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Paranoia ocorrida em uma bad trip de LSD, pode se tornar depois uma paranoia no dia a dia?

Danilo Baltieri 14/02/2018 SAÚDE E BEM-ESTAR
Paranoia ocorrida em uma bad trip de LSD, pode se tornar depois uma paranoia no dia a dia?
Fonte: imagem Pixabay
Você deve, imediatamente, procurar auxílio médico especializado

Por Danilo Baltieri

Depoimento de uma leitora

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“Usei papel (LSD) duas vezes, a primeira vez meio, e foi uma viagem boa; já a segunda foi um inteiro, e tive uma bad trip horrível. Estava com meu namorado, o irmão dele e a namorada do irmão, todos usamos. A partir do momento que fez efeito em mim, comecei a ter a impressão de que meu namorado e a cunhada dele estavam se olhando com muita malícia, eu fiquei muito mal, porém achei que fosse pira do papel. Só que mesmo depois disso, não usei mais papel e continuo vendo os dois se olhando muito. Eu quero muito saber se isso pode ser psicológico ou não, sempre fui uma pessoa muito insegura e paranoica, mesmo antes de usar drogas. Antes de ter usado papel pela segunda vez, eu nunca vi maldade na relação do meu namorado com a cunhada dele, pelo contrário, eles eram/são muito amigos, eu também sou amiga dela. Ah, eu fumo maconha diariamente com meu namorado. Por favor, aguardo a resposta, não aguento mais essa agonia, já pensei até em suicídio.”

Resposta: O consumo do LSD (Dietilamida do ácido lisérgico), reconhecidamente nos gêneros textuais médico-científicos, pode induzir alterações dos estados do humor, do comportamento e do conteúdo do pensamento. Os efeitos psíquicos e comportamentais desta droga iniciam, geralmente, entre 20 e 60 minutos após a ingestão oral, com um pico de atividade de cerca de 2 a 4 horas após a administração, com um lento e gradual retorno ao estado psíquico anterior ao uso da substância em 10 a 12 horas.

Seguramente, os efeitos são bastante variáveis de pessoa para pessoa, tendo em vista tanto fatores intrínsecos quanto extrínsecos ao usuário. Como fatores intrínsecos, citamos os aspectos da personalidade, expectativas diante do consumo, humor e ansiedade prévios ao uso. Como fatores extrínsecos, citamos o ambiente bem como as circunstâncias do uso, a qualidade e a quantidade da droga, as funções metabólicas do consumidor e o uso concomitante de outras substâncias psicoativas (incluindo bebidas alcoólicas e maconha).

De fato, devido, em larga escala, às suas incisivas ações sobre os receptores serotoninérgicos, em especial os do grupo 5-HT2, o LSD pode induzir quadros clínicos nefastos e caracterizados por:

a) mudanças súbitas do humor;
b) sensação de grandiosidade;
c) alterações na habilidade de concatenar ideias;
d) perturbações na habilidade de perceber o ambiente no qual o próprio usuário está (o ambiente pode parecer estranho, esquisito; as pessoas podem parecer diferentes, com intenções diversas);
e) alterações na percepção sobre si mesmo (o usuário pode achar-se estranho, com aspectos diferentes do usual);
f) pensamentos com conteúdos de ideias de perseguição, ciúmes;
g) medo intenso de perder o controle;
h) intensa ansiedade e medo;
i) modificações perceptivas (“ouvir” cores; “ver” cheiros);
j) crises de pânico.

Alguns usuários do LSD infelizmente podem, também, experimentar os famigerados flashbacks (transtornos perceptuais persistentes), ou seja, a revivescência dos sintomas nefastos dias ou mesmo meses após o último consumo.

Também infelizmente, algumas pessoas, mesmo as que fizeram uso uma única vez do alucinógeno LSD, podem ter sintomas que perduram por bastante tempo. Um dos sintomas mais referidos são os já mencionados flashbacks ou Transtornos perceptuais persistentes induzidos pelo uso do LSD. Apesar de incomum entre a vasta maioria dos consumidores recreativos, esta consequência do consumo parece ser mais frequente naqueles usuários que já padecem de algum transtorno psiquiátrico prévio, como por exemplo algum transtorno de ansiedade ou de humor.

Não podemos negar que existem usuários frequentes desta substância. No entanto, dada a imprevisibilidade da duração e da intensidade dos seus efeitos, torna-se uma substância bastante nociva que requer notória atenção.

Existem também sintomas físicos provocados pelo LSD, os quais costumam ter início mais precoce do que os sintomas comportamentais e/ou psíquicos. Abaixo, cito alguns destes sintomas físicos que podem ser induzidos pelo consumo do LSD:

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a) tontura;
b) sensação de formigamento nos membros;
c) fraqueza muscular;
d) tremores;
e) dilatação da pupila;
f) reflexos exaltados;
g) taquicardia;
h) hipertensão arterial.

Você refere que também faz uso de maconha. A combinação entre as duas substâncias pode tornar seus efeitos individuais até mesmo mais preocupantes. Os efeitos das duas substâncias combinados podem prejudicar sua habilidade para controlar pensamentos e comportamentos, aumentando seu estado de atual vulnerabilidade.

Existem alguns registros feitos por usuários desta combinação de substâncias, revelando várias consequências negativas, tais como:

a) prejuízos no trabalho e estudos;
b) prejuízos no namoro ou casamento;
c) perdas financeiras;
d) sintomas de alucinações;
e) alterações do conteúdo do pensamento;
f) pensamentos com ideias de suicídio.

Você deve, imediatamente, procurar auxílio médico especializado.

É importante a participação de pessoas da sua confiança, especialmente de familiares, neste momento.

Não tente imaginar que tomar decisões solitariamente pode ser melhor nesta situação e circunstância, porque, geralmente, não o é. Não perca tempo... nem um pouco.

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.

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TAGS :

    lsd, duração, efeito, paranoia, flashback, bad, trip

Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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