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Desejos transparentes podem fortalecer relações

É importante avaliarmos como temos nos comportado diante das relações

Por Angelina Garcia

Esmeralda fez tudo às escondidas, mas havia chegado a hora de encarar a situação.

- Consegui alugar dois cômodos, dona Fabíola. Não é perto, mas tem condução. Não vou chegar atrasada, não.

- Que história é essa, Esmeralda! Não está contente aqui, por quê?

- Eu adoro a casa da senhora, mas é que estou precisando de um cantinho só meu.

- Não estou entendendo. Ainda por cima vai gastar dinheiro à toa, pagando aluguel.

Dona Fabíola não conseguia entender mesmo. Fora sempre a melhor das patroas. De cada viagem trazia um agrado para Esmeralda; fazia questão de pagar a sua passagem, uma vez por ano, para que visitasse a família lá longe; mantinha seu INSS em dia; respeitava seu descanso de finais de semana e nunca atrasou seu salário. Seu quarto, então, uma beleza: com televisão e tudo. E as crianças gostavam mais dela que da própria mãe; sentia até uma pontinha de ciúmes. Agora ela queria deixar uma casa com tanto conforto para se enfiar em dois cômodos da periferia. Deu-se por ofendida.

É possível entender dona Fabíola, porque ela vê a atitude de Esmeralda do seu lugar de patroa, de onde se sente no direito de definir o que é melhor para a empregada. Trata-se da autoridade de que certas pessoas se acham investidas pela posição que ocupam na relação com outra, seja porque se percebem como mais experientes, têm mais dinheiro, mais conquistas materiais, ou mais conhecimento. Alguns médicos, por exemplo, ficam visivelmente insatisfeitos quando pedimos mais esclarecimentos a respeito de um diagnóstico, ou do medicamento que acabam de prescrever. É como se colocássemos em dúvida a sua capacidade, ou se do lugar de paciente, portanto leigo, pudéssemos tirar pouco proveito de tais informações.

É importante avaliarmos como temos nos comportado diante das relações já postas, como, também, naquelas em construção, de casais, de amigos, de colegas de trabalho, para as quais, muitas vezes, transferimos esse modelo autoritário. Isso pode ocorrer quando nos sentimos inferiores, ou querendo agradar o outro, deixamos que, aos poucos, ele tome as rédeas do nosso querer.

Se não coloco minha necessidade, desde o início de qualquer relacionamento, permito que o outro determine o que é bom para mim, de acordo com os seus valores e, dessa forma, vou me anulando, para depois culpá-lo por não enxergar meus desejos. Se deixo que ele construa sobre mim uma imagem que não corresponde à verdade; destruí-la, de repente, pode mesmo parecer ofensivo.

Por outro lado, há aqueles que fazem questão de manter o poder sobre o outro. É necessário mostrar-lhes que, quando tornamos visíveis nossas vontades, não estamos querendo medir forças. A atitude de Esmeralda, ou do paciente, não desmerece a outra pessoa, porque não diz respeito a ela, mas a si mesmos.

Procurando garantir relações de colaboração mútua, não de dominação, devemos deixar claro o nosso querer, evitando, assim, o desconforto, a mentira, o disfarce, o subterfúgio, ou a ruptura desnecessária.


 


Ângelo Medina é editor-chefe do portal Vya Estelar. É jornalista e ghost writer. Com 30 anos de experiência, iniciou sua carreira na cobertura das eleições à Prefeitura de São Paulo em 1988 (Jornal da Cultura). Trabalhou no Caderno 2 - O Estado de São Paulo, Revista Quatro Rodas (Abril). Colaborou em diversas publicações e foi assessor de imprensa no setor público e privado. Concebeu o site Vya Estelar em 1999. É formado em Comunicação Social pela UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora.

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