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Autoconhecimento

Psicologia

O sentido da maior parte dos sonhos não coincide com as tendências da consciência

01 jan, 2016

por Aurea Afonso Caetano

"De acordo com Jung, o sonho diz respeito, realmente, tanto à saúde como à doença..."

Há relatos do uso curativo dos sonhos desde a Grécia antiga. Epidauro era um centro cultural e espiritual dedicado às artes da cura da personalidade total. Acreditava-se que só havia cura total do corpo em Epidauro quando também se curava a mente; corpo e mente apareciam de forma indissociável e por isso não fazia sentido pensar a cura do corpo sem levar em conta também o funcionamento mental do sujeito que procurava ajuda.

Procurava-se a todo o custo através do "conhece-te a ti mesmo", primeiro mandamento do oráculo de Apolo, que o homem acordasse para sua identidade real. Pensava-se assim que a doença tinha origem na dissociação do sujeito de seu verdadeiro ser. Como primeira providência em busca da cura, os pacientes que chegavam a este famoso e concorrido centro dormiam no chão de terra do Santuário de Epidauro.

No dia seguinte, relatavam seus sonhos aos "médicos" do centro que então tentariam compreender o que deveria ser feito para que aquele paciente conseguisse a cura. Os sonhos que tivessem traziam informações que compreendidas pelos sacerdotes trariam a cura, a receita a ser aviada ou o diagnóstico do problema. Era o que se chamava de mântica por incubação. Um dos cânones do Centro de Epidauro era: "Purifica tua mente e teu corpo estará curado".

De acordo com Jung, o sonho diz respeito, realmente, tanto à saúde como à doença, e, por isso, dada à sua raiz inconsciente, ele extrai elementos de sua composição também no tesouro das percepções subliminares, podendo nos proporcionar dados úteis ao conhecimento. O que quero dizer aqui: o sonho traz elementos importantes ao nosso desenvolvimento. Como o sentido da maior parte dos sonhos não coincide com as tendências da consciência, mas revela divergências singulares, devemos admitir que o insciente, a matriz dos sonhos, tem um funcionamento independente.

Por mais que os sonhos se refiram a uma determinada atitude da consciência do sonhador e a uma situação psíquica particular, suas raízes mergulham profundamente no subsolo obscuro e dificilmente conhecível de onde emergem os fenômenos da consciência. Como o sonho constitui uma expressão extremamente normal e frequente da psique (mente) inconsciente, é ele que nos fornece a maior parte do material empírico para a exploração do inconsciente.

Uma moça, prestes a casar, às voltas com os preparativos para seu casamento tem o seguinte sonho: está chegando a hora de entrar na igreja e, por mais que procure, não consegue encontrar seu vestido de noiva. Todos estão já esperando na igreja e ela não consegue se aprontar. O que vai fazer, como resolver essa questão? Acorda assustada e com muito medo de que tudo dê errado.

Este sonho conta uma estória - há um casamento e não há vestido de noiva; não há um final, o sonho termina sem que se saiba o que vai acontecer. A sonhadora pode compreender o sonho de forma literal e pensar em todas as coisas que estão sendo aprontadas para o casamento, pode entender que precisa cuidar melhor dos preparativos e colocar ainda mais atenção e tensão na organização e planos para o evento. Isto é, pode ficar presa às questões concretas e colocar nelas ainda mais energia.

Ou... ela pode perceber a partir desse sonho suas dúvidas e receios, normais, em relação ao casamento, percebendo a partir do motivo da falta do vestido, sua excessiva atenção aos detalhes externos e o pouca atenção aos motivos que realmente fizeram com que tomasse a decisão de se casar. Estará ela internamente pronta para o casamento? Estará preocupada em demasia com a forma como vai aparecer no evento e pouco ligada a seus sentimentos em relação ao comprometimento que o casamento sugere? Estará pronta para este movimento?

Pode ser muito importante pensar nas motivações e prontidões internas neste momento tão importante. Não se trata de discutir a validade ou não desse casamento, mas poder olhar um pouco mais para dentro de si e se perguntar o que está em jogo neste momento e se vale a pena colocar tanta energia nos preparativos externos. Que noiva é ela afinal e qual a veste simbólica que vai utilizar nessa celebração?

 


É psicóloga formada pela PUC-SP, trabalha em consultório com atendimento de adolescentes, adultos e casais. Mestranda em Psicologia Clínica na PUC-SP, analista junguiana formada pela SBPA- IAAP (Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica).

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