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Quem é o partilhante no consultório de Filosofia Clínica como o exercício do filosofar?

Monica Aiub 01/02/2018 AUTOCONHECIMENTO
Quem é o partilhante no consultório de Filosofia Clínica como o exercício do filosofar?
Fonte: imagem Pixabay
Não há exigência de um perfil para pensar filosoficamente sobre as questões da vida

Por Monica Aiub

No artigo Filosofia Clínica: Por que filosofar pode ser um exercício? (veja aqui), apontei para a existência de diferentes práticas denominadas Filosofia Clínica em nosso país.

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Um importante elemento que caracteriza o trabalho que desenvolvo no Instituto Interseção, que denomino Filosofia Clínica como o exercício do filosofar, é, em primeiro lugar, o fato de considerar a clínica filosófica como o próprio exercício do filosofar. Daí surge uma questão que é, também, um importante diferencial: Quem é o partilhante?

Denominamos partilhante a pessoa que procura um filósofo clínico para pensar junto com ele, a partir do exercício do filosofar, sobre suas questões. Se a Filosofia Clínica é o exercício do filosofar para tratar as questões cotidianas, como proponho, então é preciso que o partilhante seja filósofo? Ou, ao menos, que tenha conhecimentos em filosofia ou domine a linguagem filosófica? Há uma idade mínima? Um grau de escolaridade mínimo?

Já recebi, em meu consultório, pessoas de diferentes idades – de crianças a idosos; também vieram pessoas com diferentes graus de escolaridade; amantes da filosofia e pessoas que jamais leram um texto filosófico; ávidos leitores e pessoas que não se interessam pela leitura; enfim, não há exigência de um perfil para pensar filosoficamente sobre as questões da vida. Nunca é cedo demais, nem tarde demais para o filosofar, como afirmou Epicuro na Carta sobre a felicidade.

Como afirmei no artigo já citado, o que faço é abordar as questões como abordamos um problema filosófico. Por isso, algumas pessoas pensam que é preciso ser filósofo para ser partilhante nesta proposta.

Se considerarmos filósofo no sentido acadêmico, profissional, sistemático, não: qualquer pessoa pode ser partilhante. Podemos considerar, contudo, o sentido apresentado por Gramsci, nos Cadernos do Cárcere, a partir do qual todos somos filósofos – distinguindo-se, é claro, uma “filosofia espontânea”, que é peculiar a todos, de uma “filosofia profissional e sistemática”. Neste sentido, todo partilhante é capaz de filosofar, o que significa, para Gramsci, ter “a consciência da própria historicidade, da fase de desenvolvimento por ela representada e do fato de que ela está em contradição com outras concepções ou com elementos de outras concepções. A própria concepção do mundo responde a determinados problemas colocados pela realidade, que são bem determinados e 'originais' em sua atualidade”. (GRAMSCI, 1999, p. 95).

Para este autor, todos somos filósofos, mas somente ao termos consciência de nossas concepções, de suas construções históricas, de seu lugar diante de outras concepções de mundo, das consequências de assumi-las como verdadeiras, das relações de tais concepções com os problemas que enfrentamos na realidade, das implicações de vivermos a partir delas e, principalmente, de outras possibilidades existentes para além delas.

Assim, o partilhante, na clínica filosófica, precisa ter esta disposição para compreender quais são as concepções de mundo das quais ele parte, como elas foram construídas historicamente, o que significa assumi-las, a que outras concepções estas se contrapõem, quais as implicações de defender esta ou aquela concepção etc. Ou seja, é preciso disposição para conhecer a si mesmo, a sua história, a realidade na qual está inserido e, principalmente, a fazer uma análise crítica de suas concepções e escolhas, além de estar disposto a corrigi-las ou modificá-las quando se mostrarem equivocadas.

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Para tal, a filosofia propicia instrumentos de investigação, e são estes instrumentos que o filósofo clínico dispõe para partilhar com a pessoa que o procura. Tais instrumentos são apresentados ao partilhante numa linguagem compreensível a ele, relacionados diretamente às questões que ele apresenta. São utilizados para abordá-las, para refletir sobre elas e, em diversos casos, para criar formas para enfrentá-las.

Desta maneira, não é preciso que o partilhante tenha estudado filosofia para que possa exercitar o filosofar, mas é imprescindível que o filósofo clínico tenha uma sólida formação em filosofia, que saiba articular as questões apresentadas pelo partilhante com os conceitos filosóficos, utilizando os instrumentos desenvolvidos no decorrer da História da Filosofia. Quanto ao partilhante, é fundamental que tenha a disposição para o filosofar e, principalmente, a coragem para contribuir na transformação de si e da realidade em que vive, dando sua contribuição para a continuidade dos processos históricos dos quais participa.

Conforme propôs Gramsci, “O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que é realmente, isto é, um 'conhece-te a ti mesmo' como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços acolhidos sem análise crítica. Deve-se fazer, inicialmente, essa análise” (GRAMSCI, 1999, p. 94).
A partir desta análise, apropriando-se deste conhecimento de si e da realidade, é o partilhante quem define o que fazer, como enfrentar suas questões, como se posicionar no mundo, cabendo ao filósofo clínico provocá-lo a pensar nas possíveis consequências de suas escolhas, decisões e ações, não somente para ele, mas para todos os envolvidos direta ou indiretamente na questão, enfim, para o todo social.

Referências:
EPICURO. Carta sobre a felicidade. São Paulo: UNESP, 2002.
GRAMSCI, A. Cadernos do Cárcere. Vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.




TAGS :

    filosofia, clínica, partilhante, paciente

Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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