de fato apresentar tal quadro. Por exemplo, alguns estudos realizados com estudantes universitários têm revelado alta prevalência quanto à ocorrência desse quadro. Desta feita, a combinação de bebidas alcoólicas com os ditos energéticos (energy drinks) poderia contribuir para o aparecimento desse tipo de problema (não devido a um efeito direto dos energéticos, mas devido ao maior consumo de bebidas alcoólicas quando os energéticos são associados).

De qualquer forma, existem substâncias que, quando associadas ao álcool, ou mesmo tomadas isoladamente, podem provocar quadros de blackout. Muitas dessas drogas, às vezes, recebem o nome popular de "knock-out drugs" ou "rape drugs". Essas substâncias têm sido colocadas nas bebidas das vítimas e, portanto, quanto mais insípidas, inodoras e incolores as drogas forem, menos as vítimas reconhecerão quaisquer problemas com suas bebidas e maior será o êxito dos ofensores. Frequentemente, a utilização de drogas por ofensores que objetivam agredir sexualmente uma pessoa, ou roubar seus pertences, ou mesmo colocar a vítima em um estado vexatório, não é recente. Isso tem ocorrido desde há muito tempo, com o uso das seguintes substâncias: barbituratos, escopolamina e hidrato de cloral. Versam jornais de Chicago de 1903 que o gerente do bar Lone Star, Michael (Mickey) Finn servia a alguns clientes bebidas alcoólicas contendo a substância depressora conhecida como hidrato de cloral, com a finalidade de deixá-las sonolentas, incapazes de resistir a qualquer investida de outrem e presas fáceis de quaisquer procedimentos ilícitos, como roubo.

Com o tempo, novas substâncias têm surgido com maior ou menor potencial de indução de quadros de sonolência, amnésia durante o período de intoxicação, relaxamento dos músculos esqueléticos e prejuízos da senso-percepção. Em 1999, pesquisadores já identificavam mais de 20 diferentes substâncias utilizadas para concretizar esse golpe, sendo a mais comum o próprio álcool etílico.

Um estudo realizado em 2000 (Slaughter, 2000) demonstrou que 2/3 das vítimas desse golpe tinham ingerido álcool com outras drogas, especialmente maconha. Logo, muitos desses golpes ocorrem em bares ou festas, onde a vítima está já fazendo uso de bebidas alcoólicas pelo menos.

Um outro estudo (Hurley et al., 2006) revelou que 77% das alegadas vítimas tinham consumido bebidas alcoólicas poucas horas antes da ofensa, enquanto quase 50% estavam em uso de medicações prescritas e 26% faziam uso intencional de substâncias ilícitas, como maconha ou cocaína. Os autores concluem que vítimas usuárias de álcool e outras drogas podem constituir um grupo de maior vulnerabilidade ao golpe. De outra forma, essas vítimas poderiam estar sujeitas a um maior nível de agressividade durante os atos ofensivos.

De uma forma geral, perpetradores desse golpe pretendem:

a) produzir sedação na vítima;
b) alterar o comportamento da vítima, afim de torná-la menos responsiva;
c) induzir amnésia para o momento da intoxicação e para momentos anteriores ao evento;
d) criar um estado de completa vulnerabilidade na vítima, objetivando explorá-la em todos os aspectos possíveis.

As vítimas do golpe comumente referem os seguintes sinais/sintomas, após o evento ilícito:

a) tonturas;
b) náuseas;
c) perturbação da memória para o evento e para momentos anteriores ao evento;
d) "moleza", tônus muscular reduzido.

A amnésia é mais frequentemente referida, quando as substâncias álcool, benzodiazepínicos (flunitrazepam, midazolam, diazepam, lexotam, alprazolam) e GHB (ácido gama-hidroxi-butírico) foram utilizadas.

Logo, são várias as substâncias que hipoteticamente poderiam ter sido inseridas na sua bebida. O tempo para a detecção delas dependerá de qual droga tenha sido inserida. O GHB tem um período de detecção extremamente curto, o que dificulta bastante a sua detecção forense.

Abaixo, recomendo a leitura do seguinte manuscrito:

Hall JA, Moore CB. Drug facilitated sexual assault--a review. Journal of forensic and legal medicine. 2008;15(5):291-7.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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