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Saúde e Bem-estar

Saúde e Drogas

Parei de fumar e a vida perdeu o sentido para mim. O que faço?

Clinicamente, sua queixa é bastante comum

17 maio, 2017

por Danilo Baltieri

“Estou sem fumar há 60 dias e tenho sentido muita tristeza e desânimo. Parece que tudo perdeu o sentido para mim. Não quero mais ser fumante, mas também não quero ser uma pessoa triste e desanimada. O que o senhor me aconselha? Uma amiga me indicou a sertralina; ela disse que pode ajudar bastante nesse processo. Obrigada!”

Resposta: Existe uma bem conhecida conexão entre o consumo de cigarros e os sintomas depressivos. Tanto pessoas portadoras de sintomas depressivos acabam por fumar mais, quanto pessoas que cessam o consumo de cigarros tendem a apresentar sintomas depressivos.

De fato, estima-se que a prevalência da dependência de nicotina entre pessoas portadoras de transtorno depressivo varie entre 50 e 60%. Além disso, fumantes depressivos demonstram mais dificuldade para cessar o consumo do tabaco do aqueles não depressivos.

A simples parada no consumo de cigarros pode induzir rapidamente sintomas depressivos, principalmente entre pessoas já portadoras do quadro anteriormente ao início do uso de cigarros. Evidências existem de que o consumo de cigarros, o maior grau de dependência de nicotina e o maior tempo de consumo possam precipitar significativamente sintomas relacionados aos transtornos depressivos.

Clinicamente, a sua queixa é bastante comum. Muitas pessoas queixam-se de sintomas como falta de ânimo, labilidade emocional, falta de energia, dentre outros, quando cessam o uso de cigarros.

Dada a ocorrência conjunta de dependência de nicotina e sintomas depressivos, o fato de que o consumo de cigarros geralmente se inicia precocemente na vida do fumante e que a nicotina pode induzir alterações do humor e ansiedade, é crucial que aqueles que desejem cessar o consumo de cigarros estejam preparados e dispostos para enfrentar uma batalha.

Existem medicações comprovadamente eficazes para o tratamento da dependência de nicotina que podem auxiliar o portador da síndrome de dependência de nicotina a deixar de fumar.

Sintomas da síndrome de abstinência

Didaticamente, quando o dependente de nicotina tenta cessar o consumo do cigarro, certamente mostrará sintomas típicos da síndrome de abstinência, caracterizados, principalmente, por:

1) Humor deprimido ou irritável;
2) Insônia;
3) Sensação de raiva e frustração;
4) Ansiedade;
5) Dificuldade para concentração;
6) Inquietação;
7) Redução da frequência cardíaca;
8) Aumento do apetite e ganho de peso

Apesar da meia-vida curta da substância nicotina, os sintomas de abstinência podem durar bastante tempo, variando de semanas a meses. Ademais, entre os dependentes, a duração e a característica dos sintomas podem variar bastante.

Além da satisfação conseguida através do fumo e de evitar os sintomas da síndrome de abstinência através do uso, existem outros fatores que dificultam a cessação do consumo de cigarros. Essa substância exerce efeitos na modulação do humor, redução do estresse, redução da dor, controle do peso e melhora cognitiva. Dessa forma, o tratamento para deixar de fumar pode ser mais difícil entre pacientes com outros transtornos psiquiátricos (como depressão e ansiedade), preocupados com o ganho de peso e com quadros crônicos de dor.

Apesar de vários tratamentos propostos, ainda muitos dependentes de nicotina continuamente demonstram significativa dificuldade para cessar o consumo dessa substância, mesmo quando submetidos a tratamentos que integram a abordagem com medicações e psicoterapias.

Existem algumas propostas farmacológicas comprovadamente eficazes para o tratamento da síndrome de dependência de nicotina. Evite sempre a automedicação e procure auxílio de especialistas médicos na matéria.

Aproveito para parabenizar você por esta tentativa e iniciativa. Siga em frente!!!

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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