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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Maconha causa "caos cognitivo" no cérebro, diz estudo

Isso implica em prejuízos na memória e na tomada de decisões

01 jan, 2016

por Danilo Baltieri

Estudo produzido por cientistas da Universidade de Farmacologia de Bristol (Inglaterra), analisou os efeitos negativos da maconha na memória e no pensamento, o que pode provocar redes cerebrais "desorquestradas".

Comentários sobre o estudo: Normalmente, o processamento das informações no cérebro é realizado por redes neuronais separadas anatomicamente que necessitam de uma complexa e articulada interação.

Dentre essas interações, aquela que envolve o hipocampo (região cerebral relacionada com a memória) e o córtex pré-frontal (região cerebral associada com a tomada de decisões e controle impulsivo) tem sido afetada em diferentes distúrbios neuropsiquiátricos.

É bem documentado que o princípio ativo da maconha, o Delta elevado a 9-THC, exerce sua ação em receptores cerebrais específicos que são proeminentemente distribuídos em regiões cerebrais relacionadas com a cognição (memória, atenção, concentração). Alguns estudos têm já mostrado que canabinoides alteram a capacidade de interação entre o hipocampo e o córtex pré-frontal, provocando prejuízos no processamento da memória espacial.

No estudo em questão, os autores implantaram eletrodos no cérebro de 6 ratos, tanto em região conhecida como límbica (relacionada com as emoções) quanto em hipocampo. Todos os ratos foram adequadamente anestesiados durante o procedimento de implantação dos eletrodos.

Aos ratos foi administrada a droga CP55940, um poderoso agonista de receptores canabinoides. Uma droga agonista é aquela que age ativando determinados receptores. Foram administradas três doses diferentes deste agonista ou uma solução salina (sem atividade sobre os receptores canabinoides). Essas substâncias foram administradas no peritônio dos animais. Peritônio é a membrana que cobre as vísceras abdominais. Após, várias atividades foram estimuladas com e sem fornecimento de recompensas.

Resumindo os resultados do estudo, temos:

a) houve alterações bastante discrepantes em ondas (teta e gama) cerebrais entre o hipocampo e o córtex pré-frontal;

b) houve significativa redução de disparos neuronais na região do hipocampo, mas não em córtex pré-frontal, sob a vigência de dose mediana;

c) o intervalo entre os disparos neuronais foi aumentado mais significativamente na região de córtex pré-frontal do que no hipocampo.

As alterações cerebrais induzidas pela droga estão implicadas com prejuízos na memória e na tomada de decisões. Os autores aventam a possibilidade de alguns sistemas de neurotransmissores estarem envolvidos com as alterações, tendo em vista que os receptores de canabinoides expressam conexões com outras substâncias (p.ex., colecistocinina e GABA). A falta de sincronização das alterações induzidas pelo canabinoide provoca alteração no processamento das informações, na percepção dos fatos, na realização das tarefas e na conclusão das mesmas.

O estudo é interessante e oportuno. Múltiplas variáveis são consideradas durante o seu desenvolvimento. No entanto, devemos considerar que se trata de estudo experimental, envolvendo ratos e apenas seis.

Abaixo, forneço a referência do estudo para consulta:
Kucewicz MT, Tricklebank MD, Bogacz R, Jones MW. Dysfunctional Prefrontal Cortical Network Activity and Interactions following Cannabinoid Receptor Activation. J Neurosci. 2011; 31(43):15560-8.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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