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Vício em internet?

Ceres Alves Araujo 02/02/2018 PSICOLOGIA
Vício em internet?
Fonte: Google Imagens
Mas, será que estamos frente ao vício à internet ou estamos frente a outro problema?

Por Ceres Alves de Araujo

As tecnologias que hoje se desenvolvem em ritmo cada vez mais vertiginoso, apresentam-se como instrumentos de modificação das formas pelas quais as pessoas se relacionam com a comunicação e a informação. Os recursos de imagens, sons, grafismos, textos atraem a atenção de crianças cada vez mais jovens e permitem, com facilidade de utilização, um aprendizado adaptado às diferentes capacidades, ritmos e estilos, tornando-se uma forma prazerosa de aprender para todas as idades.

É, sem dúvida, o modo de construção de conhecimento mais característico de nossos tempos, absolutamente compatível com a criança, o adolescente,  o adulto e o idoso da contemporaneidade.

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Na idade pré-escolar, a escolha dos eletrônicos para distrair e para brincar vem crescendo muito nos últimos tempos, trazendo vantagens e desvantagens, essas últimas, principalmente em função do tempo expandido de uso.

Da pré-adolescência em diante, os filhos em geral tendem a dominar muito mais as ferramentas da web que seus pais. Tornam-se tecnicamente muito sofisticados. Deixam-se invadir por estímulos de ordens diversas e buscam responder a tudo e a todos simultaneamente. A relação com a internet tende a ser prioritariamente lúdica para crianças e adolescentes e os videogames constituem as mídias eletrônicas de maior fascínio na atualidade. Podem ser jogado no computador assim como em plataformas especiais, como Nitendo, Playstation, Xbox, tablets e celulares.  Dividem-se quanto aos conteúdos em: ação, esportes, estratégia e luta.

A grande atração exercida por esses jogos é a possibilidade de interação, pois eles são participativos, permitindo ao jogador construir uma realidade onde ele controla o que quiser, com liberdade de escolha. Isso é especialmente encontrado nos jogos de estratégia. A imaginação e a criatividade são desenvolvidas pela necessidade de administrar um jogo dinâmico, no qual é necessário criar ações complexas, testar hipóteses sobre o mundo virtual criado e encontrar soluções para situações-problema, sob a forma de simulações que seriam impossíveis no mundo real. Os jogos de luta têm a função de favorecerem o confronto com a própria agressividade, que poderá levar mais tarde à possibilidade de controle sobre os impulsos e à possibilidade da regulação das emoções.

Porém, ao lado de todas essas vantagens, é frequente a queixa dos pais a respeito da quantidade de tempo que seus filhos gastam nos jogos eletrônicos, desde idades bem tenras e com aumento progressivo à medida que crescem.  Para muitos pré-adolescentes e adolescentes os contatos virtuais tendem a ser mais intensos que os reais.

Sem dúvida, é legítima a preocupação dos pais quanto ao tempo que os filhos permanecem ligados à web, seja qual for o meio utilizado a cada momento. Eles conseguem ao mesmo tempo ouvir música, acessar os diários escolares para fazer as lições, conectar-se aos amigos para verificar onde estão e o que estão fazendo, conversar com eles, entrar em grupos de conversa, participar de um jogo coletivo, navegar na rede em busca de novidades, ligar-se aos videogames etc. Suas redes neurais já estão exercitadas para tal.

Entretanto, a utilização excessiva do computador, dos serviços de mensagem e dos jogos eletrônicos pode afastar a criança e o jovem do exercício físico, da convivência real com seu grupo etário, com seus familiares, pode perturbar o sono e a alimentação, levando ao vício. E, muitas vezes, o problema do vício não é percebido, até que se torne muito grave.

Mas, será que estamos frente ao vício à internet ou estamos frente a outro problema? Possivelmente, nessas situações estamos frente a outro problema, o qual por sua vez pode conduzir ao vício à internet.

De fato, muitos pais estão preocupados com o tempo excessivo que seus filhos se mantêm plugados aos eletrônicos. Queixam-se de que seus filhos ficam tão focados nas telas que não atendem quando chamados para as refeições ou para outras atividades de vida diária, relatando que precisam chamá-los várias vezes e, por fim, até gritar para serem atendidos. Outros contam que enfrentam muita dificuldade ao tentar limitar o tempo de uso dos meios eletrônicos, principalmente para os adolescentes, que permanecem conectados madrugada adentro, apesar das tentativas de controle.  Outros pais reclamam, ainda, que não conseguem fazer com que os celulares ou tablets sejam desligados mesmo na hora das refeições.

Outro tipo de problema

Assim, além do problema do apego exagerado aos eletrônicos, acredito que, nessas situações, exista um outro tipo de problema:  os pais não estão conseguindo se fazer serem obedecidos pelos seus filhos. Precisar dar comandos ou fazer solicitações várias vezes, pior ainda aos gritos, é incompatível com a educação. Aliás, em qualquer comunicação social, espera-se ser ouvido, atendido ou contestado, sendo isso especialmente válido na relação pais-filhos.

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Também, além da falta de autoridade de muitos pais frente a seus filhos, pode-se observar que alguns pais permanecem conectados a seus telefones celulares praticamente o tempo todo, muitos até em função de ligações de trabalho, outros apenas checando o Facebook, o Twitter, o Instagram, o WhatsApp, o SMS etc. Há pais que não deixam de ficar mexendo no celular nem nas horas das refeições.  Pais e mães têm respondido às perguntas e às solicitações de seus filhos ao mesmo tempo que digitam no celular, para “curtir”, para comentar, para “postar” etc.

Não se pode esquecer que os pais são os modelos primordiais de identidade para seus filhos. Nessa situação, podem estar fornecendo aos filhos um padrão de atitudes muito ambíguo. Desejam controlar o uso excessivo dos eletrônicos pelos filhos, ao mesmo tempo que eles mesmos não possuem tal controle.

Os eletrônicos estão demais “incorporados” às pessoas. Não se trata de ficar fora da “onda eletrônica”, mas é preciso que a comunicação real, pessoa-a-pessoa, possa ser preservada e ensinada aos mais jovens. Caso isso não ocorra, poderemos caminhar, independentemente da idade, para o vício a esses tipos de eletrônicos.

Talvez o homem do futuro seja um híbrido de humano e máquina e, nesse sentido, não poderemos nem falar de vício à internet, pois a incorporação do homem à máquina já está se fazendo. Portanto, temos que reconhecer que toda essa tecnologia relacionada aos eletrônicos e à internet se traduz em prodigiosas ferramentas, em todos os sentidos, para a humanidade. Porém, temos que educar nossos filhos para saberem se servir delas.




TAGS :

    meu, filho, não, larga, celular, viciado, games

Ceres Alves Araujo

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.



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