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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Por que a psicoterapia e a psiquiatria devem se integrar

Muitas publicações tentam passar receitas de qualidade de vida, simplificando problemas

01 jan, 2016

por Joel Rennó Jr.

A divisão entre mente e corpo até recentemente, era bastante retrógrada e geradora de conflitos e angústias, para profissionais e leigos. Na prática médica diária, observo que muitos pacientes ainda se confundem com os limites tênues existentes entre as questões somáticas e mentais.

Muitos colegas psiquiatras ainda resistem em encaminhar seus pacientes ao psicólogo, e vice-versa, o que é muito destrutivo para a ação terapêutica holística que esses quadros requerem.

Ouvimos, repetidamente, pessoas que se dizem saturadas, confusas e exaustas frente às opressivas exigências, aos papéis que mudam e à pressão sem precedentes do novo tempo.

Durante vários anos, os terapeutas preocuparam-se, sobretudo, com as relações interpessoais dos casais. Um conjunto de técnicas e modelos terapêuticos melhorou o diálogo e a qualidade dos relacionamentos.

Nos dias de hoje, a psiquiatria e a psicoterapia enfrentam novos desafios, assuntos complexos e inquietantes tornaram muitos dos antigos modelos e técnicas obsoletos. Agora, as pessoas têm que caminhar num terreno desconhecido e no qual antigos papéis, valores e tradições perderam sua aplicação.

Uma nova visão de mundo se torna necessária devido a questões como: relacionamento virtual, casamento a longa distância, adoção de crianças por casais homossexuais, engenharia genética, violência contra a mulher, aspectos psicológicos das doenças ginecológicas, dependência de drogas, estresse, infertilidade e quadros de senilidade devido à longevidade.

Conceitos sociais que mudam rapidamente, requerem novos posicionamentos livres de preconceitos, no que concerne a uniões, reproduções, amor, profissão... Na prática isto é extremamente difícil. Requer determinação, paciência e flexibilidade na busca de uma mudança global do psiquismo.

Estamos precisando reconsiderar o que é normal ou anormal, natural ou não natural. A questão da psicoterapia não é tão somente metodológica, mas ideológica, assim como a questão em psiquiatria não é somente medicamentosa, mas contextual.

Uma diversidade de publicações tentam passar receitas de qualidade de vida, simplificando problemas. Se a felicidade fosse fácil de ser alcançada, objetivamente, por que assistimos ao crescente aumento dos distúrbios mentais, entre eles a Síndrome do Pânico e a depressão?

Ao ignorarem as questões sociais que estão acontecendo, essas publicações parecem tornar imutáveis as diferenças entre gêneros, culturas, crenças e valores. Se partimos desse pressuposto, a única terapia possível seria a predisposição genética dos parceiros.

Para que os profissionais da área de saúde acompanhem as pessoas, atualmente, é necessário que as ajudem a olhar além de seus mundos particulares, ou seja, para as forças sociais externas que atualmente estão determinando o seu mundo.

As revoluções acontecem na biologia, na tecnologia e na genética, levando a mudanças dos princípios da própria natureza e do foco da terapia. O próprio ciclo de vida já não é mais o mesmo. As drogas que alteram o humor, a tecnologia da reprodução e a comunicação eletrônica, dão um novo significado ao nascimento, crescimento, envelhecimento, casamento...

Existe um limite para o comprometimento? Como é possível competir com as fantasias virtuais? Casais de homossexuais enfrentam questões complicadas. Quais são as regras, as obrigações e as responsabilidades em relação à paternidade? Em caso de separação, quem tem direito à custódia? O filho pode levar a namorada para dormir em casa? Liberamos ou não a maconha? Esses novos paradigmas são apenas a ponta do iceberg. Porém, a discussão é ampla, profunda e gera polêmicas construtivas.

As respostas a estas perguntas requerem um julgamento de valor, uma reordenação de nossas ideias. Por um lado, essas mudanças dão as pessoas maior liberdade, opção e possibilidades para desenvolver meios de estarem juntas da maneira que desejarem. Por outro, podem facilmente desorientá-las, propiciando novos tipos de preconceitos.

Psicoterapia e psiquiatria

Psicoterapia (psicologia): visa dar um suporte afetivo-emocional, reorganizando e resignificando as histórias de vida, os pensamentos e os sentimentos das pessoas. É um trabalho eminentemente psicológico. Pode ser realizada por psicólogo ou psiquiatra, desde que especilizados em algumas das linhas existentes (psicanálise, psicologia analítica, psicodrama, cognitiva-comportamental, interpessoal, existencialista, sistêmica, entre outras).

Psiquiatria: representa o entrelaçamento entre o aspecto biológico dos distúrbios mentais e a origem psicológica e social (psicossocial) de tais distúrbios. É uma ciência exclusivamente médica. Hoje, sabemos que vários transtornos mentais (depressão, síndrome do pânico, alcoolismo e esquizofrenia) têm uma base biológica. Substâncias químicas que conectam os neurônios, como a serotonina e a dopamina, e os aspectos psicossociais servem como "gatilhos" para os distúrbios mentais.

Atenção!

Esse texto e esta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracterizam como sendo um atendimento. Dúvidas e perguntas sobre receitas e dosagens de medicamentos deverão ser feitas diretamente ao seu médico psiquiatra. Evite a automedicação.

 

 


Dr. Joel Rennó Jr. MD, Ph.D. Professor do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria da USP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein- São Paulo. Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). www.psiquiatriadamulher.com.br

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