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Autoconhecimento

Minhas Atitudes

Como entender o sofrimento humano?

Papo de boteco é uma coisa, terapia é outra

por Regina Wielenska

Imagine alguém bebendo água. A pessoa pode estar com sede por ter comido uma feijoada salgada demais. Então passa a tarde bebendo copos e mais copos de água. Noutro caso, se a pessoa estiver com a glicemia elevada (em outros termos, ficou alta sua taxa de açúcar no sangue) há boa chance dela também beber muita água e urinar abundantemente.

Uma terceira possibilidade seria a de alguém de ressaca, o álcool desidrata a pessoa que bebeu demais e aí ela sente uma sede enorme. Há também que se imaginar o caso de alguém que está numa situação socialmente constrangedora, entediante ou estressante. Impossibilitado de fazer outra coisa e de se livrar daquele contexto social, a pessoa começa a bebericar água, um comportamento aceitável e que produz algum alívio ou distração.

Agora imagine um menino de quinze anos que está indo muito mal na escola. Pode ser disléxico, sofrer de um distúrbio de aprendizagem ainda não diagnosticado. Mas também pode estar com muitas faltas (cuja razão precisaria ser descoberta) e perdeu uma parte considerável de conteúdos.

Será que tem sofrido bullying e não consegue focar nos estudos pela pressão grave?

Alguns jovens, provavelmente à revelia dos pais, ficam até de madrugada jogando online ou nas redes sociais. Privados de sono, as aulas são intoleráveis. Ninguém aprende se impedido de dormir, perde-se o foco e não se fixam as memórias. Há também alguma chance dos professores serem ruins ou o método adotado não servir, ao menos para as características do aluno em questão.

Esses dois exemplos, tão díspares entre si, foram apresentados apenas com o propósito de demonstrar que pra cada situação humana pode haver uma variedade de razões que expliquem o que se passa. E pra cada caso há que se planejar uma solução individualizada, apropriada para interferir adequadamente sobre as causas reais do fenômeno de interesse.

De modo similar, assim funcionam os psicoterapeutas. Eles são procurados por pessoas em sofrimento, e elas esperam que o terapeuta lhes ofereça caminhos resolutivos. Terapia pode mesmo ser útil e libertadora. Mas o caminho depende do entendimento profundo da complexidade das variáveis envolvidas. E nem pra tudo existe solução. Por vezes o que se poderá fazer é ajudar a pessoa a aceitar emocionalmente o que se passou em sua existência, sem modificar aspectos do cenário externo.

Por isso que não respondo a pedidos de leitores que me relatam por e-mail suas agruras, em poucas linhas, sem contato direto olho a olho. Certamente há muito sofrimento envolvido, e também faltam recursos pra buscar ajuda profissional. Psicólogos não conseguem trabalhar assim, cada comportamento humano pode ter uma infinidade de razões e então só com muita conversa e reflexões é que se poderá eventualmente chegar a um bom termo. Terapia é uma empreitada a ser executada pela dupla cliente e terapeuta, de modo ético, afetivo, humano, tecnicamente preciso, baseado em evidências cientificas. Papo de boteco é uma coisa, terapia é outra. Ambas podem ser ótimas alternativas, mas cada uma tem função e características próprias.


É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.

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