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Ponhamos um freio no preconceito racial

por Luís César Ebraico

Wellington, embora fiho de uma mulata, então minha namorada, era preto retinto e, à época do diálogo que vou relatar, tinha cerca de 9 anos de idade. Penso que havia assistido na televisão algum comentário sobre a Lei 1.390, sancionada por Getúlio Vargas em 3 de julho de 1951, e mais conhecida sob o apelido de Lei Afonso Arinos. Como sabe a maioria de nós, o objetivo desta lei é por um freio ao preconceito racial, embora essa mesma maioria de nós jamais tenha compulsado a lei, não conhecendo, dessarte, seu exato conteúdo. Estava eu, assim, posto em sossego, quando me aparece o garoto, perguntando:

WELLINGTON: - Luís César, se alguém chamar o outro de preto, vai pra cadeia?
LC (algo hesitante, pois ainda não conhecia o texto exato do diploma legal): - Bem..., acho que sim, filho!
WELLINGTON: - E se chamar o outro de f.d.p., também vai!
LC (mais hesitante ainda): - Bem..., acho que não!
WELLINGTON: - PRETO É PIOR QUE F.D.P.?!

Chega-me, através de uma nuvem, a idéia de que respondi:

LC: - Bem, meu filho, para mim, não!

Mas não consigo, até hoje, deixar de sentir uma certa sensação de débito em relação ao menino, cuja expressão revelou que o possível fato de, para mim pelo menos, preto não ser pior do que f.d.p., não resolvia nem um pouco seu problema.

Hoje, sei que a Lei 1.390 não comina pena a quem chamar outrem de preto ou negro. E confesso que, soubesse eu disso àquela época, teria ficado mais satisfeito ao responder:

LC: - Não, Wellington, todo mundo pode chamar aos outros de preto e de f.d.p. à vontade! E de branquelo também!

Ufa!


Ângelo Medina é editor-chefe do portal Vya Estelar. É jornalista e ghost writer. Com 30 anos de experiência, iniciou sua carreira na cobertura das eleições à Prefeitura de São Paulo em 1988 (Jornal da Cultura). Trabalhou no Caderno 2 - O Estado de São Paulo, Revista Quatro Rodas (Abril). Colaborou em diversas publicações e foi assessor de imprensa no setor público e privado. Concebeu o site Vya Estelar em 1999. É formado em Comunicação Social pela UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora.

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