imagem de capa

Reveses da comunicação

por Angelina Garcia

Ela mesma pintava os cabelos para fazer economia, mas naquele dia, ao passar em frente ao salão de cabeleireiro percebeu que esquecera de comprar a tintura para cobrir os brancos que insistiam em se mostrar. Num ímpeto, entrou, escolheu a cor e entregou-se ao ritual das mãos hábeis da profissional. Assustou-se com a sensação de prazer ao se oferecer o presente. Alguém fazendo algo para ela. Só se via na situação oposta.

Há quanto tempo não se permitia gastar consigo mesma perdera de vista. Colocava sempre alguma coisa antes, para a casa, para o marido, para as crianças. Acostumara-se ao último lugar na fila de necessidades e nem reconhecia se ainda tinha alguma.

Chegou à sua casa feliz, saboreando a travessura.

- Que demora. Onde você estava?

- Pintando os cabelos.

- Estava jogando dinheiro fora?

Caiu como um jorro de água fria na sua alegria quase infantil. Sentiu-se desvalorizada, menosprezada, um lixo. Se desse vazão ao choro que queria irromper a qualquer custo, Sandra com certeza ficaria mais leve, mas perderia a oportunidade de transformar a mágoa em reflexão.

Não é fácil entendermos que o outro fala, age, de um ponto de vista que não é o meu, portanto não adianta esperar que ele veja o que estou vendo, que sinta o que estou sentindo, que valorize o que eu valorizo. Por mais que dividamos coisas, ele tem o próprio tempo e espaço, suas oscilações de humor, suas inquietações, seu universo particular, enfim.

É evidente que as coincidências garantem momentos bem agradáveis na relação: rir das mesmas coisas, dividir o mesmo prato, perceber as mesmas sutilezas de um filme, por exemplo. Reconhecemos, no entanto, que as diferenças são da mesma forma construtivas, pois nos dão possibilidade de aprender com o outro; discutir, negar, ou aceitar outras formas de pensar e agir.

Sandra percebeu que não deveria se melindrar com a reação do outro, nem desacreditar do seu afeto, fazendo desta reação uma medida de valor. Pode pensar, ainda, que a situação apenas refletia a imagem que ela mesma havia construído. Reconstruí-la era tarefa sua. Procuraria, isto sim, outros motivos de prazer, pequenos que fossem.

Sabemos que ninguém se basta. Todos nós ficamos mais felizes quando confirmados no que temos, ou fazemos de interessante; o que não podemos é depender desta confirmação o tempo todo, pois além de enfadonho para quem convive conosco, ele se sentiria desconfortável em pensar o que pensa e perderia a espontaneidade. Cada um de nós deve se responsabilizar pelo próprio prazer.

Agora, se nunca somos confirmados por alguém que escolhemos, ou nos foi dado dividir o cotidiano, é hora de lhe apresentar tal delicadeza.


Ângelo Medina é editor-chefe do portal Vya Estelar. É jornalista e ghost writer. Com 30 anos de experiência, iniciou sua carreira na cobertura das eleições à Prefeitura de São Paulo em 1988 (Jornal da Cultura). Trabalhou no Caderno 2 - O Estado de São Paulo, Revista Quatro Rodas (Abril). Colaborou em diversas publicações e foi assessor de imprensa no setor público e privado. Concebeu o site Vya Estelar em 1999. É formado em Comunicação Social pela UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora.

O que você achou do novo Vya Estelar?