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Problemas no desenvolvimento infantil

Pais de um primeiro filho nem sempre sabem como um bebê se desenvolve

por Ceres Araujo

Segundo a Organização Mundial de Saúde, 17% das crianças entre zero e três anos tem algum distúrbio do desenvolvimento. O mais freqüente deles é o retardo mental, sendo o autismo infantil o segundo, na ordem de prevalência. Outros distúrbios, como déficits visuais, auditivos, déficits motores e de linguagem, concorrem para prejudicar o crescimento das crianças, causar transtornos muitas vezes muito sérios e determinar impedimentos para a vida independente no futuro.

Sabe-se que, quando o diagnóstico do distúrbio do desenvolvimento é realizado precocemente, o prognóstico é sempre muito melhor, pois ajuda eficaz pode ser promovida. Entretanto, o diagnóstico precoce raramente é feito, mesmo nos Países do chamado Primeiro Mundo.

Qual a razão disso? Pais de um primeiro filho nem sempre sabem como um bebê se desenvolve. Quando se tem um ou mais filhos, fica possível comparar o padrão do desenvolvimento. Muitas vezes, os pais percebem que existe algo de diferente, de errado com seu filho e consultam o pediatra. Não raro, podem escutar, de um profissional incauto, que cada criança se desenvolve de um jeito, que é só esperar. Caso os pais insistam muito com sua queixa podem ser considerados e mesmo chamados de ansiosos.

A escola maternal deveria ter condições para perceber quando um bebê ou uma criança bem jovem se comporta diferentemente daquilo que seria esperado. Porém, tal fato não costuma acontecer. Muitas vezes, as professoras ou cuidadoras, pois em geral são mulheres, são também jovens demais ou pouco experientes e, apesar de possuírem frente a seus olhos o padrão normal do desenvolvimento, pois cuidam de muitas crianças, raramente, ou menos do que seria desejável, chamam os pais para avisar que algo pode estar errado. Penso que também acreditam que o tempo vai fazer com que o bebê ou a criança consiga se recuperar.

Espera-se demais e se acaba perdendo um tempo precioso! Existe um trajeto desejável no desenvolvimento humano e existem, também, desvios desse trajeto, que são as patologias. Cumpre diagnosticá-las o mais cedo possível, para que tais desvios não sejam irreversíveis.

Assim, é importante que os pais tenham certeza que seu filho está enxergando e escutando bem. A visão e a audição precisam ser avaliadas desde os primeiros tempos de vida. Modernas tecnologias estão possibilitando exames de visão e de audição acurados para crianças bem jovens.

Existe um padrão para o desenvolvimento motor e para o desenvolvimento da comunicação e qualquer atraso na aquisição desse padrão deve trazer preocupação sim! Não convém esperar para ver o que acontece, isso seria negligência! Ao contrário, deve-se, o mais cedo possível, buscar a avaliação especializada.

Um atendimento adequado e precoce aos distúrbios do desenvolvimento pode sanar, ou pelo menos, atenuar muito as conseqüências deles. Uma criança com um distúrbio desse tipo, não sendo entendida e portanto não sendo atendida em suas dificuldades, tende a colecionar mais experiências de fracasso que de êxito, nessa fase tão inicial da vida, o que terá como conseqüência o rebaixamento da auto-estima. A auto-imagem da criança fica colorida com valores negativos, tornando-se ela pouco segura de seus recursos e competências.

Muitos dos problemas de aprendizado escolar poderiam ser evitados, se crianças com transtornos sensoriais, motores e de linguagem tivessem tido os cuidados profissionais especializados nos primeiros anos da vida. Danos severos à auto-estima da criança poderiam ser também evitados.

Problemas no desenvolvimento infantil de zero a dois anos

A Academia Americana de Pediatria descreve determinados sinais que, se observados nas crianças de zero a dois anos, deveriam conduzi-las a profissionais especializados. Os primeiros sinais, frente ao processo do desenvolvimento, são chamados de bandeiras vermelhas:

- Falta do sorriso ou expressão de alegria aos 6 meses
- Falta de troca de sons, sorrisos ou outra expressão facial aos 9 meses
- Falta da lalação aos 12 meses - ruídos vocais que não fazem parte da língua falada
- Falta de gestos comunicativos, como apontar, mostrar, procurar aos 16 meses
- Ausência de palavras aos 16 meses
- Ausência de frases de 2 palavras que tenham significado aos 24 meses
- Perda da fala ou de quaisquer habilidades adquiridas, em qualquer idade.

Ouve-se falar que, antigamente, as crianças não tinham necessidade de tantos cuidados e atendimentos e que cresciam normalmente. Não é verdade que cresceram normalmente. Inúmeras pessoas se desenvolveram com sensações de incompetência, de serem menos inteligentes que os demais e se frustraram ao longo de suas vidas, por não conseguiram se afirmar de modo eficaz e feliz no mundo. O diagnóstico precoce, conduzindo a orientações adequadas, pode favorecer um caminho mais feliz para o crescimento.


É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.

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