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Comportamento

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Será que você faz o jogo da culpa?

Reflita sobre o início da mágoa e se você não está jogando sobrecarga de culpa em outra pessoa

por Antonio Carlos Amador

Diego tinha 32 anos quando descobriu que sua esposa Doralice tinha um caso com um colega de trabalho. Até então, sua mulher era tida por ele como um modelo de esposa e mãe. Qual não foi sua surpresa e indignação quando descobriu que ela passara a noite com o amante e perdera a hora de voltar para casa. O choque foi imenso, Diego ficou furioso, imediatamente pediu o divórcio e reivindicou a guarda dos filhos.

Embora elaborasse algumas hipóteses sobre o que estava acontecendo com Doralice, ele não tinha quase nenhuma ideia do que ela estava realmente pensando ou sentindo, porque ela se recusava a falar com Diego. Ele tinha dúvidas se ela realmente não se sentia atraída por ele, ou se simplesmente queria ter uma vida sexual melhor com outro parceiro. Estava inseguro, sem saber se ela tinha sido sempre sincera, ou se agira assim desde o início do relacionamento. Não sabia se ela o amava ou odiava, ou se sequer pensava nele.

Passado um tempo depois do divórcio, quando falava a respeito da ex-mulher, Diego a culpava por tudo o que acontecera, afirmando que ela tentara arruinar sua vida. Dizia que ela tinha medo das relações íntimas e o fazia sofrer intencionalmente. Diego passara a culpá-la por tudo o que ocorrera em sua vida, para explicar a mágoa que carregava consigo.

Como começa a mágoa?

A mágoa começa quando acontece algo que nos faz sofrer de alguma forma e continua durante o tempo em que ocupamos um espaço muito grande na mente para o sofrimento. Ela se torna possível quando assumimos algo em termos exclusivamente pessoais e perdemos a perspectiva de toda a situação, do quadro completo.  Por exemplo, uma pessoa pode passar a vida culpando sua mãe por todo o tipo de infortúnio. É claro que ela pode ter tido problemas legítimos e que a mãe pode ter contribuído, mas essa não é a questão central. Mas sim a carga exagerada de responsabilidade atribuída à mãe. Foi o que aconteceu com Diego em relação à  Doralice.

Quando algo acontece nos fazendo sofrer e nos perguntamos de quem é a culpa, para teimar em seguida que a razão do sofrimento reside em alguma outra pessoa, estamos fazendo o jogo da culpa; isto é, estamos culpando, acusando ou responsabilizando alguém pelos nossos infortúnios. Isto é um problema, porque passamos a situar a causa do sofrimento fora de nós e tendemos a olhar para fora em busca da solução de problemas que só nós enfrentamos.  Somos incapazes de perceber que não importa o que aconteceu no passado, é no presente que somos responsáveis por nossas escolhas na vida. A culpa é uma das hipóteses que podemos formular a respeito do motivo pelo qual nos sentimos mal.

Quando nos magoamos no passado e ainda sentimos a dor no presente, procuramos os motivos para explicar nossa dor. Geralmente, escolhemos a hipótese relativa à culpa. Essa hipótese é uma suposição que damos como resposta a uma questão quando a resposta não é clara. Isso porque em questões emocionais não existem respostas precisas. Nós nunca conseguimos saber exatamente porque a outra pessoa agiu com tanta crueldade, nunca conhecemos os pensamentos de uma outra pessoa e não ficamos imunes a cada uma das coisas dolorosas que aconteceram para a pessoa que nos magoou. Não sabemos se os atos dessa pessoa tinham a intenção de nos fazer sofrer. Não sabemos que coisas do nosso passado estão realmente nos influenciando hoje em dia. Podemos apenas sentir nosso sofrimento e apresentar uma hipótese quanto ao motivo pelo qual estamos sofrendo.


É psicólogo e psicoterapeuta de adolescentes e adultos. Professor no Departamento de Psicologia do Desenvolvimento da PUC-SP desde 1974, onde ministra disciplinas relacionadas ao desenvolvimento de adolescentes, ao desenvolvimento interpessoal, à psicologia comunitária e da saúde. Atua em consultório particular como psicoterapeuta e hipnoterapeuta, atendendo a adolescentes e adultos.

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