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Comportamento

Família

Só teremos boa ou má estima a partir de nossos vínculos

Precisamos nos deixar ocupar pelo essencial sentido de presença

01 jan, 2016

por Fátima Fontes

“A vida solitária dos indivíduos pode ser alegre, e é provavelmente atarefada – mas também tende a ser arriscada e assustadora. Num mundo assim, não restam muitos fundamentos sobre os quais os indivíduos em luta possam construir suas esperanças de resgate e a que possam recorrer em caso de fracasso pessoal. Os vínculos humanos são confortavelmente frouxos, mas, por isso mesmo, terrivelmente precários, e é tão difícil praticar a solidariedade quanto compreender seus benefícios, e mais ainda suas virtudes morais”
(Zygmunt Bauman, no livro Tempos Líquidos, 2007, p.30).
 

Continuamos nossas conversas sobre os desafios relacionais vividos em nossos tempos de *realidade líquida, como descreve tão bem nosso tempo, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

Tempos em que nos sentimos terrivelmente inseguros, céticos e desesperançados, apesar de todo nosso progresso tecnológico interacional. E neste nosso texto, gostaria de acender nossas esperanças pela arte, mais especificamente inspirada na intervenção urbana do artista plástico britânico Antony Gormley intitulada: Corpos Presentes que inunda a cidade de São Paulo, até 15 de julho com 31 esculturas de figuras humanas em tamanho real posicionadas no entorno do CCBB, no topo de prédios e calçadas, modificando assim o horizonte dessa cidade; grande metrópole que também é cenário nacional e internacional de tempos líquidos. Esse artista usa sua própria existência como modelo, transformando sua experiência subjetiva em campo de experiência para o coletivo.

Precisamos ver com a pele e mensurar com os olhos…

Esta é uma das provocações feitas pelo curador dessa exposição, Marcello Dantas para que se possa apreender a riqueza do trabalho de Antony Gormley e passa a ser também elemento de nossa reflexão.

Será preciso muito esforço para nadarmos contra nossa atual direção relacional: temos fugido dos contatos presenciais, supervalorizado as postagens de nossos corpos sorridentes, emagrecidos e sem falhas por ferramentas eletrônicas como Instragam e outras em redes sociais virtuais.

Nessa outra direção, somos convocados a nos encontrar presencialmente, a nos abraçar, a utilizar nossos bons encontros para nos tornarmos mais humanos e mais capazes de perceber as possibilidades e armadilhas de nossos cotidiano.

De igual forma, somos convidados, a partir de nossos vínculos fortalecidos, a mensurarmos com os olhos, ah! Aí, vai ser mais complicado: temos vivido olhando para nosso próprio umbigo, nossos mundinhos pessoais e nada mais. Mensurar com os olhos pode ser muito perigoso, uma vez que nos fará olhar e ver nossos concidadãos; sobretudo os que trafegam a pé em nossa cidade e nos mostram suas agonias: em seu ritmo acelerado de andar; em suas conversas solitárias; em seu esquecimento do que os cerca a partir do uso de seus inseparáveis fones de ouvido; em seu sono sombrio em alguns espaços públicos; como praças e viadutos, até que a polícia ou servidores da limpeza social os recolha, para longe de nossos olhos incomodados.

Tendo olhos para mensurar a dor humana que nos cerca, seremos também capazes de sermos mais solidários e também privilegiados por presenciarmos pequenas solidariedades, como a que brota de alguém que por um instante para e conversa com alguém que chora em cima de um viaduto…

Numa reportagem televisiva sobre essa intervenção urbana do Antony Gormley, os entrevistados em várias situações falavam da preocupação que tiveram pensando que alguém ia se jogar do edifício, ao mirar as esculturas colocadas em cumes de prédios. Portanto, se abrirmos nossos olhos, veremos muita coisa que precisamos e devemos ver.

Precisamos nos deixar ocupar pelo essencial sentido de presença

Essa foi a segunda provocação feita pelo curador da exposição de que estamos falando e que também utilizaremos aqui. Estamos atualmente, em nosso viver solitário e líquido negando algo que se levado a extremos, leva à negação de nossa própria existência: somos corpos interatuando com outros corpos.
A presença do outro é o que nos torna quem nós somos, foi ao pronunciarem nosso nome repetidamente e de nossas necessidades cuidarem, que nós nascemos social e afetivamente. Precisaremos recordar esses dois fatos urgentemente para fortalecermos nossos egos e relações.

Muito me incomoda e luto por desfazer o equívoco conceitual da socialmente afirmada e vendida noção de autoestima; penso que existencialmente ela é um equívoco: só teremos uma boa ou má estima de nós mesmos a partir dos nossos vínculos. A presença do outro, seu sorriso, sua crítica, sua ironia, sua indiferença, seu afeto positivo ou negativo nos matrizam a todo momento e nos confirmam ou desqualificam no mundo.

Por isso, tanto me aborrece a falsa estimulação retórica: olhe no espelho e diga você é bacana, você é especial, seja mais você, isso é um exercício narcísico primário, que tivemos que fazer por volta dos oito meses de idade quando nos descobrimos refletidos num espelho, depois desse período, ou o outro me espelha, ou não sei quem sou, muito menos quanto valho.

Vivemos presos a dois espelhos atualmente: ao espelho de narciso, que no mito de Narciso o levou a morrer afogado, pois apaixonado por sua própria imagem refletida nas águas de um rio, saiu em busca dessa imagem e morreu. Assim, como, temos nos mantido cativos do espelho da madrasta, personagem que nos Contos de Fadas, vivia perguntando obsessivamente quem era mais bonita do que ela.

E no que temos nos tornado nessas duas situações? Temos perdido nossa própria dimensão e sentido de presença e de existência, bem como passamos a desconhecer quem é o outro com quem existimos.

E agora José? José para onde?

Considerações finais

Não queremos, absolutamente deixarmos uma sensação final de desesperança, mas sem dúvida de que acreditamos sim em saídas, mas em saídas críticas e não em inconsequentes rotas de fugas.

E como colocamos nesse trecho da canção utilizada para essa parte do texto, a saída está em estar com o José, em dialogar com ele, em sentir a sua presença e ser por ele sentido, só aí conjugaremos o perigoso pronome: o “nós”, única condição de transformação afetiva, relacional e social.

* Realidade líquida: É essa atual realidade em que vivemos, onde os laços relacionais se afrouxaram e temos um convite incessante a descatar nossas relações, além disso o sistema de referências pessoais para uma boa prática relacional se perdeu e as virtudes humanas, sobretudo a da solidariedade, já não encontra mais espaço nas relações, gerando assim uma sensação de profunda solidão e insegurança nos indivíduos.

E por fim, quero utilizar uma canção que pode nos ser inspiradora nessa caminhada com o outro:

Nunca Pare de Sonhar
Gonzaguinha

Ontem um menino que brincava me falou
Hoje é semente do amanhã
Para não ter medo que este tempo vai passar
Não se desespere e nem pare de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá
Nós podemos tudo, nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será


Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008

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