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Comportamento

Amor

Por que amo essa pessoa tão obsessivamente?

Somos seguidores de sensações passadas...

01 jan, 2016

por Tatiana Ades

"Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que encontrasse a imagem, que entre mil, conviesse ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo esse? Por que o desejo, por tanto tempo, languidamente?... "
(Roland Barthes - Fragmentos de um Discurso Amoroso)

Neste pequeno trecho de Roland percebemos a perplexidade que o amor causa, assim como o questionamento do porquê nos vincularmos tanto a uma pessoa x e não a outra y, sendo que a y se mostra mais amável e compatível conosco.

O que faz com que nos fixemos com afinco em uma pessoa e essa sensação de amor e vínculo acabe se tornando uma obsessão?

Freud dizia que quando pequenos nos apegamos a diversas imagens, gestos, cheiros, de nossos progenitores, de forma inconsciente nos apegamos a "algo" em um momento de carinho, por exemplo: uma criança pode receber carinho de seu pai, num momento de carência grande, e esse pai possui uma barba ruiva rala. Quando adulta essa pessoa, sem ter a menor consciência do porquê, se vê extasiada por um homem com uma barba semelhante a de seu pai, o inconsciente recebe um estímulo guardado de "carinho", sensação que marcou aquele momento antigo.

E dessa forma, sem entender o porquê, a imagem física fica presa à sensação passada que a pessoa vivenciou e assim cria-se um processo de fixação e até de obsessão.

Somos seguidores de sensações passadas e nem ao menos sabemos disso, por isso ficamos tão perplexos com certas escolhas em relação ao amor que sentimos por uma pessoa e não por outra.

Freud define a fixação como "Fixação é um congelamento no desenvolvimento, que é impedido de continuar. Uma parte da líbido permanece ligada a um determinado estágio do desenvolvimento e não permite que a criança passe completamente para o próximo estágio. A fixação está relacionada com a regressão, uma vez que a probabilidade de uma regressão a um determinado estágio do desenvolvimento aumenta, se a pessoa desenvolveu uma fixação nesse estágio".

Muitas vezes esse processo é repetido, ou seja, quando há um término, a pessoa sem saber por que irá buscar as mesmas características da pessoa anterior.

Imprinting: "copiar" o progenitor e seguí-lo

*Lorenz estava interessado no estudo dos animais no seu contato com a natureza e na forma como sobreviviam nos ambientes reais.

Sugeriu que as espécies animais estão geneticamente construídas para aprenderem tipos específicos de informação que são importantes à sua sobrevivência. Isso se dá já nas primeiras horas de vida por um processo demoninado de imprinting, que é decisivo para o desenvolvimento dos animais, e que marcará toda a vida deles. Um exemplo disso, é quando um animal pode seguir outro que não a sua mãe verdadeira, caso receba estímulos e cuidados desse outro animal. Esse animal passa então a assimilar esse outro como protetor e com a sensação de suposto progenitor.

O imprinting ocorre também em seres humanos, ou seja um processo de fixação durante a idade infantil, que marcará sua mente por toda a vida.

* Konrad Zacharias Lorenz (Viena, 7 de Novembro de 1903 - Viena, 27 de Fevereiro de 1989) foi um zoólogo, etólogo e ornitólogo austríaco.


É psicanalista e escritora e teatróloga. Em seus livros, o foco de estudo é o comportamento humano e o amor patológico. Tem em seu currículo várias peças escritas e encenadas nos teatros de São Paulo, além de ter concorrido ao prêmio Shell de melhor texto teatral com Os Viúvos – Teatro Ruth Escobar (2003). Como escritora, em 1998, ganhou um concurso com o conto O silêncio da raposa. Eles são o resultado de uma pesquisa de três anos: Hades – Homens que amam demais e As escravas de Eros.

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