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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Como tratar da dependência de analgésicos?

01 jan, 2016

por Danilo Baltieri

"Sou médica em Vitória-ES e tenho um primo que está em tratamento há 10 anos para cefaleia, atualmente crônica. Apresenta transtorno de ansiedade e o problema atual é a dependência de analgésicos que não permite o tratamento da cefaleia e nesse ciclo vicioso usa analgésicos, o que fez ele e a sua família perderem completamente a qualidade de vida. Gostaria de uma orientação quanto ao tratamento para a dependência de analgésicos (cefaliv, ergotamina). Estou disposta a levá-lo em outro estado para tratá-lo, pois aqui no ES não há profissionais para o tratamento desse tipo de dependência."

Resposta: Uso inapropriado de medicações para o tratamento de crises de enxaqueca (e outras cefaleias) pode contribuir de fato para o desenvolvimento de quadros crônicos de cefaleia, muitas vezes refratários aos tratamentos convencionais.

Isso leva o portador a fazer uso abusivo de uma miríade de analgésicos e, inclusive, desenvolver quadro de abuso e síndrome de dependência de alguns tipos de medicamentos.

Crises de enxaqueca afetam entre 11% e 20% da população e são tratadas comumente com medicamentos derivados da ergotamina ou triptanos. O uso abusivo de medicamentos para o tratamento da enxaqueca tem sido frequentemente visto na prática clínica, principalmente envolvendo medicações opioides, derivados da ergotamina e triptanos. Esses quadros de abuso, como mencionado, constituem uma causa secundária para o desenvolvimento de cefaleias crônicas.

O principal fator de risco para o abuso dessas medicações é a recorrência da cefaleia. Logo, alguns autores levantam a hipótese de que quanto menor a meia-vida da droga usada (meia-vida = tempo necessário para que metade da droga seja removida do organismo, fisiologicamente), maior o risco do abuso da mesma.

As cefaleias relacionadas ao uso abusivo de medicamentos têm sido definidas pelos seguintes critérios:

a) cefaleia está presente por pelo menos 15 dias ao mês;

b) o portador faz uso regular de medicamentos para tratar a cefaleia (mais de 10 dias por mês durante pelo menos 3 meses);

c) piora ou surgimento da cefaleia durante os episódios de abuso dos medicamentos;

d) reversão ao quadro prévio ao abuso das medicações, dentro de dois meses após a interrupção das medicações.

Esses quadros de abuso de analgésicos para tratar cefaleia compartilham sintomas com aqueles das síndromes de dependência de drogas, como por exemplo:

a) usar o medicamento frequentemente em doses altas e por tempo maior do que o pretendido;

b) evidência de tolerância (necessidade de usar doses cada vez maiores para obter os mesmos efeitos anteriormente conseguidos);

c) sinais de síndrome de “abstinência”. Quando o indivíduo cessa o uso, a dor aumenta, acompanhada por irritabilidade, inquietação, insônia, perda do apetite etc;

d) prejuízo das atividades sociais, laborais, educacionais e de lazer.

Dessa forma, as cefaleias (como a enxaqueca) devem ser adequadamente tratadas por médico neurologista, observando sempre a possibilidade do abuso dos medicamentos e a consequente possibilidade do desenvolvimento de quadros similares ao de uma síndrome de dependência.

Uma vez instalado o quadro de cefaleia relacionado com abuso de medicamentos, o paciente deve ser rigorosamente avaliado por especialistas, suas medicações e padrão de consumo devidamente registrado, e *co-morbidades clínicas e psiquiátricas rigorosamente examinadas. Assim, tendo em mãos essas informações, o especialista poderá traçar uma proposta terapêutica.

Os quadros de dor crônica, acompanhados de abuso ou dependência de medicamentos, frequentemente co-ocorrem com vários outros quadros médicos, como depressão, ansiedade e determinados aspectos de personalidade. Isso significa que o paciente deverá, muitas vezes, receber suporte multiprofissional.

Existem várias propostas terapêuticas para aqueles que padecem de quadros de dor crônica, incluindo as cefaleias relacionadas ao abuso de medicamentos.

Entretanto, devido à heterogeneidade da população, os tratamentos deverão ser adequadamente individualizados, objetivando a interrupção completa das medicações abusadas.

Abaixo, transcrevo referência interessante sobre o tema:

Beau-Salinas F, Jonville-Bera AP, Cissoko H, Bensouda-Grimaldi L, Autret-Leca E. Drug dependence associated with triptans and ergot derivatives: a case/non-case study. European journal of clinical pharmacology, 2010; 66(4):413-7.

* Muitas vezes, além da Síndrome de Dependência, o indivíduo também é portador de outros transtornos psiquiátricos que também precisam ser adequadamente diagnosticados e tratados. A esta combinação de Síndrome de Dependência e outros transtornos psiquiátricos, dá-se o nome de comorbidade.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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