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Definida a orientação sexual, ela não é uma questão de escolha

Sandra Vasques 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Falar em opção sexual é um erro, o correto é afirmar orientação sexual

por Sandra Vasques

"Faz um ano que assumi minha homossexualidade, porém até hoje meus pais não aceitam e a situação é cada vez pior. Não sei mais o que fazer. Gostaria de uma orientação. Obrigada!"

Resposta: Muito difícil a situação de todos os meninos e meninas, homens e mulheres que sentem atração por pessoas do mesmo sexo, e que não são aceitos por suas famílias.

Há muitos anos, a medicina, a psicologia e a lei já reconheceram a normalidade dessa situação. No entanto, o medo, o preconceito, o egoísmo, a falta de informação se unem e transformam em solidão, em tristeza, em humilhação, em discriminação o que deveria ser fonte de alegria, orgulho, prazer, compartilhamento.

E a pergunta que não quer calar:

Por que a atração afetiva e sexual entre duas pessoas do mesmo sexo ainda provoca tanta rejeição e reprovação?

No que esse tipo de união é diferente da união entre duas pessoas de sexos diferentes? E a pergunta da garota: O que faço? - a mesma de tantas outras meninas e meninos.

Vamos ver algumas possíveis explicações e pensar a respeito.

É claro que cada caso é um caso, mas a partir de algumas considerações é possível cada um pensar o que cabe para si.

Creio que se os filhos puderem compreender melhor o que move a dificuldade dos pais, talvez possam começar uma conversa que chegue a um lugar diferente e melhor.

1ª) Os pais se culpam, ficam amedrontados, achando que fizeram alguma coisa errada durante a criação dos filhos e por isso eles se tornaram homossexuais. Se culpam e querem de alguma forma tratar os filhos, levando ao médico, ao psicólogo, a alguma autoridade religiosa. Acham que seus filhos vão sofrer muito, por preconceito, por não serem iguais à maioria. A resposta para esses pais: Eles não fizeram nada de errado em relação à definição da homossexualidade de seus filhos.

Não se tem certeza ainda sobre todos os fatores que levam uma pessoa a ser hétero, homo ou bissexual. E esses fatores envolvem os aspectos biológico, psicológico e o social. A única certeza, é que uma vez definida a orientação sexual, ela não é uma questão de escolha, ela é e pronto. Não tem jeito de tratar, de mudar. E o que está errado não é o filho se assumir, mas a sociedade em não aceitar a homossexualidade.

O que pode ser feito é uma escolha sobre o que a pessoa vai se permitir viver. Existe muita gente que não tem coragem de assumir o desejo que tem justamente por medo da rejeição e de ferir as pessoas que ama. É verdade que o preconceito existe e que o homossexual pode ter que enfrentar situações difíceis. É por isso mesmo que precisa de apoio e estímulo para saber se defender e lutar pelo direto de ser e viver feliz. E os pais, a família podem ser uma fonte muito positiva de referências, reflexões e acolhimento. Os pais deveriam refletir se querem ver seus filhos realizados e felizes, ou frustrados e ansiosos. Se existe amor de verdade, a primeira resposta é a que vale e eles vão estar ao lado deles, participando decididamente de suas vidas.

2ª) Os pais se sentem traídos, envergonhados, como se os filhos tivessem resolvido atacá-los, desobedecê-los. Não entendem a homossexualidade e não querem entender e ao contrário dos pais que se sentem culpados e amedrontados pelo futuro dos filhos, esses agem como se fossem egoístas e preconceituosos, e não conseguem aceitar que algo assim lhes aconteça e ameace o seu “nome” e da família. Fizeram planos para o filho ou filha e agora, não conseguem compreender que eles não vão seguir o que eles planejaram.

Digo e repito que são preconceituosos sim, e se escondem por baixo de uma capa de ofendidos – mesmo que não se deem conta disso. Mas não estão sozinhos. Sentem-se assim, porque vivem em uma sociedade que ainda é homofóbica e preconceituosa e, portanto, é bem provável que eles sejam sim alvo de fofocas, telefonemas entre pessoas que não tem o que fazer a não ser falar mal da vida alheia. Talvez algumas pessoas do círculo social, também preconceituosas, passem a evitar maiores contatos.

Sim, a vida pede que esses pais façam uma escolha bem difícil, rever seus valores e seus planos. Terão que se perguntar por que seu filho ou filha, ao se revelar homossexual, agora deve ser enxergado e avaliado de forma diferente de quando ainda não tinham se assumido. Por quê? O que mudou? E daí, a resposta será: Nada. Então, pode rever sua reação, sua raiva. Perceber que o que está motivando essa reação é o velho e terrível preconceito – pré-conceito. E daí, procurar perceber o que realmente sente e pensa. Escolher enxergar seu filho/a como realmente sempre foi e é, ou passar a acusá-lo, sem fundamentos, de um erro que ele nunca cometeu. E, se depois de refletir, ainda não conseguir aceitar, então que não dificulte a vida de seus filhos com um clima ruim em casa.

Se não consegue entender, precisa pelo menos respeitar. É sempre possível negociar o que é possível para a boa convivência. Se não dá por exemplo, pra conversar sobre o assunto, se não dá pra receber o par dentro de casa, que isso seja assumido e combinado. Mas também é importante aceitar que não é possível impor que a filha, por exemplo, não viva mais sua homossexualidade e a todo momento fique perguntando quando vai arranjar um namorado. Se não dá prá aceitar a namorada da filha, então também não dá para querer que ela arranje um namorado. Uma imposição inútil que só vai gerar mágoas e ressentimentos de todos os lados.

E quanto aos planos que fez para seus filhos, é sempre bom lembrar que criamos e orientamos os filhos para que eles escolham seus próprios caminhos, que nem sempre são os que sonhamos, o que não quer dizer que não sejam tão bons ou melhores que os nossos.

3ª) Outros pais em função da religião, acreditam que isso não seria correto e, portanto, seus filhos viveriam em pecado. Poderíamos então pensar que os pais, ficando com esse receio, e achando que existe influência de forças negativas; procuram de todas as maneiras levar o filho a mudar de ideia e levá-los para serem tratados na igreja. Mas, quando os filhos crescem, se tornam adolescentes e adultos, eles têm o direito de escolher sua própria religião, a que mais parece adequada às suas crenças e princípios de vida. E, repito, cada um deve fazer suas escolhas e se responsabilizar por elas. É uma situação difícil. Assim como as pessoas que são muito mal informadas, que não tiverem educação, e que estão sujeitas a acreditar no que ouvem de quem considera donos do saber.

Pode ser difícil se convencer de que os filhos estão vivendo algo normal. O que fazer?

Em qualquer situação, quando existe a rejeição, a resistência à aceitação, é importante que o jovem possa tentar entender o que será que está levando seus pais a agirem assim. Se existe uma boa comunicação, se os pais são próximos, talvez seja uma questão de dar um tempo a eles para pensarem melhor no assunto. Mas, se percebem raiva, ameaças de qualquer tipo, repressão, então é provável que esses pais realmente não consigam abrir o pensamento e o coração para aceitar a homossexualidade. Eles não estão preparados para entender o que o jovem está sentindo.

Então, é importante que fique bem claro que o jovem não tem culpa e que não está fazendo nada errado, mas talvez tenha que lidar com os pais de um jeito diferente. Ele vai ter que saber o que, quando e pra quem vai contar. Se esse não é o melhor momento, então que ele busque outras pessoas de sua confiança, parentes ou amigos, com quem possa conversar, ou outras pessoas que estão vivendo o mesmo que ele para dividir esse momento e conseguir apoio.

O esclarecimento - pela leitura, estudo, terapia familiar, grupos de apoio e outros - sobre relações homoafetivas e desmistificação em torno do assunto podem gerar ótimos frutos nesse caminho.

O jovem precisa ter a certeza que apesar das dificuldades, ele, como todas as pessoas merece buscar a felicidade. E os pais que não conseguirem aceitar a realidade, por escolha deles próprios, só poderão viver uma parte da vida de seus filhos, a que eles escolheram por suas próprias limitações. Isso pode ser lamentável, mas às vezes é a melhor saída.

Agradecimento: Quero agradecer a leitura cuidadosa e colaboração de um cliente homossexual, que, por sua coragem e determinação, hoje pode viver com integridade as dores e as delícias de ser o que é.

 

 




Sandra Vasques

Psicóloga, enfermeira, com especialização em sexualidade humana e formação em psicodrama. É orientadora sexual, atuando no Instituto Kaplan – Centro de Estudos da Sexualidade Humana - desde 1993. Leciona cursos de formação de educadores e terapeutas sexuais e atua como congressista. Co-autora dos materiais educativos Jogo de corpo, Aprendendo a viver; Vale sonhar, Valores em jogo e do Manual de atenção a educação sexual de crianças e adolescentes portadores do HIV - Viver Positivamente.



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Você toparia ter um relacionamento de “amizade com benefícios”? Tratam-se de amigos que se tornam parceiros sexuais sem deixar isso interferir na amizade; o termo vem da expressão 'friends with benefits'.





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