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Autoconhecimento

Psicologia

Entrevista Carl Gustav Jung: um ser que sai da névoa

Proposta de Jung: sair da névoa que confunde e impede um olhar verdadeiro sobre quem somos

01 jan, 2016

por Aurea Afonso Caetano

Fui convidada pelo editor do Vya Estelar para escrever uma resenha sobre uma entrevista concedida pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) legendada em português. Bem... vamos a ela e assistam ao video após a leitura.

Resenha

"Face to face" foi uma série de entrevistas realizadas entre 1959 e 1962 pela BBC com várias personalidades da época. Esta entrevista com Jung foi a única da série realizada fora do estúdio. Jung aos 84 anos recebe o entrevistador e sua equipe em sua casa em Bollinghen, em 22 de outubro de 1959. A repercussão da entrevista foi tão grande que Jung e seus colaboradores decidiram escrever um livro, "O homem e seus Símbolos", apresentando as ideias da Psicologia Analítica ao público leigo. A observar a quantidade de sites e versões deste e outros vídeos em que Jung aparece, podemos perceber o imenso interesse que ele e a Psicologia Analítica continuam despertando.

Fascinante, a entrevista mostra um homem lúcido e com uma mente vivaz apesar da fragilidade de seus 84 anos. Única pergunta que nega responder é aquela a respeito do que diziam os sonhos de Freud, mostrando o cuidado ético que tinha com todas as pessoas, mesmo após a morte delas.

O entrevistador dirige a entrevista passando pelas questões mais importante da trajetória de Jung.

O ponto de partida, depois da fala a respeito dos netos e bisnetos, é o momento em que Jung se percebe como um indivíduo, um ser que sai da névoa e é. Jung tinha 11 anos e diz "eu sou o que sou!". Imediatamente a partir dessa constatação e a cada nova descoberta, ou afirmação, em um processo dialético, começavam as indagações. Se sou agora, o que era antes?

Se perceber como destacado dos pais e mais perceber o pai como alguém falível é parte dessa tomada de consciência. Enquanto estava na névoa, Jung era parte do grupo familiar, indiscriminado; no momento em que sai dela e diz eu sou, o outro passa a ser também o outro.

Nesse momento, discutindo as bases religiosas de sua família, o entrevistador faz a já célebre pergunta a Jung: "O senhor acredita em Deus?" Ele responde: não preciso acreditar, eu sei.

Veremos ao final da entrevista, que isso define a forma como Jung lida com toda e qualquer questão - acreditar não existe para ele, precisa de razões, não pode simplesmente aceitar algo sem ter comprovações. Jung afirma aqui uma postura racional e científica diante das questões da vida. Quando há razões suficientes para uma determinada hipótese, então ele a aceita de forma natural.

Voltando à questão da escolha profissional, percebemos novamente um exercício de identidade no momento em que Jung, a despeito da facilidade do caminho já delineado, decide mudar o rumo a partir de um "chamamento". Aqui, como em suas memórias ele assinala quanto a escolha pela psiquiatria dava conta de seus dois maiores interesses: a ciência natural e as questões históricas e filosóficas. Aí também a maior (ou única) critica que faz a Freud nesta entrevista: ele tinha uma abordagem muito pessoal e uma negligência em relação aos aspectos históricos do homem.

Jung e o inconsciente coletivo

Jung afirma, então, de forma categórica: somos moldados pela educação e através da influência dos pais, dependemos de nossa história. "Não somos de hoje ou de ontem, mas de uma era imensa". Conta a partir daí que percebeu a existência do que chama "inconsciente coletivo" a partir do trabalho e observação com pacientes esquizofrênicos. Ao observar que pacientes negros americanos, internados em uma clínica psiquiátrica em Washington, tinham o mesmo tipo de sonhos que pacientes em outras partes do mundo, pressupôs a noção de camadas de inconsciente que seria coletivo, ou seja, comum a todos os homens.

Percebemos aí, mais uma vez, a forma de trabalho de Jung: a partir do levantamento de uma determinada hipótese, ele se propunha a conferi-la e ver se fazia ou não sentido, apenas então poderia aceitá-la. Ainda realizando esse mesmo exercício, conta nesta entrevista que escreveu o livro Tipos Psicológicos para fazer jus a Freud e também a Adler, ou seja para dar conta de compreender a existência de outras possibilidades de funcionamento que não a sua. Este me parece um exercício profundo de alteridade: perceber que a minha visão não é a única possível e dar ao olhar do outro o status de realidade também possível.

Epílogo: alienação do homem moderno

A entrevista termina com uma fala absolutamente importante e atual: a alienação do homem moderno e a importância da psicologia para o maior entendimento da natureza humana.

Há uma dissociação coletiva, lembremos a data em que essa entrevista foi realizada, o homem não aguentará sua nulificação e haverá uma reação. Todos procuram sua existência, o homem não pode suportar uma vida sem sentido.

Fica para nós a responsabilidade deste trabalho, precisamos seguir tentando compreender mais e mais a natureza humana, buscando a reafirmação do individual no meio do coletivo. Ou seja, ainda a proposta inicial de Jung - sair da névoa que nos confunde e impede um olhar verdadeiro e descobrir quem somos, levando em conta nossa individualidade e também todas as camadas coletivas de nossa existência.
 


É psicóloga formada pela PUC-SP, trabalha em consultório com atendimento de adolescentes, adultos e casais. Mestranda em Psicologia Clínica na PUC-SP, analista junguiana formada pela SBPA- IAAP (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica).

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