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Estou com depressão pós-parto, mas meu marido não entende. O que faço?

No momento, tente evitar fazer julgamentos sobre seu marido

01 jan, 2016

por Joel Rennó Jr.

"Tive um filho há oito meses e creio que estou com sintomas de depressão. Atualmente, estou em casa cuidando dele, fui despedida logo após o término da licença maternidade. Tenho uma rotina chata apesar de amar meu filho. Meu marido se cansou de tantas queixas. Ele diz que só reclamo e isso me magoa muito; pensei que pudesse contar com seu apoio, mas percebi que ele não me aguenta mais. Engordei muito na gravidez, emagreci 17 quilos, mas ainda faltam 10. Só penso nisso e consequentemente só falo nisso. Isso fez com que meu marido ficasse extremamente cansado de mim. Eu o amo muito, mas sinto que ele é egoísta, pois preciso muito dele e justamente nesse momento me abandonou. Preciso de ajuda".

Resposta: A gestação e o pós-parto são dois períodos de intensas transformações na vida do casal.

A relação do casal costuma ser muito testada em todos os sentidos. Há mulheres que durante a gestação relatam dificuldades para lidar com algumas transformações e novos papéis.

Concomitantemente às transformações que ocorrem na relação do casal e na vida pessoal, podem haver gatilhos estressores que favorecem a eclosão de quadros psiquiátricos como depressão e ansiedade: baixo suporte sóciofamiliar, gravidez não planejada, conflitos conjugais, violência, uso de álcool e drogas, cessação de tratamentos psiquiátricos por conta própria e consequente recidiva da doença, diabetes gestacional, pré-eclâmpsia e demais complicações obstétricas.

Muitas mulheres que já tiveram depressão em outros períodos de suas vidas pessoais podem ter uma recorrência na gestação e pós-parto, onde a força biológica dos hormônios femininos pode ser um fator preponderante também.

O importante é a mulher não se impor regras rígidas como, por exemplo, a de emagrecer rapidamente como as famosas insistem em divulgar a todos os cantos ou se responsabilizar sozinha por todos os cuidados iniciais com o bebê dispensando ajudas.

Todos sabemos que as mudanças corporais podem ser um fator também para a baixa autoestima que muitas mulheres têm no pós-parto imediato, muitas se sentem rejeitadas pelo marido e até evitam se despir na frente dele. Essas mudanças corporais e as mudanças de rotina da vida do casal - onde muitos maridos se sentem rejeitados, excluídos e jogados de lado, são frequentes e realmente testam o relacionamento do casal. Só que precisa haver paciência e união para que essas rotinas e mudanças se estabilizem e se transformem construtivamente.

Muitas das famosas, que até de forma arrogante apregoam "milagres" com emagrecimentos fantásticos e rápidos na realidade adotam hábitos alimentares péssimos e não saudáveis recorrendo até às cirurgias plásticas inapropriadas para o momento do pós-parto imediato. O corpo da mulher requer um tempo adequado para se recompor das transformações sofridas durante a gestação, algumas são mais rápidas do que outras, em hipótese alguma pode haver uma cobrança excessiva ou comparação.

Consideramos depressão pós-parto, pelo conceito da Sociedade Marcé de Paris, o período de até um ano após o nascimento do bebê. Portanto, é importante que o tratamento psiquiátrico apropriado seja realizado com ou sem amamentação.

Há alguns medicamentos antidepressivos que podem ser prescritos com a mulher amamentando, mas isso só o especialista pode determinar. Uma ajuda psicoterápica pode também ter um papel relevante e em alguns casos até a psicoterapia do casal é fundamental para que não haja mais fatores estressores e até rejeição à criança ou separação conjugal prematura.

Sugiro à internauta que, no momento, tente evitar um julgamento sobre seu marido, pois a leitura de quem está deprimido costuma ser negativa. O seu marido embora possa até ter alguma responsabilidade no processo, também requer e precisa de ajuda.

Atenção!

Esse texto e esta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracterizam como sendo um atendimento.


Dr. Joel Rennó Jr. MD, Ph.D. Professor do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria da USP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein- São Paulo. Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). www.psiquiatriadamulher.com.br

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