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Incoerência faz parte dos processos de transformação

por Angelina Garcia

- De todos os serviços domésticos, o que eu menos aprecio é passar roupa.

- Mas até roupa você passa?

- Quando minha mulher está em casa, a roupa fica para ela, mas quando viaja a trabalho, eu faço tudo.

- Então vira a mulherzinha da casa.

- Mulherzinha, por quê?

- Porque faz o serviço da sua mulher, ora bolas.

A afirmativa de que essa conversa se deu entre dois homens é falsa, pois é exatamente uma mulher quem expõe sua visão machista em relação ao colega de trabalho, ao percebê-lo tão à vontade com os afazeres domésticos.

Ao relacionarmos o machismo a ideias e atitudes masculinas, normalmente nos esquecemos da contribuição feminina na sua formação e manutenção, uma vez que nossa percepção histórica nos leva a colocar quase sempre a mulher como vítima, numa sociedade, que de uma maneira ou de outra, ainda busca privilegiar o masculino.

Por um lado, temos a luta da mulher por direitos antes apenas cedidos aos homens, passando pelo voto, pelas questões sexuais, por cargos e salários e tantos outros, sem contarmos os adjetivos pouco simpáticos, como “solteirona, “separada, “assanhada”, que acompanharam as suas conquistas. Por outro lado, há de se considerar que essa mesma mulher, enquanto se constitui (e é constituída) na sua subjetividade, mesmo que procure resistir, não escapa de (pré)conceitos nos quais está imersa. Ou seja, pode, vez ou outra, flagrar-se reproduzindo aquilo que contesta.

Essa reprodução se dá de várias maneiras, como, por exemplo, no caso do diálogo acima. A colega vê o homem saindo da posição a que está acostumada a enxergar o masculino, para a posição que concebe como do feminino, e desvaloriza o papel que ela própria assume como mulher, chamando-o de “mulherzinha”.

Não param aí as tantas possibilidades de contradição a esse respeito. A mãe critica uma postura machista do marido, enquanto poupa o filho dos trabalhos domésticos e chama a filha para ajudá-la; ou vasculha o comportamento da namorada do filho, apontando indícios que possam denegri-la frente a valores que persistem no senso comum. Não se passa diretamente de uma posição à outra, de machista a não machista - nem homens, nem mulheres -, pois as posições, além de serem construídas ao longo do tempo, são flexíveis, permitindo, portanto, que mesmo defendendo uma, a pessoa apresente comportamentos reconhecidos como de outra.

É possível, sim, percebermos essas contradições para aprendermos a lidar com elas, tomando consciência de que, muitas vezes, a incoerência entre discurso e prática, vontade e realização é parte do processo de transformação individual, porque este não acontece à parte, mas vinculado a outros processos históricos. Essa clareza aumenta as chances de se intervir no processo, permitindo maior controle sobre as formas de reprodução indesejada.


Ângelo Medina é editor-chefe do portal Vya Estelar. É jornalista e ghost writer. Com 30 anos de experiência, iniciou sua carreira na cobertura das eleições à Prefeitura de São Paulo em 1988 (Jornal da Cultura). Trabalhou no Caderno 2 - O Estado de São Paulo, Revista Quatro Rodas (Abril). Colaborou em diversas publicações e foi assessor de imprensa no setor público e privado. Concebeu o site Vya Estelar em 1999. É formado em Comunicação Social pela UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora.

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