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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Como elaborar alimentação para desintoxicação de álcool e cocaína?

Consumo de certas proteínas pode ajudar a lidar com a fissura

23 mar, 2017

por Danilo Baltieri

Resposta: Comumente, desequilíbrios nutricionais envolvendo aminoácidos, gorduras, vitaminas, carboidratos e proteínas podem conduzir a uma substancial quantidade de problemas médicos, como transtornos cognitivos (memória e atenção), problemas cardiovasculares, diabetes dentre outros.

Para muitas pessoas em tratamento para dependências químicas, aprender a respeito de nutrição saudável pode ser instrumentalmente importante durante o processo de recuperação.

De fato, devido às altas calorias das bebidas alcoólicas, o bebedor comumente se sente saciado após consumir uma quantidade considerável de bebidas. E estas calorias “vazias” em termos nutricionais podem deixar o bebedor de longa data em estado de desnutrição.

A cocaína é um poderoso inibidor do apetite e o usuário frequentemente deixa de se alimentar e também acaba por negligenciar seu próprio bem estar físico e psicológico.

O consumo de álcool e de outras substâncias pode prejudicar o funcionamento gastrointestinal. Alguns portadores da dependência podem, então, padecer de problemas digestórios, tais como diarreia, constipação, mal absorção, indigestão e perda do apetite. Muitos nutrientes absorvidos a partir do trato gastrointestinal são subsídios indispensáveis para o funcionamento cerebral, inclusive dos neurotransmissores.

Durante as fases iniciais do processo de tratamento dos portadores de dependência química, os pacientes devem ser orientados a deixar de consumir as chamadas “junk-foods” e passar a alimentar-se adequadamente. Seguramente, educar o portador a alimentar-se bem, evitando alimentos processados, com excesso de doces e de corantes, é uma forma de reeducação, inclusive dentro do conceito do cuidar-se bem.

O consumo correto de alguns tipos de proteínas e aminoácidos pode fazer alguma diferença na habilidade para lidar com a fissura pelas substâncias psicoativas. Outrossim, a carência de alguns aminoácidos, ácido fólico, vitaminas do complexo B podem prejudicar o humor. Contrariamente, açúcar e cafeína podem provocar flutuações do humor, e poderiam então ser evitados nos processos iniciais da recuperação.

Um exemplo sobre o efeito do consumo inadequado de álcool seria o da consequente dificuldade do intestino em absorver os aminoácidos tirosina e triptofano. Estes dois aminoácidos são cruciais na produção dos neurotransmissores dopamina, norepinefrina e serotonina.

É amplamente conhecida a importância da suplementação com vitamina B1 (Tiamina) para os dependentes de álcool, como uma eficaz forma de prevenir síndromes neurológicas relacionadas com o consumo crônico e excessivo de bebidas. Também, outras vitaminas do complexo B, as vitaminas A e C, e o zinco funcionam como antioxidantes e auxiliam na prevenção de processos neurodegenerativos induzidos pelo consumo prolongado de bebidas alcoólicas.

De uma forma bastante geral, recomenda-se uma alimentação:

a) com menos açúcares;
b) com menos carboidratos refinados;
c) com mais proteínas;
d) com mais fibras;
e) com mais gorduras saudáveis, principalmente as ricas em ômega 3;
f) menos alimentos processados;
g) menos cafeína.

De uma forma geral, trata-se de recomendações nutricionais não apenas para aqueles que padecem de dependências químicas, mas também para outras pessoas que pretendem manter um estilo de vida mais saudável.

O tratamento das dependências químicas é bastante complexo e deve ser desempenhado por equipe interdisciplinar.

Medicações são uma importante ferramenta que deve ser utilizada sempre quando adequadamente recomendada. Psicoterapias são formas também importantes de auxílio, desde que desempenhadas por profissionais qualificados na área.

Orientações nutricionais também fazem parte do tratamento, mas, sob nenhum argumento, substituem as demais formas de abordagem. As abordagens se complementam para o melhor desenlace desse grave problema de saúde pública.

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico e não se caracteriza como sendo um atendimento.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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