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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Maconha não danifica o cérebro, segundo estudo

Existem várias limitações no estudo

01 jan, 2016

por Danilo Baltieri

"Pessoas com 50 anos ou mais que fumam ou já fumaram maconha não podem mais culpar a droga pelos esquecimentos. Um novo estudo publicado na revista American Journal of Epidemiology mostra que a erva não danifica o cérebro. Pelo menos não de forma permanente, aponta este estudo."

Resposta: A preservação do funcionamento cognitivo com o avanço da idade é de grande interesse para todos nós.

Vários fatores de risco têm sido identificados na aceleração do declínio cognitivo ao longo da vida, tais como: hipertensão arterial, diabetes, alcoolismo, tabagismo, altos e persistentes níveis de colesterol. Tem também sido sugerido que o uso de drogas ilícitas pode estar relacionado com o prejuízo persistente do funcionamento cognitivo.

Alguns estudos têm demonstrado que o uso de drogas ilícitas por tempo longo pode estar associado com danos à memória, fluência verbal, atenção e flexibilidade cognitiva. De fato, muitos estudos sobre a influência do consumo de substâncias psicoativas sobre o funcionamento cognitivo têm falhado na mensuração do tipo de droga utilizada, tempo de uso, quantidade por ocasião de consumo, avaliação de gravidade, dentre outros.

Além disso, estudos *longitudinais que avaliam essas funções entre usuários de substâncias costumam ser custosos e demandar tempo excessivo.

Neste estudo, os autores utilizaram dados de uma população que tem sido seguida desde o nascimento (nascidas entre 3 e 9 de março de 1958). Esses indivíduos têm sido entrevistados nas idades de 7, 11, 16, 23, 33, 42, 46 e 50 anos. Os autores utilizaram dados dos últimos três rounds dessa avaliação longitudinal. Informações sobre o consumo de drogas foram obtidas quando os sujeitos estavam com 42 anos.

Alguns testes neuropsicológicos foram utilizados para avaliação de memória e funcionamento executivo. A mensuração do funcionamento cognitivo foi derivada da combinação dos escores obtidos das avaliações sobre memória e funções executivas.

Informações sobre o uso de substâncias psicoativas foram obtidas para 99% dos entrevistados aos 42 anos. Questões relacionadas a algum uso durante a vida e algum uso nos últimos 12 meses de cerca de 12 diferentes substâncias foram feitas. Também, o tempo de uso foi questionado.

O potencial de dano da droga foi mensurado através de uma classificação própria da United Kingdom Misuse of Drugs Act. Dessa maneira, heroína, cocaína, crack, ecstasy, cogumelos alucinogênicos, metadona e LSD foram consideradas drogas de alto potencial para dano. As drogas consideradas de potencial danoso intermediário foram: maconha (canabinoides) e anfetaminas. Já as drogas consideradas de menor potencial danoso foram: ketamina, temazina e nitratos voláteis (inalantes).

Dados sobre o uso dessas drogas foram também obtidos através da pergunta: se os participantes tinham ou não procurado um especialista em dependências químicas. Devido ao pequeno número de participantes (51 sujeitos) que reportaram dependência de alguma droga ilícita nessa pesquisa aos 42 anos de idade, essa informação foi obtida através de dados angariados em outros momentos da pesquisa (nas idades de 16, 23, e 33 anos). Nessas fases anteriores da pesquisa, havia perguntas sobre se os participantes tinham já mostrado dependência de drogas.

Também, para evitar problemas nas análises estatísticas dos dados, os pesquisadores coletaram informações sobre gênero dos participantes, classe social, nível educacional, status marital, tabagismo, problemas com o uso de álcool, hábitos relacionados às atividades físicas, índice de massa corporal, sintomas depressivos, habilidades de autoeficácia, satisfação com a vida atual, presença ou ausência de doenças físicas. Muitas dessas medidas foram avaliadas através de questionários curtos e diretos.

Das 11.419 pessoas que participaram dessa pesquisa na idade de 42 anos, 11.253 (99%) reportaram algum uso de drogas ilícitas na vida. 8.871 sujeitos (80%) que fizeram algum tipo de uso nessa etapa da pesquisa (42 anos) também participaram da pesquisa aos 50 anos.

Os principais resultados da pesquisa foram:

• Uso de drogas ilícitas foi maior entre homens, pessoas solteiras, maior status social, com mais sintomas depressivos e menor qualidade de saúde física;

• Ter mais sintomas depressivos foi associado com maior risco de uso de drogas de alto potencial danoso;

• Pior status de saúde física foi associado com maior risco de uso de drogas de intermediário e baixo potencial danoso;

• Ter feito algum uso na vida de drogas ilícitas antes da idade de 42 anos foi levemente associado com melhor funcionamento cognitivo, memória e atenção. Este padrão de associação foi vislumbrado para as drogas de intermediário e baixo potencial lesivo, mas não para as drogas de alto potencial danoso;

• Quando o uso de drogas ilícitas foi avaliado de acordo com a gravidade, as análises tenderam a demonstrar uma associação negativa com o funcionamento cognitivo, ou seja, quanto maior a gravidade, pior o funcionamento cognitivo;

• Participantes que reportaram ter consultado algum profissional (devido ao problema com drogas), demonstrando a maior gravidade do quadro de uso de substâncias, também tiveram pior desempenho nos testes cognitivos, embora sem significância estatística;

• Houve associação positiva entre algum uso de cannabis na vida e funcionamento da memória.

Os autores deste artigo argumentam que os efeitos deletérios à memória e demais funções cognitivas provocados pelo uso imediato de drogas ilícitas são transitórios. Também afirmam que o grupo de sujeitos que fez algum uso de drogas ilícitas na vida (antes dos 42 anos de idade) poderia estar incluindo pessoas com uso menos regular de drogas com menor potencial para desenvolver quadros de dependência.

De fato, para uma grande parcela da população, o uso de drogas ilícitas é restrito à fase da adolescência e no início da vida adulta e não se torna uma rotina depois. Esta afirmação é, pelo menos em alguma extensão, apoiada por este estudo que também mostra que, entre aqueles com mais grave padrão de uso, a associação entre uso de drogas e funcionamento cognitivo foi negativa, embora sem significância estatística.

Existem várias limitações neste estudo que os autores comentam. A confiabilidade no relato dos participantes pode ser questionada, já que o estudo não utilizou nenhuma medida biológica ou clínica para maiores detalhes sobre o uso de drogas. A gravidade do uso de drogas também não foi avaliada, sob um ponto de vista clínico Também, os sujeitos não foram examinados cognitivamente antes da avaliação atual, o que dificulta o controle para prévias alterações cognitivas.

*Estudos longitudinais: estudos que avaliam a população alvo ao longo de um tempo determinado

Abaixo, forneço a referência do manuscrito:

Dregan A, Gulliford MC. Is Illicit Drug Use Harmful to Cognitive Functioning in the Midadult Years? A Cohort-based Investigation. American journal of epidemiology. (in press).


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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