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Saúde e Bem-estar

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Conheça os efeitos agudos e crônicos sobre o uso de maconha

Efeitos agudos e crônicos dependem da quantidade utilizada

01 jan, 2016

por Danilo Baltieri

"Sou usuário de cannabis há algum tempo e sinto que ela me faz bem, me torna mais produtivo, mais concentrado, mais criativo, e mais, por incrível que pareça, mais inteligente. Minhas notas na faculdade subiram desde que comecei a utilizar a droga frequentemente. Não a utilizo para recreação. Sinto que ela tem servido para otimizar atividades do dia a dia. Enfim, melhorou muito minha capacidade cognitiva. É fato que até agora tenho tido ótimos reações ao uso da droga, mas gostaria de saber os reais riscos que posso correr com o uso frequente da mesma ao longo dos anos. Há muitos casos de usuários que a utilizam da mesma forma e com os mesmos resultados? Se sim, quais os problemas enfrentados por essas pessoas? E gostaria de saber se existem casos em que a maconha pode ser recomendada?"

Resposta: O consumo de maconha pode alterar uma miríade de funções intelectuais e cognitivas, e tais alterações são relacionadas com a dose utilizada, experiências pretéritas e outras variáveis sociais, psicológicas e neurobiológicas.

Quanto às habilidades mentais, um prejuízo agudo é amiúde verificado na execução de tarefas complexas e associado com a dose consumida. Muitos dos efeitos sobre a cognição não são frequentemente reconhecidos por observadores casuais e aqueles usuários de longa data são frequentemente mais ainda difíceis de serem reconhecidos em situações sociais.

Não é incomum também que usuários atribuam ao uso da maconha uma melhor performance nas atividades intelectuais e laborais. Todavia, essa atribuição à maconha não tem sido adequadamente respaldada na literatura científica. Ao lado disso, alguns usuários dessa droga podem estar usando maconha para reduzir sintomas de outros problemas dos quais possam padecer, tais como sintomas de ansiedade e depressão. Como o consumo da droga pode estar, em um primeiro momento, relacionado com o alívio da sensação de ansiedade e uma maior interação social com pares, o usuário pode associar o consumo da droga com uma melhoria na qualidade de vida.

No entanto, existem várias complicações decorrentes do consumo de maconha à saúde mental e física, tanto durante a intoxicação quanto após o consumo crônico da droga.

Naturalmente, os efeitos agudos e crônicos da maconha dependem da quantidade da droga utilizada, da susceptibilidade individual e do tempo de consumo.

Embora essa substância seja geralmente fumada, às vezes ela pode também ser ingerida. É bom lembrar que, em relação à maconha, as taxas de absorção oral são mais elevadas (90% a 95%) e lentas (30 a 45 minutos) em relação à absorção pulmonar (50%). Isso pode contribuir para a intensidade e duração dos efeitos da droga.

Os efeitos farmacológicos pela absorção pulmonar podem demorar entre 5 a 10 minutos para iniciarem. Devido à alta solubilidade da maconha em gordura, a droga acumula-se principalmente nos órgãos onde os níveis de gordura são mais elevados (cérebro, testículos e tecido adiposo). Alguns pacientes podem exibir os sintomas e sinais de intoxicação por até 12 a 24h, devido à liberação lenta da droga a partir do tecido gorduroso.

Complicações sobre o uso de maconha

Quanto às complicações do uso da maconha, faço um breve resumo:

a) Durante a intoxicação:

Como efeitos físicos, podemos citar a taquicardia, boca seca, tontura, retardo psicomotor, redução da capacidade para resolução de problemas, incoordenação motora, broncodilatação, tosse.

Como efeitos psíquicos, podemos citar prejuízo da concentração e da atenção, prejuízo do julgamento, precipitação de crises de pânico, prejuízo da memória de curto prazo, sensação de que o ambiente está diferente, alucinações e ilusões, prejuízo da percepção de tempo e espaço.

b) Complicações do uso crônico:

Como efeitos físicos, devemos lembrar que a fumaça da maconha é altamente irritante para a nasofaringe e o revestimento brônquico e, portanto, aumenta o risco de tosse crônica e outros sinais e sintomas de patologias respiratórias. O uso crônico de maconha, às vezes, está associado com ganho de peso, provavelmente em decorrência do aumento do apetite e da redução da atividade física. Sinusite, faringite, bronquite com tosse persistente, enfisema e displasia pulmonar podem ocorrer com o uso crônico e pesado. A fumaça da maconha também contém carcinógenos, sendo que o uso pesado pode aumentar o risco para o desenvolvimento de doença maligna. Alguns estudos apontam para maior risco de acidentes vasculares cerebrais entre usuários de maconha, bem como redução na produção de testosterona; entretanto, ainda esses estudos carecem de melhor averiguação.

Como efeitos neuropsiquiátricos, podemos citar prejuízos da memória e atenção, outros prejuízos cognitivos relacionados à organização de informações complexas e piora da atenção seletiva. Um quadro conhecido como “síndrome amotivacional”, onde os pacientes apresentam-se apáticos, com pouco ou nenhum interesse pelas atividades de rotina e péssimo desempenho no trabalho ou escola tem sido descrita para dependentes de maconha.

É importante ressaltar que vários quadros psiquiátricos, como depressão, ansiedade e transtornos psicóticos (esquizofrenia) podem ser agravados com o abuso dessa e de outras substâncias.

Também é verdade que existem vários tipos de canabinoides naturais e sintéticos que podem ser obtidos ou derivados da própria planta cannabis sativa. Essa planta vem sendo utilizada, há séculos, pela humanidade para diversos fins, tais como, alimentação, rituais religiosos, práticas medicinais e propostas recreativas. O primeiro relato medicinal da planta cannabis foi atribuído aos chineses, que descreveram os potenciais terapêuticos dessa planta há cerca de 2.000 anos.

A aplicação terapêutica de alguns canabinoides é tema bastante controverso porque, apesar de algumas propriedades terapêuticas dos mesmos, esses compostos podem apresentar também efeitos ditos “psicotrópricos”, podendo induzir o abuso, a dependência, efeitos alucinogênicos e alterações cognitivas, principalmente através do consumo crônico.

A obtenção sintética de compostos do tipo canabinoides é uma área de grande interesse entre pesquisadores de todo o mundo. Indústrias e laboratórios farmacêuticos desenvolveram fármacos baseados nas estruturas químicas de canabinoides, mas as dificuldades para impedir seus efeitos “psicotrópicos” têm sido grandes. Uma exceção tem sido o nabilone, uma potente substância canabinoide, que tem apresentado bons resultados como antiemético nos Estados Unidos da América e outros países.

Dois exemplos de fármacos desenvolvidos com base em canabinóides são: o Marinol (Dronabinol) elaborado pelo laboratório Roxane (EUA) e o Cesamet (Nabilone) elaborado pelo laboratório Eli Lilly (EUA). Esses medicamentos têm sido comercializados para o controle da náusea, produzidas durante o tratamento de quimioterapia e como estimulantes do apetite, durante processos de anorexia desenvolvidos em pacientes com AIDS, nos EUA.

Os canabinoides têm efeitos sobre diversos órgãos e sistemas orgânicos, como o imunológico e reprodutivo. No entanto, os principais efeitos farmacológicos têm sido associados ao sistema nervoso central. Pesquisas têm demonstrado a potencial utilidade médica dos canabinoides através dos seus efeitos analgésicos, controle de espasmos musculares em portadores de esclerose m últipla, tratamento do glaucoma, efeito broncodilatador, efeito anticonvulsivante etc. No entanto, apesar desses potenciais efeitos “terapêuticos”, os principais efeitos “colaterais” têm sido: prejuízos da cognição e atenção, sintomas depressivos, efeitos sedativos, alucinogênicos dentre outros.

Dessa forma, não imagine que o cigarro de maconha que muitas pessoas fumam pode ser utilizado com alguma proposta terapêutica, de forma séria, segura e eficaz. Isso não é verdade. O que sabemos é que existem vários compostos do tipo canabinoides que apresentam propriedades terapêuticas, embora também apresentem efeitos colaterais importantes e preocupantes.

Estudos sérios e onerosos estão sendo desenvolvidos ao redor do mundo para estabelecer relações entre a estrutura química de diversos compostos canabinoides e sua atividade sobre o sistema nervoso central e demais sistemas orgânicos. Os efeitos “psicotrópicos”, como os citados acima, impossibilitam o uso de vários compostos com finalidades terapêuticas.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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