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Qual o papel do filósofo clínico na criação da existência como uma obra de arte?

01 jan, 2016

por Monica Aiub

A partir do artigo anterior, "A existência como uma obra de arte" (clique aqui e leia) , o leitor pergunta: Como acontece, na filosofia clínica, a produção da existência como obra de arte? Qual o papel do filósofo clínico nessa criação?

Deleuze e Guattari, no livro O que é a filosofia?, afirmam: “A filosofia, mais rigorosamente, é a disciplina que consiste em criar conceitos.” (1997:13). Mais adiante, no mesmo texto, prosseguem: “Toda criação é singular, e o conceito como criação propriamente filosófica é sempre uma singularidade. O primeiro princípio da filosofia é que os Universais não explicam nada, eles próprios devem ser explicados.” (1997:15).

Um princípio fundamental em filosofia clínica é o respeito à singularidade. Trata-se, é claro, de uma singularidade sempre inserida em contextos, em relações, em ambientes, em questões. Trata-se, também, de uma singularidade em movimento, que não é necessariamente a mesma o tempo inteiro, ou no instante seguinte. Isso significa um fluxo constante, que tanto pode manter-se quanto variar; que se move em diferentes sentidos, não tendo, necessariamente, uma trajetória linear. Seus movimentos, orientações e permanências dependem de inúmeros e diferentes fatores.

Dessa forma, não há, em filosofia clínica, modos únicos, universais, imutáveis, embora a possibilidade da permanência seja uma entre tantas outras, ou seja, não é possível sequer afirmar que mudamos o tempo inteiro, porque, em alguns aspectos, não mudamos, e algumas pessoas conseguem ser sempre as mesmas.

É preciso, inclusive, cuidado, para não fixar um padrão da pessoa como sendo “o” padrão da pessoa, isto é, não é porque a pessoa valoriza determinados aspectos; resolve suas questões com formas específicas; sente, pensa ou age de certa maneira, que isto será sempre assim. É possível que a mesma pessoa repita, durante sua trajetória, alguns padrões, mas isso não se constitui como a necessidade de tais padrões se repetirem sempre. Temos, como já discutido em textos anteriores, a capacidade de plasticidade (ajuste), de movimentação existencial.

Se não é possível estabelecer um padrão único, essencial a uma mesma pessoa, imagine o que ocorre ao tratarmos de pessoas diferentes. Ainda que vivamos numa mesma cultura, onde hábitos são disseminados, que tenhamos sido criados a partir dos mesmos valores, dos mesmos costumes, isto não implicará em vivermos uma única forma, um padrão previamente estabelecido.

Contudo, é importante observar mecanismos específicos para a formação de tais padrões em nossa sociedade, assim como um processo de naturalização desses, levando-nos a compreender o que é “essencial” à natureza humana. Foucault descreve de modo instigante esses mecanismos, aos quais ele denomina dispositivos de segurança, próprios da racionalidade política liberal que se desenvolve a partir de meados do século XVIII, constituindo os instrumentos do chamado biopoder.

“Essa noção da natureza vai portanto mudar inteiramente com o aparecimento da economia política. A natureza não é, para a economia política, uma região reservada e originária sobre a qual o exercício do poder não deveria ter influência, a não ser ilegítima. A natureza é algo que corre sob, através, no próprio exercício da governamentalidade. Ela é, por assim dizer, sua hipoderme indispensável. (...) Assim, por exemplo, é uma lei da natureza, explicarão os economistas, a de que a população, por exemplo, se desloca para os salários mais elevados; é uma lei da natureza a de que uma tarifa aduaneira protetora dos altos preços dos meios de subsistência acarreta fatalmente algo como a escassez alimentar.” (FOUCAULT, 2008: 21-22).

Pensemos, agora, num problema circunstancial que precisemos resolver, como, por exemplo, aumento de preços e tarifas, e redução salarial. Se compreendermos que tais fenômenos econômicos nada mais são que uma lei da natureza, o que é possível fazer para transformar esta situação? De um lado, consideramos que é possível interferir no meio, que o estudo da natureza nos fornece elementos para interferências capazes de modificar até a natureza da espécie humana. Daí a importância do conhecimento, da ciência, que permitirá, a partir de um saber constituído, transformar a natureza. De outro lado, que forças temos nós para transformar a natureza? O que podemos fazer diante de algo que é natural?

A partir desses questionamentos distintos, qual a solução indicada? Foucault, no mesmo livro, associando tais questões a seus estudos anteriores sobre a loucura, a doença, a delinquência, a sexualidade afirma que a política e a economia “não são nem coisas que existem, nem erros, nem ilusões, nem ideologias. É algo que não existe e no entanto está inscrito no real, estando subordinado a um regime que demarca o verdadeiro e o falso.” (FOUCAULT, 2008: 27).

Assim, ele mostra que outra característica da racionalidade liberal é associar o verdadeiro ao útil, substituindo o critério de legitimidade do poder, vigente na razão de Estado soberana, pelo critério de sucesso ou fracasso da ação política. Numa situação circunstancial, o que seria o sucesso de uma ação política? Como mensurá-lo?

Ao pensar o liberalismo, Foucault apresenta a ideia de liberdade, o laisser faire, o deixar acontecer, como uma espécie de retirar-se para a natureza da coisa se manifestar. Analisando três formas de poder: soberano, disciplinar e biopoder, Foucault demonstra que a lei interdita, a disciplina prescreve e a segurança regula. A regulação se dá no elemento mesmo da natureza. Assim, um processo de naturalização do poder é fundamental para essa tecnologia de poder que se constitui a partir do século XVIII. Nela a liberdade é produzida segundo processos de normalização.

A busca pelo normal, pelo limiar do ótimo e do aceitável nos padrões de normalidade, caracterizará a governamentalidade liberal. A partir das pesquisas estatísticas sobre os padrões ótimos e aceitáveis, são pautados os julgamentos, os posicionamentos, as escolhas, as ações. Compreender o padrão de normalidade, tendo por base a constituição de um “saber científico”, “fundamentado”, permite aceitar os limiares de escassez capazes de gerar a morte, os índices “bons” de miséria e mortalidade das populações. Ao mesmo tempo, são essas mesmas pesquisas que darão respaldo às ações num “governo das populações”.

Pensando, agora, a partir dos conceitos expostos por Foucault em O Nascimento da Biopolítica, observem como a ciência justifica, por meio do processo de normalização, pautado na pesquisa estatística, os acontecimentos, os modos de existência vigentes.

O respeito à singularidade supõe a suspensão dos padrões de normalização, exige um estudo dos modos de ser de cada pessoa, das formas que ela possui para lidar com suas questões, buscando, juntamente com ela, elementos que a auxiliem na construção de si mesma. Como dito anteriormente, não se trata de uma singularidade isolada, mas uma singularidade no mundo, em relação, que supõe as várias “afecções”, “afetações” provocadas em cada encontro.

As partilhas, em filosofia clínica, consideram a pessoa em sua singularidade, e esta em seus contextos e relações. Por isso, não há padrões, não há modos de ser melhores ou piores a priori. Há, simplesmente, modos de ser e seus contextos. A partir da observação desses, o filósofo clínico possui o papel de provocar a pessoa a observar-se e a constituir-se numa construção constante, uma obra de arte, cujo autor e intérprete é a própria pessoa.

Por vivermos contextos de naturalização e normalização que nos fazem pensar que aquilo vivemos é natural, é normal – ainda que nos incomode – leva, muitas vezes, a pensar que o problema está na pessoa. Ouço muitos partilhantes questionando o que há de errado com eles, que não aceitam, não se sentem bem com o normal, com o natural. Por vivermos tais contextos, o papel do filósofo clínico ganha relevância nessas provocações, pois permite à pessoa observar outras e diferentes perspectivas, formas, elementos, através dos quais poderá tornar-se autora de si mesma.

Referências Bibliográficas:
DELEUZE, G; GUATTARI, F. O que é a filosofia? Rio de Janeiro: Ed. 34, 1997.
FOUCAULT, M. O Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008.


Monica Aiub. Doutora em Filosofia (PUC-SP). É responsável o Espaço Monica Aiub: Filosofia, Arte e Cultura, atuando com orientação filosófica e cursos. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.monicaaiub.com.br

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