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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Não há provas científicas que antidepressivos modifiquem ou “plastifiquem” emoções

Antidepressivos e psicotrópicos não mudam jamais a forma do pensamento...

01 jan, 2016

por Joel Rennó Jr.

A área de psiquiatria já é vista com muitos preconceitos pelas pessoas. A desinformação também é preponderante. Muitos são humilhados e desqualificados quando resolvem, de forma saudável, procurar ajuda psiquiátrica.

Mesmo levando-se em consideração que a imprensa tem boas intenções e objetivos sociais, infelizmente, como profissional da área de psiquiatria, tenho que me deparar com inúmeras matérias, em revistas conceituadas da imprensa leiga (algumas femininas), sem uma consultoria fidedigna dos aspectos científicos envolvidos. Até autores estrangeiros de conhecimento questionável e alarmante são citados. O mesmo se aplica a determinadas religiões, algumas aconselham seus fiéis a largarem os medicamentos.

A sociedade tem a necessidade de conviver, em determinadas circunstâncias, entre dois pólos. Ora, louvam-se os antidepressivos que são considerados verdadeiros bálsamos da alma, ora tais medicamentos são proscritos e considerados produtores de uma felicidade artificial. Difícil é obter o ponto de equilíbrio.

Na Edição recente da Revista Cláudia (Número 7- Ano 46), entre inúmeros exemplos, há uma matéria intitulada: “Coquetel da Felicidade”. Percebi que a intenção dos editores e redatores foi a melhor possível, porém, colheram algumas informações incongruentes e imprecisas.

A matéria começa narrando que uma bióloga tomou antidepressivo sertralina na gestação; depois, o medicamento foi suspenso no pós-parto porque “a criança chorava o dia inteiro” e, 15 dias após, voltou a tomar outro antidepressivo de nome escitalopram por um ano. Descreve-se como anestesiada, que vivia um mundo de mentirinha. “Em vez de lidar com as dificuldades, apelava para os remédios”- foi uma das frases citadas na entrevista inicial da bióloga entrevistada.

Fazendo um breve comentário: não há quaisquer provas científicas de que os antidepressivos modifiquem ou “plastifiquem” as emoções ou os comportamentos das pessoas. Isso é lenda, algo mitológico, sem consistência. É claro que tais medicamentos devem ser prescritos por psiquiatras, após uma rigorosa avaliação psicopatológica do paciente. Medicamento só para transtornos mentais diagnosticados pelo especialista. É óbvio para todos que as técnicas de psicoterapia são essenciais também para a completa recuperação dos pacientes, assim como práticas esportivas e técnicas de meditação ou relaxamento complementares.

Venho aqui esclarecer aspectos médicos pertinentes para que as pessoas que tomam tais medicamentos não fiquem mais estigmatizadas ainda. Sentem-se muito culpadas, sofrem caladas; é um absurdo atribuir um conceito errôneo e despropositado como esse - apesar, é claro, das boas intenções não apenas desta matéria como em tantas outras que tenho a oportunidade de acompanhar na imprensa leiga.

Depressão tem base neurobiológica estabelecida

A depressão tem base neurobiológica estabelecida. É do conhecimento técnico que há “gatilhos” ou estressores psicossociais significativos. Os filósofos, com todo o respeito, devem ficar distantes de aspectos envolvendo medicina. Não se trata de usar medicamentos para lidar com questões existenciais. Ter depressão, quando esta é diagnosticada de forma correta pelo especialista, não é optar por um enfrentamento ou não de conflitos ou dores. Justificar o elevado nível de utilização de tais medicamentos apenas por uma busca desenfreada de felicidade a qualquer custo também é outro grande equívoco.

Muitos pacientes que utilizam tais medicamentos o fazem por conta própria, sem avaliação médica. Muitos médicos não especialistas ou generalistas prescrevem tais medicamentos para uma miscelânia de quadros clínicos. Raramente, um obeso não sai de uma clínica de emagrecimento com a prescrição de antidepressivo ou ansiolítico. Alguns profissionais até cometem o erro de diagnosticar depressão por escalas de avaliação. Há algumas grandes e famosas academias de ginástica ou clínicas de estética que “arranjam” para certos clientes “vips” drogas como antidepressivos e anfetaminas de forma abusiva. A própria Internet é um meio de muita promiscuidade para obtenção de tais medicamentos. É só pesquisarem!

Na Rede Pública de Saúde, por exemplo, faltam especialistas gabaritados para diagnosticarem e prescreverem psicotrópicos. A política atual de Saúde Mental tem vários pontos falhos e precários, apesar dos esforços. As pessoas humildes raramente conseguem agendar consultas com psiquiatras nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).

Portanto, a questão é complexa e multifatorial. O aumento indiscriminado de antidepressivos e outros psicotrópicos possui diferentes variáveis. Eles são importantíssimos e úteis quando bem indicados e administrados. É claro, como quaisquer outros medicamentos, que possuem efeitos colaterais e riscos. Porém, não mudam jamais a forma do pensamento, o sentimento, o relacionamento ou o comportamento dos pacientes.

Depressão, pelos estudos recentes, é uma doença neurodegenerativa e heterogênea, com diferentes subtipos e níveis de gravidade. Quem pensar o contrário que me prove com pesquisas científicas sérias. Envolve a participação e responsabilidade dos diversos espectros sociais. Livros de autoajuda têm um poder limitadíssimo no potencial de ajuda dos pacientes que realmente têm um quadro psiquiátrico de depressão maior moderada ou grave. Niguém troca de “autoestima” como quem “troca de roupa” como alguns querem nos fazer acreditar. É um processo lento e gradual, que envolvem mudanças nos diversos níveis - individual, social e familiar. Falar em cura por mudanças simplistas e concretas de atitudes e pensamentos, como se tudo dependesse de “vontade”, “perseverança”, “pensamento positivo” e “fé” não ajuda no alívio da dor de milhões de pacientes que sofrem calados e temerosos de serem rotulados pejorativamente. Muito pelo contrário. Não podemos ignorar a verdadeira ciência.


Dr. Joel Rennó Jr. MD, Ph.D. Professor do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria da USP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein- São Paulo. Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). www.psiquiatriadamulher.com.br

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