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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Importância do exercício físico na ativação do sistema opioide cerebral

Exercício induz benefícios psicológicos

01 jan, 2016

por Ricardo Arida

O exercício físico promove vários benefícios psicológicos, tais como melhora do humor e diminuição dos níveis de ansiedade.

Estudos científicos têm mostrado que a sensação de relaxamento e bem-estar após a prática de esportes ou atividade física regular é devido a alterações dos níveis de neurotransmissores, como a noradrenalina, a serotonina e a dopamina. Ainda, um estado de euforia é relatado em aguns indivíduos durante a atividade aeróbia ou corrida de longa distância, comumente referido em inglês como runner's high (veja artigo anterior).

Embora muitas hipóteses fisiológicas tenham sido sugeridas para explicar os efeitos ansiolíticos e antidepressivos do exercício, como aumento dos neurotransmissores citados acima, pesquisadores têm sugerido que esses efeitos também podem ser mediados pela liberação de endorfinas, isto é, ativação do sistema opioide cerebral.

Os opioides endógenos (produzidos pelo próprio organismo) ou exógenos (administrados externamente) agem em seus receptores (proteínas presentes na membrana plasmática) produzindo suas ações biológicas. Estas substâncias têm atraído a atenção de pesquisadores ao longo dos anos por seus efeitos de analgesia, euforia e de dependência que ocorrem em resposta a situações como estresse, depressão, ansiedade e exercício físico.

A hipótese da endorfina (opioide) para os efeitos psicológicos induzidos pelo exercício foi de certa forma deixada de lado, porque até hoje, esse mecanismo é baseado em medidas indiretas como aumento de endorfinas na circulação sanguínea. Desta forma, níveis de endorfinas periféricas (sanguíneas) parece não refletir o do sistema nervoso central. As endorfinas liberadas na corrente sanguínea durante o exercício físico fazem parte de uma resposta ao estresse do corpo e não ultrapassam a barreira sanguínea cerebral (não chegam ao cérebro). Uma teoria favorável sugere que esses efeitos fisiológicos e psicológicos se devem a alterações no sistema opioide central.

Um estudo de neuroimagem realizado na Universidade de Bonn (Alemanha) em humanos, mostrou pela primeira vez, um aumento da liberação de endorfinas em algumas áreas cerebrais de atletas durante duas horas de corrida e mostraram uma forte correlação com a percepção de euforia (runner's high) em corredores (1).

Para melhor entendimento de como o exercício interfere no sistema opioide, estudos têm sido realizados em cérebro de animais submetidos ao exercício físico. Pesquisas experimentais com ratos mostram alteração dos níveis de opioides em diferentes regiões do cérebro. Apesar destes estudos mostrarem a influência do exercício físico nos opioides endógenos, poucos estudos mostram a expressão dos seus receptores no cérebro após o exercício. Neste sentido, um estudo recente, conduzido por Arida e colaboradores, publicado em revista de grande impacto científico (Journal of Neurochemistry), mostrou uma ativação do sistema opioide em diferentes regiões cerebrais frente a curtos e longos períodos de exercício (2). Os resultados deste estudo mostram como os receptores opioides, com funções complexas na modulação dos estado de humor, recompensa, analgesia e na sensação de euforia (corredor de longa distância) são estimulados pelo exercício físico. Ainda, estes resultados indicam que dependendo do estímulo do exercício, áreas específicas do cérebro podem ser ativadas ou modificadas para modular os fatores citados acima.

Concluindo, não há dúvida de que o exercício induz benefícios psicológicos, como alterações positivas de humor e diminuição dos níveis de ansiedade, entretanto, mais estudos são necessários para confirmar se isso está relacionado com a liberação de endorfinas e ativação do sistema opioide central. Esses achados podem também fornecer dados de potencial terapêutico, indicando como a atividade física regular ajuda a manter a saúde do cérebro e a minimizar transtornos de ansiedade e depressão.


1- Boecker H, Sprenger T, Spilker ME, Henriksen G, Koppenhoefer M, Wagner KJ, Valet M, Berthele A, Tolle TR. The runner's high: opioidergic mechanisms in the human brain. Cereb Cortex. 2008;18(11):2523-31

2- Arida RM, Silva SG, de Almeida AA, Cavalheiro EA, Zavala-Tecuapetla C, Brand S, Rocha L. Differential effects of exercise on brain opioid receptor binding and activation in rats. J Neurochem. 2014, Oct 20.


Possui graduação em Educação Física pela Universidade de São Paulo (1980), mestrado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1995), doutorado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1999) e pós-doutorado pela Universidade de Oxford-UK. Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo. Tem experiência nas áreas de Neurociências e Fisiologia do Exercício Mais informações: www.ricardoarida.wordpress.com

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