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Virando a situação

Nem todos utilizam a estratégia de virar a situação da mesma maneira

por Angelina Garcia

Clarissa chega de cara amarrada, quando Lígia já pensava ir embora.

- Nossa, Clarissa, aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu nada. Não estou aqui?
- Já perdemos a sessão e a próxima vai terminar muito tarde.

Visivelmente nervosa, Clarissa esbraveja:

- Pelo amor de Deus, Lígia, como você reclama! Nem dá gosto sair com você.

Lígia quase veste a carapuça, mas se refaz em segundos, pensando no amontoado de vezes que segurou a vontade de lhe dizer o quanto seus atrasos a incomodavam. Dessa vez não deu e saiu tudo num estouro:

- Só me faltava essa! Você é quem está sempre atrasada.

Enquanto Lígia dá a volta para entrar no carro, Clarissa, espumando de raiva, acelera, deixando a amiga plantada no meio da rua.

Podemos pensar que a situação não seria para tanto, mas a reação exagerada de Clarissa pode ser justificada. Primeiro, porque sua tentativa de virar a situação não funcionou. Quantas vezes, para se livrar da culpa, a pessoa a transfere para o outro que, pego desprevenido, toma-a para si. Depois, pela sua dificuldade em lidar com o desconforto de ver sua falha exposta assim de chofre, pela amiga. Ela também foi pega de surpresa.

Nem todos utilizam a estratégia de virar a situação da mesma maneira. Existe pessoa, por exemplo, que faz tudo para não se atrasar, pois sabe o que perderia com isso; mas lida mal com o tempo, pensando sempre que ainda é possível fazer qualquer coisinha antes de sair. Já sob a tensão de mais uma vez ter perdido o controle sobre si mesma, recebe a pressão de quem a espera; procura, então, desviar sua atenção, fazendo piada, ou virando a situação. Se não der certo, como aconteceu com Clarissa, é fácil perder a cabeça. A raiva vem por conta do outro não compreender seu esforço, desnudar seu ponto fraco e não entrar no seu jogo.

Há, entretanto, aquelas que não percebem o quanto algumas de suas condutas irão comprometê-las, ou já se aceitaram como “sou assim mesmo”. O problema está sempre no outro. Virar a situação para elas é um hábito que realizam sem o menor constrangimento. Como aquele aluno que entra na metade da aula, não traz material e ainda perturba o colega ao lado para saber o que aconteceu antes da sua chegada. Se o professor lhe chama a atenção, fica furioso:

- Nossa professor, como o senhor é estressado!

Atitudes como essas não devem ser tomadas como ofensa pessoal, tipo “ele não me respeita”, “ele não me vê”, “ele não liga para mim”. A pessoa que vira a situação, mesmo que de formas diferentes como nesses dois casos, não pretende agredir o outro, quer apenas livrar-se, com mais ou menos consciência, do peso de sua falha. Por mais que ela nos irrite – e nos irrita -, é necessário colocarmos limites na medida em que possa suportar. Cada uma tem suas razões, que nem sempre conhecemos, para agir assim.

Se queremos realmente contribuir para a sua mudança, o melhor é retomarmos a atitude dela em outro momento, pois naquele, além da interferência da nossa irritação, a pessoa não apresenta condições de refletir sobre o próprio ato.


Ângelo Medina é editor-chefe do portal Vya Estelar. É jornalista e ghost writer. Com 30 anos de experiência, iniciou sua carreira na cobertura das eleições à Prefeitura de São Paulo em 1988 (Jornal da Cultura). Trabalhou no Caderno 2 - O Estado de São Paulo, Revista Quatro Rodas (Abril). Colaborou em diversas publicações e foi assessor de imprensa no setor público e privado. Concebeu o site Vya Estelar em 1999. É formado em Comunicação Social pela UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora.

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