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Estabelecer vínculos mais tranquilos: meta possível

Fátima Fontes 02/02/2018 PSICOLOGIA
Estabelecer vínculos mais tranquilos: meta possível
Fonte: imagem Pixabay
Às vezes o que nos incomoda no outro nasce da projeção de nossos mal-estares sobre nossos vínculos

Por Fátima Fontes

Introdução

“Eutimia era o título de uma das obras de Demócrito, significava a satisfação tranquila, diferente do prazer, e que consiste na ausência de temores, superstições e emoções”.
(Nicola ABBAGNANO, Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.95).

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Nasceu outro ano, desta vez o ano de 2018, e com ele nos banhamos de esperança, essa âncora para nossa alma, afinal esperançados nos tornamos mais animados (com alma) a superar obstáculos e desafios.

Pego carona nesse “novo tempo” e desejo que iniciemos o ano refletindo um pouco sobre a “Eutimia” em nossas relações, que filosoficamente trata da satisfação tranquila, sem os sobressaltos das paixões sejam elas de amor ou de ódio.

Percebo que tendemos a carregar de um ano para o outro os vícios que vivemos no passado, e no caso dessa reflexão proponho que combatamos o vício do qual já tratei nessa coluna: nosso excessivo queixume em nossos vínculos.

Perdemos, muitas vezes, a nossa paz não somente pelas ameaças externas que nos tornam inseguros e ansiosos, mas o mais das vezes nossos dissabores nascem e se alimentam quando somos “tomados/possuídos” por um espírito de contenda, de ira, de ressentimentos, de críticas a tudo o que nos cerca, sobretudo a aqueles com quem temos vínculos de intimidade.

Proponho, então aqui, que engrossemos o cordão das pessoas que lutam e perseguem uma cultura de paz, aonde a comunicação não violenta ocupe a cena de nossa comunicação com o outro.

Serenamente satisfeitos: celebrando a vida relacional

Lembram do texto da serenidade? Se não, eu ajudo a memória de vocês, ou conto para os que não leram o artigo: serena, segundo Norberto Bobbio, é a pessoa que “se sabe ser”, que não se contamina com as contendas circulantes, e que desenvolve sistematicamente uma forma generosa e bondosa de se relacionar.

Sermos serenamente satisfeitos, em tempos de tantas insatisfações, estabelece-se como uma proposta ousada em meio ao enlodado (cheio de lodo) mundo de queixas e insatisfações nas quais estamos pantanosamente imersos.

Nos pântanos, quanto mais nos mexemos, mais afundamos. Por isso proponho a “pausa serena”, não é que não estejamos nos sentindo incomodados, mas o que fazemos com nossos incômodos? E ao que eles se ligam? Nem sempre a real causa de nossa insatisfação é aquilo que o outro faz conosco, às vezes o que nos incomoda no outro nasce da projeção de nossos mal-estares sobre nossos vínculos.

Cabe, portanto, a “pausa serena”, ela pode “escanear” nossos sentidos e aclarar o verdadeiro motivo de tantas queixas sobre o outro.

Mas devo alertá-los, entretanto, que esta pode ser uma operação de risco, uma vez que neste “pausar das emoções”, estaremos diante de nós mesmos e de nossas responsabilizações. Seremos convidados a questionar o nosso verdadeiro desejo de permanecermos ou não ao lado da pessoa de quem tanto nos queixamos.

E talvez, isso redunde numa separação, o que significará o “fim de sonhos e idealizações”, mas que por outro lado, poderá libertar os envolvidos em um mundo de guerra permanente, e assim abrir para os envolvidos, novos modos de vida, onde a serena satisfação seja a mediadora da relação e não o seu contrário.

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Em outros, casos, contudo, não será necessária a separação, pois poderão ser feitos “ajustes” na relação, a partir de novas percepções dos que estão nela envolvidos, de que é possível interromper o ciclo queixoso e fazer nascer um espaço relacional celebrativo, no qual os “erros” e “as insatisfações” serão apresentadas, porém, banhadas de respeito e amor ao valor que o outro tem, e não o seu contrário.

Estabelecendo desafios alcançáveis: somos humanos limitados

Percebo que temos agido, sobretudo em tempos atuais, com uma carga de exigência sobre nós mesmos e sobre o outro, que beira a desumanização. Andamos cobrando de nós a perfeição, assim como o fazemos com parceiros, sejam eles, filhos, cônjuges, amigos, pessoas com quem trabalhamos ou nos relacionamos.

Há estudiosos de vários campos: filosofia, história, sociologia, psicologia, teologia, compreendendo que isso talvez se deva, dentre outras coisas, à perda de nosso contato com a transcendência, que não precisará necessariamente estar ligada a uma religiosidade ou espiritualidade, e sim atrelada às situações e estados que nos auxiliem a ultrapassar os nossos limites humanos e que encham nossa vida de sentido.

Quando esse exercício não é praticado, resta ao ser humano buscar o “infinito” no “finito”, ou seja: queremos ser “deuses” e nos relacionar com “deuses”, e que enorme carga de frustração e insatisfação promovemos em nossos viver.

Fica então feito o convite: busquemos o transcendente no transcendente, e livremos nossos vínculos dessa onerosa carga, só assim nos reumanizaremos e viveremos no saudável limite de nossas humanidades, na qual precisaremos renovar a cada manhã a boa dose de perdão por todos os “erros” que humana e inevitavelmente cometeremos.

E para terminar...

Mais uma vez, desejo ter propiciado um espaço reflexivo que tenha nos auxiliado a melhorar nossas relações com os outros.

E para dar um reforço na proposta, deixarei a canção que foi cantada lindamente por meus netos Mateus (5 anos e meio) e Sofia (na época da apresentação com 1 ano e 11 meses), na apresentação de fim de ano da escola que tratou, competentemente da diversidade e da união entre os diferentes ao redor do mundo. E que com o convite musical, nossa “pausa serena” promova ótimos encontros.

Normal É Ser Diferente
Jair Oliveira

Tão legal, minha gente
Perceber que é mais legal quem compreende
Que amizade não vê cor
Nem continente
E o normal está nas coisas diferentes

Amigo tem de toda cor, de toda raça
Toda crença, toda graça
Amigo e de qualquer lugar
Tem gente alta, baixa, gorda, magra

Mas o que me agrada é
Que um amigo a gente colhe sem pesar
Pode ser igualzinho a gente
Ou muito diferente

Todos tem o que aprender e o que ensinar
Seja careca ou cabeludo
Ou mesmo de outro mundo
Todo mundo tem direito de viver e sonhar

Você não e igual a mim
Eu não sou igual a você
Mas nada disso importa
Pois a gente se gosta
E é sempre assim que deve ser

Você não e igual a mim
Eu não sou igual a você
Mas nada disso importa
Pois a gente se gosta
E é sempre assim que deve ser

https://www.vagalume.com.br/jair-oliveira/normal-e-ser-diferente.html




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    como, manter, relação, com, quem, tenho, muitas, queixas

Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



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