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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Consumo crônico de maconha causa danos irreversíveis à memória? É possível revertê-los?

01 jan, 2016

por Danilo Baltieri

Resposta: Pesquisas relacionadas aos efeitos do consumo de maconha sobre a memória e outras funções neurocognitivas (como atenção, desempenho motor, capacidade decisória, impulsividade) têm aumentado nos últimos anos.

Essas pesquisas são bastante oportunas, dado o crescente consumo da droga ao redor do mundo.

No cérebro, existe uma abundância de locais que são atingidos diretamente pelo uso da droga. De fato, receptores cerebrais que identificam os canabinoides (como o THC, tetrahidrocanabinol, principal componente ativo da maconha) são localizados em várias regiões, tais como: hipocampo, gânglios da base, amígdala e córtex pré-frontal. Essas regiões cerebrais estão associadas com a regulação do humor, ansiedade, memória, aprendizado, motivação, controle motor e funções executivas. Pelo menos teoricamente, o consumo da maconha tem um efeito bastante negativo sobre essas funções.

Recente literatura científica aponta que o uso da maconha prejudica aspectos específicos relacionados à memória e aprendizado. Contudo, esses achados da literatura têm sido mais consistentes entre aqueles que fazem uso pesado de THC. Entre os usuários de momento (não crônicos), há pouca consistência na literatura a respeito dos prejuízos sobre o controle da impulsividade, controle motor e capacidade para tomada de decisões.

Prejuízo causado pela droga é variável

Entre usuários crônicos de maconha, algumas variáveis devem ser consideradas na avaliação dos prejuízos gerados pela droga: tempo de uso, idade de inicio de uso, quantidade e frequência do consumo da droga. Além do mais, a associação com outras substâncias influenciam amplamente o funcionamento cognitivo do usuário.

Atenção e concentração parecem ser consistentemente prejudicadas entre adolescentes usuários, mas não há suficiente evidência científica quanto à permanência desses prejuízos sobre a memória e fluência verbal após a parada definitiva do consumo. Raciocínio abstrato é prejudicado pelo uso da droga, mas esses déficits parecem se resolver após abstinência, pelo menos entre adolescentes.

Dada a heterogeneidade dos usuários da droga, não é possível generalizar uma teoria sobre a reversibilidade dos prejuízos causados sobre a memória e outras funções cognitivas. Inúmeras variáveis, incluindo a susceptibilidade genética do usuário, interferem significativamente no desfecho para cada sujeito.

Apesar de ter influência deletéria sobre a memória e outras funções cognitivas, as avaliações médicas e psicodiagnósticas devem ser realizadas dentro de um modelo comportamental complexo. Inúmeras variáveis devem ser investigadas, bem como a presença de outros transtornos mentais coexistentes.

Abaixo, forneço interessante referência sobre o tema:

Crane NA, Schulster RM, Fusar-Poli P, Gonzalez R. (2012). Effects of Cannabis on Neurocognitive Functioning: Recent Advances, Neurodevelopmental Influences, and Sex Differences. Neuropsychol Rev, DOI 10.1007/s11065-012-9222-1


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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