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Comportamento

Relacionamentos

Se o outro é meu inferno, também sou o inferno dele

O perdoar como caminho para melhor compreender o outro

01 jan, 2016

por Fátima Fontes

Introdução

"A ética complexa é inevitavelmente modesta. Ordena que sejamos exigentes conosco e tenhamos indulgência, melhor, compreensão pelos outros".

Edgar Morin, livro: O Método 6 - Ética. Porto Alegre: Editora Sulinas, 2005, pág.196)

Em mais esse encontro reflexivo sobre nós e nossos vínculos, resolvo falar sobre a busca por um melhor caminho para nos ajudar na desafiadora tarefa de caminharmos de maneira mais funcional possível uns com os outros.

Elegi como bússola para a reflexão, a proposta de Edgar Morin, grande e sensível humanista e sociólogo francês, para um viver mais ético entre os homens que aponta para dois grandes eixos, como lemos na epígrafe acima: a autoexigência e a busca por melhor compreendermos o outro. Como um modo de operar essa busca: propus o perdoar, verbo difícil de ser conjugado nas relações humanas.

Autoexigência: o fim da questão: "a culpa é sempre do outro"

Pensar em nossas inter-relações é quase sinônimo de "falarmos mal do outro", que é nosso inferno, já dizia Jean Paul Sartre, filósofo francês. E em vários textos anteriores (veja aqui) venho insistindo na condição reflexiva para superarmos esse "aleijão relacional". Afinal, somos seres complementares, então se o outro é meu inferno, seguramente também sou o inferno do outro.

Partindo dessa premissa, precisaremos recuar em nossa ética de justiça em prol de uma ética do cuidado, onde nosso alvo não é julgar e condenar o outro e seus erros, em busca de se fazer o certo (ética da justiça), mas em cuidar de nós e do outro, na busca pelo certo (ética do cuidado).

Essa nova atitude diminuirá nossa arrogância condenatória e nos aproximará mais da nossa humanidade, limitada e falha, apesar de nossas melhores intenções em sermos corretos.

Quanta dor será economizada, sobretudo em nossos laços familiares e vínculos de intimidade, afinal, parece que nos relacionamos em intimidade, soerguendo uma arma com mira sobre o comportamento do outro e "qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d'água... ".

Também precisaremos ter cuidado para não colocarmos esta mesma arma sobre nós mesmos, nos condenando a um padrão de neurose pela perfeição, mas o que proponho para ser pensado, é a nossa participação ativa em tudo o que vivemos. E assim nos tornaremos mais críticos de nós mesmos e capazes de nos redesenharmos.

Mas esse redesenho precisará ser um exercício de vida inteira, a despeito de resultados imediatos, e isso em termos de realidade social onde temos pressa e queremos resultados imediatos para tudo, soa como uma proposta revolucionária, pois ela subverte a ordem social vigente de que "não há tempo a perder", menos ainda para nossas mudanças e seus resultados a longo prazo.

A condição autoavaliadora precisa ser feita a cada dia, com indagações como:

- Como foi meu viver hoje?

- O que desejo construir?

- O que percebo ser necessário mudar, melhorar em mim?

- Qual o sentido de minha vida?

- Que sonhos abandonei?

- Estou disposto (a) a fazer sacrifícios para atingir minhas metas?

E outras indagações, afinal: perguntar é o grande início do autoexame e de importantes descobertas na vida. Uma boa dica: aproveite seu momento de tráfego congestionado, fila de banco, pontos de ônibus, metrô, tempo para chegarmos em casa, etc. Viver e se melhorar é uma tarefa muito exigente e nos obriga a fazer escolhas novas e naturalmente a manejar as perdas e as frustrações que se seguem.

O perdoar como caminho para melhor compreender o outro

Bem, com o pé na estrada do 'conhecer-te a ti mesmo', podemos rumar para a grande avenida do encontro com o outro. Afina,l o exercício crítico reflexivo muito nos ajudará a perder a ingenuidade de que somos perfeitos e queremos nos relacionar com pessoas perfeitas.

Nessa grande avenida do encontro relacional seremos desafiados em nosso cotidiano, sobretudo pelos vínculos relacionais de intimidade, a "suportar as cargas uns dos outros", como um exercício obrigatório para nos relacionar.

Outra vez apareceu uma proposta na contramão do pensamento dominante, senão vejamos as grandes chamadas para se viver e se relacionar nos tempos líquidos da contemporaneidade: "viva para si mesmo, seja mais você, o importante é estar muito bem, aproveite o melhor dos vínculos e os descarte quando incomodar, afinal há mais oferta que procura, entre outras pautas", nesse contexto a provocação para buscar melhor compreender o outro pode também ser considerada subversiva.

Aceitando o convite a esse segundo exercício, esbarraremos inicialmente em nossa camada pessoal de rigidez. Parece que a primeira etapa de nosso desenvolvimento psíquico deixa uma marca indelével de rigidez e onipotência para nossos relacionamentos: é que carregamos todos, sem exceção, o momento de "onipotência infantil", no qual chorávamos e nos alimentavam, chorávamos e nos trocavam, alimentavam, abraçavam, enfim... cuidavam imediatamente de nossos desconfortos, talvez também motivados pelo fato de nossos cuidadores ou guardiães se sentirem incomodados com a "sirene da insatisfação infantil"

Como todos crescemos, e não há como escapar desta exigência do viver na realidade, parece que pode surgir a tal barreira entre nós e os outros, pois tendemos a exigir seja porque fomos atendidos em nossas necessidades primeiras, ou não, que o outro atenda a todos os nossos desejos e reivindicações, havendo um permanente júri armado para vigiar, julgar e punir todos os que nos desagradarem.

Essa conduta julgadora e condenatória do outro enche o mundo das relações humanas de queixas, críticas, falações, difamações e outras sombras humanas. Mais difícil ainda é a autoexigência imposta pelo crescimento pessoal e relacional que impõe o dever de primeiro nos melhoramos para poder complementar positivamente o outro.

Quando aceitamos esse desafio e crescemos em nossa percepção das múltiplas realidades que nos cercam e suas complexas tramas, seremos capazes de nos flexibilizar e aprender a ponderar sobre os laços relacionais. Tornando-nos capazes de estabelecer novas e melhores fronteiras relacionais, por exemplo, descobriremos que os vínculos se transformam e que em algumas relações é preciso suportar o crescimento do outro e as novas regras de relação, ou ficaremos com as eternas lamúrias: "Ah, você não era assim, quando você era menor me abraçava, agora só dá patada... Ah! Quando te conheci você era mais legal, mais dócil, mais disponível, etc.".

Entro então com minha proposta de aprendermos a conjugar o verbo perdoar: precisaríamos aprender a perdoar o outro que se transforma, que muda e que não é o queríamos que ele fosse. Mas esse exercício exige um complementar: também precisaremos que o outro com quem nos relacionamos desenvolva essas mesmas habilidades, só assim completaremos o novo ciclo de rotas para redesenhar e melhor compreendermos uns aos outros.

E para terminar: o canto do perdão

Precisaremos nos separar desta reflexão, como na vida, todo encontro é marcado pela chegada e partida, somos todos passageiros numa plataforma do viver. E se carregamos a certeza dos fins, fica o reforço para nos comprometermos a cuidar melhor de nós e de nossos vínculos.

Mais uma vez concluirei, propondo uma licença poética e deixo essa linda e profunda canção de nosso rico repertório de canções brasileiras, suavemente, interpretada por nossa eterna pimentinha Elis Regina e que nos convida a refletir sobre as dores de quem ama, e eu a parafraseio: as dores e sabores de quem se relaciona, e nela aparecerão ingredientes que talvez nos ajudem a melhorar nossos vínculos, como nesse trecho da canção: Mas a vida ensina a crer e a perdoar quando o amor valer ..., tomara que descubramos quão valiosos são nossos laços relacionais.

Samba do Perdão

Compositor: Baden Powell/Paulo César Pinheiro.

Mais uma vez, amor
A dor chegou sem me dizer
Agora que existe a paixão
A hora não é de sofrer
Mas quem quer pedir perdão
Não deixa a tristeza saber
E, no entanto a tua falta
Invada meu coração

Mas a vida ensina a crer e a perdoar
Quando o amor valer e o nosso
É tão grande que eu já nem sei
Tenha pena das penas que eu já penei

Não desprezas mais
O meu padecer
Afasta a melancolia, a solidão
Já não cabe mais no meu violão

Tanta mágoa assim
Que eu vou morrer
Soluço eterno, pedir no coração
Só quem morre de amor, pede perdão.


Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008

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