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Autoconhecimento

Minhas Atitudes

Traumas: efeitos agudos e de longo prazo, prevenção e tratamento

Quanto mais fugimos... mais nos enrodilhamos num problema

por Regina Wielenska

O recente massacre de estudantes de uma escola pública no Rio de Janeiro e a tragédia que assolou o Japão me motivaram a tecer alguns comentários, de caráter geral, sobre o manejo de eventos traumáticos.

Não tenho conhecimentos suficientes para analisar especificidades de cada tipo de evento, mas quero traduzir ao leitor a lógica dos princípios terapêuticos preconizados para auxiliar os que viveram na própria pele os eventos traumáticos, ou testemunharam sua ocorrência com alguém que lhes seja muito significativo, ou que estivesse próximo.

Diferenças entre pessoas na forma de reagir aos eventos ruins

Primeiro ponto, vamos estabelecer que há diferenças individuais em termos de sensibilidade biológica e emocional aos acontecimentos. Conforme aspectos do organismo e da história de vida de cada um, seremos atingidos de modo distinto por acontecimentos. O que traumatiza alguém aos dezessete, pode não fazê-lo aos 45 anos. Ou vice versa. O mesmo raciocínio se aplica ao fato de um homem em uma aldeia ter se abalado muito mais com a tragédia do que outro que mora em uma localidade ainda mais devastada que a anterior.

Portanto, de nada adiantará fazer uso de comparações do tipo: “Entenda que a vida de tantas outras pessoas está ainda pior que a sua...”, como se apenas pudesse ficar transtornado ou enlutado quem viveu graus máximos de contato com a dor da alma ou do corpo. Por incrível que pareça, validação de sentimentos é um passo significativo muito relevante para o estabelecimento de uma conexão de afeto entre quem tenta auxiliar e aquele que sofre.

Tudo muda com o tempo, para melhor ou para pior

Segundo aspecto, para a maioria das pessoas, o impacto inicial de um evento avassalador pode ser até menor do que o que ocorrerá na progressão dos dias, quando gradualmente entramos em contato com a irreversibilidade dos eventos trágicos e nos abalamos mais ainda. Apenas uma coisa é certa, passados seis meses, ou no máximo um ano, a maioria das pessoas fortemente impactadas e traumatizadas ao início, terá se restabelecido a níveis considerados emocionalmente razoáveis ou mesmo bons. Os que permaneceram fortemente abalados após um semestre, de modo similar aos primórdios dos acontecimentos funestos, talvez sejam os indivíduos com o que se denomina com um transtorno de estresse pós-traumático. A esses, a psiquiatria e a psicologia oferecem formas eficazes de tratamento, com algum apoio medicamentoso, mas principalmente com apoio psicoterapêutico e social.

O trauma nos enreda: alguns sinais

Ainda bem que as ciências do comportamento também nos oferecem pistas sobre como dar apoio à maioria dos indivíduos afetados pelo impacto inicial dos fatos, tanto homens e mulheres, como crianças ou adultos, os quais ainda não considerados portadores do transtorno, mas que certamente podem estar sob os efeitos agudos, imediatos, de algum evento devastador. A ideia é criar condições de prevenir a cronificação do sofrimento, com seus efeitos psicológicos de longo prazo como repetição mental de cenas do evento passado, anestesia dos estados emocionais positivos, sintomas de depressão (perda da sensação de prazer, redução de atividade, irritabilidade, desesperança) e ansiedade (estado de ativação biológica, condição de permanente alerta, qualidade ruim do sono, hiperfoco de atenção nos eventos dolorosos passados ou no que se imagina possa ainda vir a ocorrer de ruim, etc.).

É possível prevenir mais traumas?

O primeiro passo que mencionei foi validar, reconhecer como existente e justificada a dor do outro, com sua configuração e motivos singulares. Agora, numa segunda etapa, trata-se de dar via de expressão aos estados emocionais, aos pensamentos, às lembranças.

Como fazer essa troca entre ouvinte e relator?

Escuta atenta, afetiva, que identifique que gestos, posturas, choro, desenhos, atitudes como plantar flores ou destruí-las, tudo é linguagem, tudo pode servir como via de expressão das lembranças e das emoções. Não estou dizendo que o sujeito pode sair por aí socando todo mundo, saqueando os mortos ou os sobreviventes e isso ser aceito como sua expressão individual de reação ao sofrimento. Não mesmo! Mas estou dizendo que às vezes chorar baixinho no colo de alguém pode ser uma etapa da recuperação, tanto quanto fazer um documentário com caráter semibiográfico ou escrever poemas a respeito do ocorrido.

Crianças pequenas desenham, brincam de encenar aquilo que entenderam de um evento ruim que atravessou suas vidas. O que não se pode é obrigar alguém a externalizar em palavras o que sente ou pensa acerca do evento traumático ou o contrário disso, impedir alguém de se manifestar quando esse for seu desejo; quando o indivíduo sente a absoluta necessidade de dar vazão ao que rasga seu peito e perturba sua mente. Quem for dar colo precisa de certo estofo emocional para si próprio. Sabemos quão duro é trabalhar em equipes de resgate, então aos profissionais envolvidos recomenda-se cuidados de igual natureza.

A literatura recente sobre fatores facilitadores de transtornos psiquiátricos subsequentes ao trauma tem apontado que não fugir das sensações, manter-se no presente, atento a elas, sem precisar interagir com as mesmas é um caminho interessante. Como assim? Por exemplo, alguém que esteve em um acidente de avião talvez precise experimentar idas ao aeroporto, talvez voar algumas vezes, abraçando as sensações de medo ou outras que aparecerem, mas aceitando viver aquela nova experiência, de estar num contexto presente, seguro, sem muitos riscos, mas que evoca necessariamente as sensações terríveis do passado. Muita gente cai fora, evita tudo isso, escolhe não falar a respeito, quanto mais estar em locais relacionados a aviões ou a voar. Essa é a estrada do trauma, arrasta consigo mais problemas do que soluções.

Há os que se dopam com tranquilizantes, maconha, cocaína, anfetaminas ou outras substâncias de efeito sinteticamente entorpecedor ou estimulante. Há os que se trancam no mutismo, por vezes traduzido pelas reais paredes de um quarto. Quanto mais fugimos, física ou simbolicamente (por meio das emoções, palavras, imagens mentais), mais nos enrodilhamos num problema. Olhar de frente para o hoje, focar nas metas para uma vida que nos faça algum sentido (seja ele novo ou velho), este caminho costuma dar mais certo, imunizando seus seguidores contra o trauma.

Resumindo aqui, as possíveis diretrizes para prevenir sequelas de traumas: validar a dor e a experiência vivida, facilitar a expressão de memórias e emoções, identificar razões individualmente válidas para se continuar a vida, acolher os sentimentos traumáticos sem deixar que eles governem sua vida pós-trauma. Estes são alguns dos passos que tantas pessoas neste mundo precisarão trilhar, com a justa ajuda dos mais afortunados e, em alguns casos, de profissionais de saúde mental.


É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.

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