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Fumar maconha pode adiantar o aparecimento de esquizofrenia, indicam estudos

Maconha: substância ilícita mais abusada pelos adolescentes

01 jan, 2016

por Danilo Baltieri

"Deve-se no momento aceitar que o consumo de maconha pode induzir sintomas psicóticos principalmente entre pessoas predispostas ao surgimento de quadros esquizofreniformes. Apenas uma avaliação clínica especializada, bem como um acompanhamento médico intensivo poderá auxiliar o usuário de maconha com quadro psicótico a ser adequadamente diagnosticado e tratado"

Resposta: A maconha é a mais frequente substância ilícita abusada por adolescentes em geral e, apesar de ser ilegal em muitos países, trata-se de uma substância facilmente obtida e largamente cultivada.

Muitas pessoas que fazem uso dessa substância referem um sentimento de leve euforia e bem-estar após o uso, sendo uma das razões para a perpetuação do consumo. Em alguns indivíduos, contudo, o uso frequente tem consequências bastante adversas e pode provocar sintomas chamados psicóticos (audição de vozes, sensação de que estão sendo perseguidos, agitação psicomotora decorrente, etc). Adolescentes, particularmente, podem ser mais sensíveis aos efeitos do uso da maconha devido ao período da vida de continuado desenvolvimento cerebral.

Quando um quadro psicótico ocorre entre usuários de maconha, esses indivíduos podem ser admitidos em unidades de emergência médica, embora geralmente os sintomas cessem em algumas horas. Em outros indivíduos, um quadro psicótico mais duradouro induzido pelo consumo de maconha pode acontecer e se assemelhar bastante a um quadro de esquizofrenia.

Além disso, em alguns outros indivíduos usuários de maconha, um primeiro episódio de surto esquizofrênico pode iniciar, e a maconha é comumente responsabilizada por isso em geral pelos familiares e pelos próprios pacientes.

De fato, o consumo de maconha pode produzir sintomas parecidos com quadros esquizofreniformes em indivíduos que já estão em risco para o desenvolvimento da doença esquizofrenia, devido ao fato que esses usuários já teriam prévias alterações cerebrais funcionais ou susceptibilidade genética.

Indivíduos que já sofrem de esquizofrenia e apresentam história pessoal de consumo de maconha ou outras substâncias demonstram um início mais precoce da doença (esquizofrenia) do que aqueles esquizofrênicos que nunca usaram maconha ou outras substâncias. Parece que entre os indivíduos do primeiro grupo têm menos sintomas negativos (apatia, falta de vontade de desempenhar atividades) e mais sintomas positivos (alucinações, delírios) do que os do segundo grupo. Também, alguns autores demonstram que as pessoas que padecem de esquizofrenia, se mantiverem o consumo de maconha, apresentarão um curso mais grave da doença, embora esse pior prognóstico não esteja apenas relacionado com o uso da maconha.

De fato, o relacionamento “consumo de maconha/esquizofrenia” não pode ser ignorado do ponto de vista clínico e epidemiológico. Em um estudo sueco, o risco relativo do surgimento de quadros esquizofrênicos entre usuários de maconha foi 4.1 comparado com não usuários de maconha e de 6.0 para consumidores pesados de maconha. Todavia, outro estudo australiano demonstrou que apesar do aumento da incidência de usuários de maconha no país, não houve aumento da incidência do diagnóstico de esquizofrenia. Todavia, os autores do último estudo apontam que, embora não haja uma relação unifatorial e unicausal entre uso de maconha e esquizofrenia, o consumo dessa substância pode precipitar quadros psicóticos em pessoas vulneráveis, bem como piorar o curso da doença esquizofrenia.

Ao contrário, outro estudo publicado no British Journal of Psychiatry em 2004 (Arseneault L, Cannon M, Witton J, Murray RM. Causal association between cannabis and psychosis: examination of the evidence. Br J Psychiatry 2004;184:110-7) revisou 5 outros estudos que incluíram amostras bem definidas da população, avaliando o consumo de maconha e o posterior surgimento de quadros esquizofrênicos. Os autores concluíram que o uso de maconha confere um aumento de duas vezes no risco relativo para esquizofrenia. Ainda, os autores sugeriram que a eliminação do consumo de maconha reduziria a incidência da esquizofrenia em cerca de 8%, assumindo uma relação de causalidade.

De fato, dados como estes não podem ser desconsiderados. No entanto, deve-se no momento aceitar que o consumo de maconha pode induzir sintomas psicóticos principalmente entre pessoas predispostas ao surgimento de quadros esquizofreniformes. Apenas uma avaliação clínica especializada, bem como um acompanhamento médico intensivo poderá auxiliar o usuário de maconha com quadro psicótico a ser adequadamente diagnosticado e tratado.

Abaixo, forneço referência bastante interessante sobre o tema:

DeLisi LE. The effect of cannabis on the brain: can it cause brain anomalies that lead to increased risk for schizophrenia? Curr Opin Psychiatry 2008;21(2):140-50.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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