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Redes sociais seriam o condottiere de nosso tempo?

Monica Aiub 30/01/2018 COMPORTAMENTO
Redes sociais seriam o condottiere de nosso tempo?
Fonte: imagem Pixabay
Para conduzir a existência, é preciso conhecer

por Monica Aiub

Editar o livro O Príncipe Eletrônico: mídia, política e sociedade (FiloCzar, 2016), de Everson Araújo Nauroski, trouxe-me uma série de questionamentos sobre o papel da mídia e das redes sociais na condução da vida em sociedade.

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Neste livro, o autor trabalha alguns elementos do livro O Príncipe, de Maquiavel, em especial o papel do condottiere, ou seja, o líder com poder e capacidade de persuasão, destacando a evolução do papel do condottiere na história.

Revisitar Maquiavel em tempos como o nosso é sempre muito interessante. Sua obra marca os estudos da política a partir da observação da realidade dos modos de vida em sociedade, rompendo com a tradição de abordar a política traçando utopias - tradição esta encontrada em inúmeros autores desde A República, de Platão, até o Renascimento. Se há, em Maquiavel, uma lição fundamental ao governante, e não apenas a ele, esta consiste em conhecer a história e aprender com os erros e acertos dos grandes líderes. Seu texto é recheado de exemplos históricos, sem desconsiderar os fatos, os contextos e as pessoas de sua época.

O conhecimento da história, imprescindível ao governante, não é suficiente. É preciso, além disso, que ele conheça seu povo, compreendendo suas necessidades, seus medos, seus desejos e, consequentemente, tendo elementos para conduzir a população para a realização dos objetivos políticos - no caso proposto por Maquiavel, a reunificação da Itália.

Num segundo momento, Nauroski traz à discussão o pensamento de Antônio Gramsci, que retira da figura de uma pessoa (o príncipe) o papel de condottiere - movimento próprio da Modernidade, colocando-o no partido político, capaz de traduzir a vontade coletiva. Para representá-la, o partido político deve atuar, segundo Gramsci, a partir de uma análise histórica da estrutura social e econômica do país, aprendendo, novamente, com seus sucessos e fracassos.

Já o Príncipe Eletrônico, expressão cunhada por Octávio Ianni, constitui-se a partir da mídia como nosso condottiere. Isso implica em processos de construção de um imaginário da população e em uma atuação direta nos modos de ser, sentir e pensar de um povo.

Se considerarmos a atuação da mídia em processos de manipulação, exercendo, como bem descreve Paulo Henrique Amorim em O quarto poder; considerando que ela é sustentada pela propaganda e toma para si o papel de condottiere, atuando diretamente sobre as massas, não se trata mais de um estudo sobre a história para buscar os acertos e evitar os erros, mas da criação de um imaginário que garanta as formas de dominação existentes.

Nauroski prossegue levantando a hipótese das redes sociais como uma espécie de resistência, ou talvez como um novo condottiere.

Seriam as redes sociais um quinto poder? Seria este poder disperso e auto-organizado, de modo a deslocar os centros de exercício de poder? Ou seria ele apenas um reflexo do exercício de poder do "príncipe eletrônico", ecoando o imaginário construído pela mídia tradicional?

Se o governante, para Maquiavel, deve ter um amplo conhecimento da história e de seu povo, e o mesmo deve ocorrer, segundo Gramsci, com o partido político, para que este represente a vontade coletiva, quem possui este saber nos tempos do "príncipe eletrônico", nos tempos das redes sociais? Como distinguir entre os saberes que constituem uma apropriação da compreensão dos movimentos históricos, políticos e econômicos e dos "saberes" inventados para a construção de um imaginário capaz de conduzir as grandes massas?

Conhecer a nossa história, conhecer o processo de construção da sociedade em que vivemos, da política e da economia que nos regem é fundamental para que possamos nos posicionar, para que não sejamos cegamente conduzidos para uma forma de vida incompatível com nossas necessidades.

Se as redes sociais são o condottiere de nosso tempo, é preciso fazer bom uso delas, não nos permitindo aceitar quaisquer opiniões sem dados, sem conhecer a história, os fatos, o processo de construção da sociedade na qual estamos inseridos. Por outro lado, sabemos que a história também pode ser manipulada, editada, construída. Nossas pesquisas precisam ser mais profundas, nos permitindo uma compreensão mais ampla do que a nós é apresentado, daí a necessidade de conhecer diferentes perspectivas da história.

Reproduzir discursos prontos sem a devida investigação; utilizar falácias de apelo psicológico ou linguístico; guiar nossas vidas na direção de interesses escusos e individuais de alguns, podem ser caminhos equivocados para a construção de nossa vida em sociedade. Se o que nos persuade hoje são as redes sociais, uma inserção mais direta e fundamentada poderia transformar os rumos de nossa sociedade. Para tal, precisaríamos pensar como um grande condottiere no sentido maquiavélico, ou seja, nos objetivos maiores de uma população, e não apenas em nossos interesses individuais.

Referências:
GRAMSCI, A. Maquiavel, a política e o estado moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
NAUROSKI, E. A. O príncipe eletrônico: Mídia, polítia e sociedade. Sã




TAGS :

    filosofia, existência, maquiavel, princípe, redes, sociais

Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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